Foto: DIRCOM Barreiras
A sete dias do início da festa, Diário Oficial revela apagão documental envolvendo dezenas de artistas e coloca em xeque a legalidade das contratações anunciadas pela gestão municipal de Barreiras
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A Prefeitura de Barreiras enfrenta um cenário de fragilidade administrativa às vésperas do Carnaval 2026. Enquanto o marketing oficial promove o evento com o slogan “Chama que Contagia” e divulga uma programação robusta para os circuitos Zé de Hermes, Aguinaldo Pereira e Rio de Ondas, documentos publicados no Diário Oficial do Município expõem um contraste significativo entre o discurso institucional e a realidade burocrática.
Na edição nº 4593 do Diário Oficial, publicada em 6 de fevereiro de 2026, exatamente uma semana antes do início da folia, marcado para a sexta-feira (13), consta uma extensa relação de artistas e bandas com pendências documentais consideradas essenciais para a formalização de contratos e para a liberação de pagamentos com recursos públicos. A ausência desses documentos inviabiliza, do ponto de vista legal, a conclusão das contratações.
O problema ganha maior dimensão quando comparado ao anúncio oficial feito em 22 de janeiro, durante o lançamento do Barreiras Folia 2026. Na ocasião, a gestão do prefeito Otoniel Teixeira destacou um suposto “planejamento integrado”, com valorização da cultura local e organização antecipada do evento. O que se observa, porém, nos registros técnicos do próprio município, é uma corrida contra o tempo para regularizar situações que deveriam ter sido sanadas nas etapas iniciais do credenciamento.
Apenas seis atrações aptas a uma semana do evento
De acordo com a 3ª Ata de Credenciamento, publicada nas páginas 3 e 4 do Diário Oficial, apenas seis atrações cumpriram integralmente todas as exigências legais até o dia 6 de fevereiro. O número chama atenção diante da necessidade de preencher cinco dias de programação carnavalesca, com dezenas de apresentações distribuídas entre os circuitos oficiais.
Atrações com Credenciamento Aprovado (Situação Regular)
Estes são os únicos artistas que, conforme as páginas 3 e 4 do D.O., cumpriram as exigências legais:
Artista / Banda |
Gênero Musical |
Situação |
| Bruno Paiva | Pagode, Piseiro e Axé | Aprovado |
| Tamires Nathiely (Wátila Fonseca) | Diversos (Arrocha a Jazz) | Aprovado |
| Wagner Moreira (Banda 100 Nome) | Rock, Pop e Reggae | Aprovado |
| Alcebias Flor (DJ Doura e DJ Jully) | Piseiro, Eletrônica e MPB | Aprovado |
| Tatiane Campos (Roda dos Amantes do Samba) | Samba | Aprovado |
| Patricia Pereira (Jama Afro e Banda) | Axé e Pagode | Aprovado |
Fonte: Diário Oficial de Barreiras, Edição 4593, 06/02/2026, Páginas 1 e 2.
