Há memórias que não se fixam pelo que explicam, mas pelo que insinuam. Elas não se apresentam como lições completas; chegam fragmentadas, quase cifradas, e permanecem assim – exigindo do tempo o trabalho de decifrá-las. Para mim, uma dessas memórias atende pelo nome de The Hall of Mirrors, música do Kraftwerk, ouvida pela primeira vez quando eu ainda era um pré-adolescente, muito antes de compreender o que, de fato, estava sendo dito ali.
A música não chegou sozinha. Veio embalada por uma propaganda televisiva dos anos 1980 no Brasil, associada ao calçado StarSax, exibida em um período em que o país ainda aprendia a conviver com imagens eletrônicas, sintetizadores e promessas de futuro. Não era apenas um comercial. Era uma atmosfera. Um estranhamento elegante, quase frio, que contrastava com o colorido ingênuo da publicidade da época.
O Kraftwerk nunca soou como música comum. Soava como aviso. Como se dissesse, sem pressa, que a tecnologia não seria apenas ferramenta, mas espelho.
É neste ponto que a música deixa de ser referência e passa a ser experiência.
(Abaixo, a música da “StarSax” exibida nos anos 1980, “The Hall of Mirrors”, do Kraftwerk – legendada.)
Canção emblemática que atravessou uma propaganda televisiva dos anos 1980 no Brasil e ajudou a moldar o imaginário de uma geração que ouviu o futuro antes de compreendê-lo
Em The Hall of Mirrors, obra central da música eletrônica alemã, a identidade se fragmenta, se duplica, se observa. Não há afirmação confortável — há reflexo. E reflexos, sabemos, nem sempre devolvem aquilo que gostaríamos de ver. A canção não oferece respostas; oferece superfícies. Cabe ao ouvinte reconhecer-se nelas.
Anos depois, ao traduzir a letra, o impacto foi ainda maior. O que antes era apenas sensação revelou densidade filosófica. Falava-se de autoimagem, de vigilância, de dissolução do “eu” diante das máquinas. Aquilo que, na infância, parecia apenas futurista, mostrou-se profundamente atual. O futuro que a música anunciava não estava adiante – estava chegando.
Talvez por isso aquela propaganda tenha marcado tanto. Não pelo produto em si, mas pelo clima. Ela capturou, sem saber, uma geração inteira no exato momento em que começava a se ver refletida em telas, monitores e superfícies artificiais. Era a primeira vez que muitos de nós nos percebíamos como parte de algo maior, mais técnico, menos orgânico.
Hoje, quando penso naquele comercial, não penso em consumo. Penso em identidade. Penso em como uma canção atravessou a televisão e se alojou silenciosamente na memória afetiva de quem cresceu nos anos 1980. Penso em como ouvimos o futuro antes de termos vocabulário para entendê-lo.
O Salão dos Espelhos não era apenas uma metáfora artística. Era um prenúncio. E nós, sem perceber, já estávamos lá dentro — observando a nós mesmos, multiplicados, mediados, refletidos.
Algumas canções não envelhecem. Elas apenas aguardam que estejamos prontos para compreendê-las.
