Navio da francesa CMA CGM torna se o primeiro cargueiro ligado à Europa Ocidental a atravessar o estreito de Ormuz Foto Quirino Mealha
Na ONU, resolução que legitimaria ataques ao Irã enfrenta veto de China, Rússia e França – e escancara rachadura no Ocidente
França desafia bloqueio dos EUA e expõe isolamento crescente de Trump no Golfo
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – Em meio à escalada militar no Oriente Médio, a França conseguiu nesta semana o que nenhum aliado direto dos Estados Unidos havia obtido desde o início dos confrontos: a passagem de um navio de bandeira francesa pelo Estreito de Hormuz. A permissão iraniana escancara o isolamento diplomático da administração Donald Trump e evidencia o fracasso da estratégia de Washington de impor força bruta na região.
A embarcação, um porta-contêiner de propriedade francesa, navegou pelo ponto mais sensível da geopolítica global do petróleo sem ser incomodada. Segundo analistas, a chave para a travessia foi política, não militar. O Irã tem deixado claro desde o início da crise que o estreito não está fechado para todos — apenas para nações hostis que cedem bases aos EUA ou participam dos ataques. Ao bater de frente com Washington, fechar seu espaço aéreo a operações americanas e criticar abertamente a guerra, Paris conquistou um canal de diálogo que Teerã nega a sauditas, emiradenses, bareinitas e aos próprios norte-americanos.
O que a ONU pretende e o posicionamento de França, China e Rússia
Paralelamente aos combates, move-se nos bastidores da diplomacia uma ofensiva jurídica que pode redefinir os termos da guerra. O Conselho de Segurança da ONU foi acionado por Bahrein, Jordânia e outros países do Golfo com uma resolução que pretende tornar legítimos os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã. O texto, na prática, busca classificar Teerã como responsável exclusivo pela instabilidade regional – sobretudo pelo fechamento seletivo do Estreito de Hormuz -, transformando o país em alvo militar legítimo e lavando a ilegalidade da ofensiva atual.
A aprovação da resolução abriria caminho para sanções mais duras, maior isolamento diplomático do Irã e, crucialmente, para que outros países – incluindo monarquias do Golfo – se juntassem aos ataques sem o estigma de violar o direito internacional. Seria um salvo-conduto para a escalada.
No entanto, a proposta esbarra em um obstáculo intransponível: três dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança já anunciaram que usarão seu poder de veto. China, Rússia e França disseram, em momentos distintos, que não aprovarão a resolução. E basta um veto para enterrar a iniciativa.
- China foi a primeira a se posicionar. Pequim declarou oposição a qualquer uso de força, pediu cessar-fogo e recomendou que o Irã reavalie suas ações no estreito – mas sem jamais endossar uma guerra. A posição chinesa é coerente com sua estratégia mais ampla: não enviar tropas, não alimentar o conflito e atuar como contrapeso à hegemonia americana no Conselho.
- Rússia, igualmente, alinhou-se ao pedido de cessar-fogo e classificou como perigosa qualquer tentativa de legalizar os ataques. Moscou vê na crise uma oportunidade de desgastar a liderança ocidental e de cobrar o preço pelo isolamento a que foi submetida desde a invasão da Ucrânia.
- França – e aqui reside o dado mais novo e mais incômodo para Washington – também vetará. Emmanuel Macron, que no início do conflito chegou a enviar sinais de alinhamento com os EUA, incluindo o deslocamento do porta-aviões Charles de Gaulle, deu uma guinada significativa. Cansado das provocações pessoais de Trump (que já zombou publicamente de sua esposa e de suas políticas), o presidente francês passou a responsabilizar abertamente os EUA e Israel pela guerra. A aposta francesa é clara: o diálogo com o Irã, não a força, é o único caminho para reabrir Hormuz de forma estável.
A votação da resolução, prevista para este sábado, tornou-se, portanto, um balão de ensaio da capacidade de Trump de coagir aliados. O resultado antecipado – veto triplo – expõe não apenas a fragilidade da coalizão americana, mas também um realinhamento em curso: pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, três membros permanentes do Conselho de Segurança, dois deles ocidentais, unem-se contra os interesses imediatos de Washington.
A guinada francesa e o preço do isolamento de Trump
A reviravolta de Macron tem nome e sobrenome: percepção de fraqueza. Após anos de relativa submissão europeia às diretrizes americanas – mesmo sob críticas pontuais -, o líder francês identificou que Trump, quando enfrentado por um bloco coeso, recua. Em discurso na Coreia do Sul, Macron foi além: criticou abertamente a “vassalagem” europeia aos EUA e defendeu a soberania do continente. A mensagem ecoa em Roma e Londres, onde Giorgia Meloni e Keir Starmer também ensaiam críticas, ainda que mais contidas.
O cenário fica ainda mais delicado para Trump no plano doméstico. Com os custos do conflito disparando, o presidente pediu ao Congresso um adicional de US$ 1,5 trilhão para financiar as Forças Armadas até 2027 – um rombo que expõe o desespero de uma administração que prometeu retiradas rápidas e se vê atolada em uma guerra de desgaste. Do outro lado, o Irã respondeu com derrubada de aeronaves americanas, ataques a refinarias no Kuwait e nos Emirados, e ofereceu recompensa por pilotos abatidos.
A resposta do chanceler iraniano, Abbas Araghchi, à ameaça de Trump de “levar o Irã à Idade da Pedra” sintetiza o tom da crise: “Não havia extração de petróleo ou gás no Oriente Médio naquela época. Será que os americanos têm certeza de que querem voltar no tempo?” A ironia sublinha um fato incômodo para Washington: a guerra já não se vence só com bombas quando se perde a guerra política e diplomática.
A análise final é implacável para a estratégia trumpista. O que se vê no Golfo não é a afirmação do poder americano, mas sua erosão em tempo real. Ao tentar isolar o Irã, os EUA terminaram isolados — e a passagem do navio francês por Hormuz, somada ao veto triplo na ONU, é a prova mais visível de que o mundo já não atravessa o estreito sob as ordens de Washington.
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