
Discussão entre o vereador Rodrigo do Mucambo e a coordenadora da AMAB, Cindy Souza dos Santos, expõe tentativa de personalização do debate orçamentário e levanta questionamentos sobre os limites do ativismo político exercido por ocupante de cargo comissionado
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – Uma discussão de natureza estritamente política entre o vereador Rodrigo do Mucambo e a coordenadora da Associação de Amigos dos Autistas de Barreiras e Região (AMAB), Cindy Souza dos Santos, voltou ao centro do debate público nesta semana, reacendendo tensões na Câmara Municipal em um momento de extrema fragilidade fiscal do município.
Cindy, que além de presidir a associação ocupa cargo de livre nomeação na Secretaria Municipal de Saúde, sob gestão do prefeito Otoniel Teixeira, convocou um ato público marcado para terça-feira, 10 de fevereiro de 2026, às 19h, na sede do Legislativo. A mobilização, divulgada em redes sociais, direciona críticas exclusivamente ao vereador Rodrigo do Mucambo, parlamentar que vem questionando a política de endividamento da Prefeitura e a destinação de recursos públicos.
Fiscalização parlamentar e reação política
O ponto central do embate reside na atuação fiscalizatória do vereador, que tem se posicionado contra o pedido do Executivo para contratação de empréstimo de R$ 140 milhões, cuja autorização depende da Câmara Municipal. A iniciativa de Rodrigo do Mucambo se ancora em dados oficiais da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, publicada no Diário Oficial do Município em 9 de fevereiro de 2026, que apontam comprometimento elevado da receita com o pagamento de dívidas bancárias.
A reação de Cindy, no entanto, deslocou o debate do campo técnico-orçamentário para o plano pessoal e emocional, numa estratégia que passou a ser questionada inclusive por integrantes da própria comunidade atípica.
Convocação pública e exposição de terceiros
Na convocatória publicada nas redes sociais, Cindy listou nomes de mães de crianças atípicas, expondo-as publicamente como apoiadoras do ato político – iniciativa que gerou forte repercussão negativa.
A seguir, a íntegra da convocação divulgada por Cindy Souza dos Santos, com supressão dos nomes das mães, conforme critério jornalístico de proteção de terceiros:
CHAMAMENTO ÀS MÃES ATÍPICAS DA AMAB
“Mães atípicas da AMAB,
este é um chamado à união, à coragem e à defesa da verdade.Nossa fundadora, Cindy Souza, falou como cidadã, exercendo seu direito de cobrar políticas públicas de qualidade. Em resposta, foi atacada de forma pessoal e covarde por um vereador que, após 6 anos de mandato, não apresentou ações concretas para a inclusão.
Cindy foi atacada como profissional, por ser servidora pública, por receber um salário de R$ 3.785, foi acusada injustamente de ‘não fazer nada’ e chegou a ser chamada de parasita.
Enquanto isso, quem a ataca é um vereador que recebe cerca de R$ 17 mil, não tem nenhum projeto relevante aprovado e prefere agir como piadista de palanque nas redes sociais, ao invés de trabalhar pela população.
Além disso, o mesmo vereador tenta barrar o empréstimo necessário ao Executivo, um empréstimo que impacta diretamente projetos fundamentais para nossa causa, como a Casa do Autista e outras políticas públicas essenciais para nossas crianças e famílias.
Isso não é sobre política partidária.
Isso é sobre respeito, verdade e defesa da inclusão.👉 Por isso, convocamos todas as mães atípicas da AMAB para estarmos presentes, unidas e de forma pacífica na:
📍 Câmara de Vereadores
📅 Terça-feira
⏰ 19:00 hrsNossa presença é a nossa resposta.
Nossa união é a nossa força.
Não aceitaremos ataques, mentiras nem retrocessos.
Mandato não é favor. É obrigação.
E se vereador não trabalha a favor do seu povo, o povo vai cobrar e vai fazer trabalhar.Pela AMAB.
Pela inclusão.
Pelas nossas crianças e famílias.”**
Críticas de outras mães e questionamento interno
A estratégia adotada por Cindy não foi recebida de forma unânime. Em comentários nas redes sociais, outras mães da comunidade atípica reagiram duramente, apontando excesso e uso político indevido da causa. Entre as manifestações, destacam-se as seguintes críticas, reproduzidas de forma literal:
“Absurdo isso.”
“Agora me diz se isso é postura de uma coordenadora.”
“Sensacionalista.”
“Irresponsável.”
“Prefere expor e desorganizar as crianças.”
“Usando como massa de manobra.”“Empréstimo público não pode ser usado para despesas de custeio, apenas para investimento. Em nenhum momento se falou em construir casa para autistas ou realizar obras.”
“Estão tentando usar uma causa sensível para fazer jogo político de Otoniel, que nunca ajudou as crianças atípicas.”
“O problema não é prédio. O problema é a falta de atendimento no CER. Falta cuidado, falta gestão e falta compromisso. É isso que as mães precisam, e é isso que esse governo não entrega.”
Desconhecimento normativo e distorção do debate orçamentário
A vinculação do empréstimo de R$ 140 milhões a projetos específicos voltados à causa autista não encontra respaldo nos documentos oficiais do município. A própria Lei Orçamentária Anual de 2026 estabelece que operações de crédito não podem ser utilizadas para despesas de custeio e não traz previsão expressa para a construção de equipamentos como a chamada “Casa do Autista”. Os dados orçamentários também indicam que R$ 105,9 milhões do orçamento anual estão comprometidos com juros e amortizações da dívida pública — o equivalente a 75,6% do valor do novo crédito pretendido -, o que evidencia o elevado grau de endividamento do município e enfraquece a narrativa apresentada pela coordenadora.
Limites do debate democrático
Ao personalizar a discussão e lançar ataques diretos à atuação parlamentar, Cindy Souza dos Santos, na condição de ocupante de cargo comissionado, pode ter ultrapassado os limites de um debate democrático saudável. O questionamento do vereador Rodrigo do Mucambo se concentra em dados oficiais, publicações do Diário Oficial e números da LOA, não em ataques pessoais.
A tentativa de transformar a fiscalização legislativa em agressão política, utilizando uma causa sensível como escudo discursivo, desloca o foco do problema central: a crise fiscal estrutural de Barreiras, amplamente documentada e reconhecida por dados oficiais.
Contexto fiscal documentado
Matérias publicadas pelo Portal Caso de Política – ver aqui e aqui – em 9 de fevereiro de 2026 já haviam alertado que a LOA 2026 funciona, na prática, como uma confissão de insolvência administrativa, com risco real de atraso salarial, calote em fornecedores e paralisação de serviços essenciais caso o município continue dependente de novos empréstimos bancários.
Nesse cenário, a atuação do vereador Rodrigo do Mucambo se insere no exercício regular da função fiscalizatória, enquanto a reação política da coordenadora da AMAB revela uma tentativa de deslocar o debate técnico para o campo emocional, sem alterar a realidade dos números nem afastar a responsabilidade do Executivo municipal.
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