Amostra de Pendências Críticas (Situação Irregular)
Artistas em “alerta” devido à falta de documentos básicos, conforme as páginas 5 e 6 do D.O.:
Representante / Banda |
Item no D.O. (nº da página) |
Principais Pendências Documentais |
| Rodrigo Carvalho Fernandes (Banda N78) | Página 5 | Portfólio ou contrato, Título de Eleitor |
| Adauto Silva dos Santos | Página 5 | Portfólio ou contrato, Anexo II |
| Rafael Silva Macedo | Página 5 | Anexo III |
| Hamilton dos Santos Gomes | Página 5 | Portfólio ou contrato, Receita Federal |
| Wilberson Charles Ferreira de Oliveira | Página 5 | Portfólio ou contrato, Certidão de quitação eleitoral |
| Luciana Santos da Silva | Página 5 | Portfólio ou contrato, Anexo III |
| Thomas Alves da Silva Neto | Página 5 | Portfólio ou contrato, Anexo II, Título Eleitoral |
| Katarina de Melo Saggin | Página 5 | Certidão de Quitação Eleitoral, Certidão da Fazenda Municipal |
| HB Barreto Bessa Representações | Página 5 | CNPJ, Contrato Social, RG e CPF Sócios, Regularidade do FGTS, Certidão da Fazenda Municipal |
| Ana Angelica C. Branco da Silva (Ana Castelo) | Página 5 | Artista fora da Regional e Local, Portfólio ou contrato, Comprovante de Endereço, Título eleitoral, Certidão da Fazenda Municipal |
| Welden Mendes Guimarães | Página 5 | Portfólio ou contrato, Comprovante de Endereço |
| Romulo Matos da Silva (Romulo Malva) | Página 5 | Anexo II e III |
| Katila Silva Lima (Katila Lima) | Página 5 | Anexo II e III |
| Filipe Silva Pereira | Página 5 | Anexo II |
| Jose Fernandes dos Santos | Página 5 | CNPJ – Empresa não Cadastrada, Certidão de Regularidade do FGTS |
| George dos Santos Dos Santos Silva | Página 5 | Portfólio ou contrato, CPF, Certidão de Quitação Eleitoral, Certidão da Fazenda Municipal |
| Renívia Pereira Medeiros | Página 5 | Artista fora da Regional e Local, Anexo II e III, RG e CPF dos Sócios, Certidão da Fazenda Municipal, Certidão de Regularidade do FGTS |
| Maria Aparecida S. J. ME (Mary Flor da Viola) | Página 6 | Portfólio ou contrato, Certidão de Regularidade do FGTS, Carta de Exclusividade |
| Edivaldo Gomes de Araujo (Dinho Gomes) | Página 6 | Contrato Social, Portfólio ou contrato, Anexos II e III |
| Sarah Bianca de O. Pacheco (Luanda) | Página 6 | Anexo II e III |
Fonte: Diário Oficial do Município de Barreiras, Edição nº 4593, 06 de fevereiro de 2026.
Impactos econômicos e desgaste político
O impasse administrativo ocorre em um momento sensível para o comércio local, que tradicionalmente se prepara para o aumento do fluxo de consumidores durante o carnaval. Investimentos em estoque, contratação de pessoal temporário e estrutura dependem da expectativa de um evento plenamente organizado. O risco de cancelamentos, alterações de última hora ou esvaziamento da grade artística representa potencial prejuízo econômico.
Politicamente, o episódio gera desgaste para a gestão municipal. O discurso oficial de que o carnaval funciona como “vetor de desenvolvimento econômico” perde força quando a própria administração não consegue organizar, com antecedência, o processo de credenciamento e contratação dos artistas que sustentam o evento.
Marketing em alta, gestão em baixa
O que o Diário Oficial de Barreiras revela é uma inversão de prioridades. A gestão municipal investiu fortemente no espetáculo publicitário – com lançamentos midiáticos, slogans de impacto e promessas de grandiosidade – enquanto deixou em segundo plano o rigor técnico indispensável à administração de recursos públicos.
Ao empurrar a regularização documental de dezenas de atrações para a última semana antes do evento, a Prefeitura não apenas expõe fragilidade administrativa, como também transfere insegurança aos artistas locais, mantidos sob uma burocracia tardia, confusa e mal conduzida. O episódio evidencia um padrão de gestão mais preocupado com a imagem do que com a execução.
A ironia se acentua quando se observa que, em meio a falhas básicas no credenciamento do Carnaval 2026, o próprio município publicou editais com erro grosseiro de data, fazendo referência ao ano de 2926 – um detalhe que compromete a credibilidade formal dos atos administrativos. Enquanto isso, o carnaval real, com impacto financeiro imediato e alta exposição pública, permanece cercado de pendências e riscos jurídicos.
No fim, o slogan “Chama que Contagia” ganha um sentido involuntário. O que se espalha não é apenas o entusiasmo da festa, mas também um modelo de gestão em que o marketing avança mais rápido do que a capacidade administrativa de cumprir o essencial.
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