Delegacia Territorial de Santa Maria da Vitória, onde o produtor rural registrou a ocorrência da invasão armada em sua propriedade em Jaborandi. (Foto Alberto Maraux)
Vítima registrou ocorrência em Santa Maria da Vitória; invasores teriam sido liderados por irmãos com histórico de processos por esbulho possessório e porte ilegal de arma em MT, RJ e BA
Madrugada de terror na região de Cascavel e Onça
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O município de Jaborandi, no oeste da Bahia, voltou a ser palco de um episódio grave de violência no campo. Na madrugada da última sexta-feira (20), homens encapuzados e fortemente armados invadiram uma fazenda na região de Cascavel e Onça, às margens dos rios Pratudão e Formoso, renderam trabalhadores e instauraram um cenário de terror contra o produtor rural Vanderlei Brito de Souza, conhecido como Nei da Prainha.
A ocorrência foi registrada na Delegacia Territorial de Santa Maria da Vitória, que instaurou inquérito policial para apurar os fatos. Segundo o relato apresentado à polícia, a ação teria sido liderada pelos irmãos Moisés de Souza Boechat e João Batista de Souza Boechat, conhecidos na região como “Cariocas”, acompanhados por mais de oito homens armados.
Trabalhador rendido e ameaça de morte
De acordo com a narrativa da vítima, o grupo chegou à propriedade de forma violenta, tomou o local e submeteu os presentes a grave intimidação. Um dos trabalhadores que auxiliavam Nei foi rendido e levado sob ameaça de morte, em episódio descrito como sequestro relâmpago. O objetivo, segundo os relatos, era impor o medo, demonstrar força e consolidar uma investida possessória pela violência.
Ainda segundo Vanderlei Brito, os invasores entraram na residência e encontraram uma pistola no interior de uma mochila. Nesse momento, conforme sua versão, a arma – legalizada, segundo a vítima, que é CAC (Caçador, Atirador e Colecionador) – foi tomada e utilizada para ampliar o clima de ameaça, com disparo efetuado nas proximidades de seus pés. O recado, segundo a leitura do episódio, era inequívoco: calar a vítima pelo pavor.
Reunião na véspera e base de apoio na região
O caso ganha contornos ainda mais sensíveis porque, conforme relatado, a operação invasiva teria contado com base de apoio em área vizinha atribuída a terceiro com influência política local. Não há, até o momento, confirmação oficial sobre participação direta dessa pessoa, mas a circunstância narrada amplia a necessidade de investigação rigorosa, independente e sem complacência.
Outro ponto que chama atenção é a informação de que, na noite anterior à invasão, teria ocorrido uma reunião em Jaborandi com a presença dos irmãos Boechat e de outros envolvidos. A coincidência temporal entre a reunião e a ação armada do dia seguinte reforça a necessidade de apuração profunda sobre eventual articulação prévia dos fatos.
Histórico de ameaças e registro de ocorrência
Após a invasão, Nei deixou a propriedade com os trabalhadores e procurou a polícia para formalizar a denúncia. Segundo a defesa da vítima, o histórico de ameaças já era conhecido, tanto que havia sido registrado boletim de ocorrência virtual nº 00222085/2026, protocolo nº 2026/0000210357-1, diante do receio concreto de esbulho possessório e de novas ações violentas.
Irmãos apontados como líderes têm histórico de processos
O episódio não surge em um vazio. Os irmãos apontados como líderes da ação já aparecem como réus ou investigados em uma série de processos judiciais relacionados, em sua maioria, a conflitos possessórios, ações civis públicas e ocorrências conexas. Entre os registros mencionados estão:
Número do Processo | Classe | Local |
| 8000673-94.2021.8.05.0068 | Esbulho possessório | Bahia |
| 1001920-26.2023.8.11.0059 | Ação civil pública | Canabrava do Norte/MT |
| 1001492-73.2025.8.11.0059 | Ação civil pública / carta precatória | Canabrava do Norte/MT |
| 1000225-95.2024.8.11.0093 | Esbulho possessório | Feliz Natal/MT |
| 1000084-42.2025.8.11.0093 | Ação civil pública | Feliz Natal/MT |
| 0913736-52.2023.8.19.0001 | Ação civil pública | Porto Alegre do Norte/MT |
| 0860989-57.2025.8.19.0001 | Inquérito policial por esbulho possessório | Rio de Janeiro/RJ |
| 0807218-08.2023.8.19.0205 | Interdito proibitório | Itaboraí/RJ |
| 0804339-64.2022.8.19.0075 | Auto de prisão em flagrante por porte ilegal de arma | Macaé/RJ |
A pergunta que não pode ser ignorada
Diante desse histórico, o caso de Jaborandi deixa de ser um fato isolado e passa a ser visto, ao menos sob a ótica da vítima, como parte de uma sequência alarmante de episódios que exigem resposta firme do Estado. Para Nei da Prainha, não se trata apenas de uma disputa por terra, mas de uma experiência de violência real, com invasão de domicílio, ameaça armada, privação de liberdade de trabalhador e ruptura completa da segurança no campo.
A gravidade dos relatos impõe uma pergunta que não pode ser ignorada: até quando produtores e trabalhadores rurais seguirão expostos a ações dessa natureza sem resposta estatal rápida e exemplar? Em regiões marcadas por conflito fundiário, a omissão institucional não apenas fragiliza a autoridade da lei, mas também encoraja novas investidas violentas.
Até o fechamento desta matéria, os citados não foram localizados para se manifestar.
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