Sinalização precária e vias deterioradas expõem condutores em Barreiras
Imagem meramente ilustrativa, gerada por IA
Enquanto o Diário Oficial registra sucessivas notificações de trânsito, ruas da cidade convivem com falhas de sinalização, buracos e condições que ampliam a vulnerabilidade de quem circula sobre duas rodas.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O asfalto de Barreiras tem revelado uma contradição que merece ser encarada com seriedade: de um lado, a fiscalização e a aplicação de multas avançam; de outro, persistem problemas visíveis de sinalização, conservação viária e segurança no trânsito.
Em um curto espaço de tempo, a Avenida Jardim da Saudade, no sentido BR-242, foi palco de dois acidentes envolvendo motociclistas, presenciados pela reportagem do Caso de Política. As ocorrências, embora distintas e sem que seja possível atribuir a elas uma causa única sem investigação técnica, recolocam em evidência uma questão que ultrapassa o episódio isolado: em que condições estão sendo oferecidas as vias para quem diariamente precisa atravessar a cidade?
Por respeito às vítimas e por um imperativo ético, a reportagem optou por não registrar imagens das pessoas envolvidas. Diante de uma situação de sofrimento, o dever jornalístico não pode se confundir com o espetáculo. A prioridade, naquele momento, era o socorro e a preservação da dignidade de quem estava no asfalto.
Na manhã de segunda-feira (17), uma mulher que conduzia uma motocicleta e transportava o filho, de aproximadamente seis anos, sofreu uma queda após uma colisão. A criança, assustada, chorava ao lado da mãe enquanto aguardava atendimento. Mais do que a imagem de um acidente, a cena expôs a vulnerabilidade de quem circula diariamente pelas ruas de uma cidade que cresce e, com ela, amplia os desafios de mobilidade e segurança viária.
Na manhã desta quinta-feira (20), praticamente no mesmo trecho, outro acidente voltou a chamar a atenção. Uma mulher, aparentando cerca de 30 anos, também em uma motocicleta, colidiu com um veículo e permaneceu no asfalto, consciente, enquanto aguardava atendimento.
Não cabe à reportagem estabelecer, por conta própria, uma relação direta entre as condições da via e as causas desses acidentes. Essa é uma tarefa que exige apuração técnica. Mas também não parece razoável ignorar o contexto em que eles ocorrem.
Em diferentes pontos de Barreiras, a precariedade da sinalização é perceptível. Na Avenida Souza Moreira, que liga a Vila Brasil ao Anel Viário, a situação é particularmente evidente: não há sinalização horizontal para organizar o fluxo, delimitar faixas ou indicar travessias de pedestres. Também não existe uma sinalização vertical adequada ao longo do trecho. O que se vê são algumas placas pontuais, insuficientes para oferecer ao motorista uma orientação clara e contínua sobre as condições da via.
O problema se torna ainda mais preocupante quando a ausência de sinalização se soma às condições do próprio pavimento. Buracos, desníveis e outros obstáculos passam a dividir espaço com motoristas e motociclistas sem que haja, em muitos casos, a devida advertência. Para quem circula sobre duas rodas, uma irregularidade aparentemente banal pode representar um risco muito maior.
É nesse ponto que surge uma pergunta incômoda para a administração municipal: qual é o equilíbrio entre fiscalizar o motorista e oferecer condições adequadas para que ele circule com segurança?
O Diário Oficial do Município registra, com frequência, atos relacionados a autuações e notificações de trânsito. A fiscalização é legítima e necessária. O cumprimento das regras é parte essencial de uma política pública de segurança viária.
Mas fiscalização não pode ser o ponto final da política de trânsito.
Multar quem infringe a legislação é uma atribuição do poder público. Garantir sinalização adequada, manutenção das vias, organização do tráfego e educação para o trânsito também.
É justamente nessa equação que a população tem o direito de cobrar respostas.
Quanto é arrecadado com multas? Quanto desse recurso retorna, direta ou indiretamente, para ações de segurança viária? Quantas vias recebem manutenção de sinalização por ano? Existe um cronograma público para recuperação da sinalização horizontal e vertical? E quais são as prioridades da administração para os pontos considerados de maior risco?
São perguntas objetivas. E merecem respostas igualmente objetivas.
O agente de trânsito não deve ser visto como adversário do motorista. Sua função ultrapassa a aplicação de penalidades: envolve orientação, prevenção, organização e contribuição para um trânsito mais seguro.
Da mesma forma, uma política municipal de trânsito não pode se resumir ao ato de fiscalizar.
Uma cidade que cobra responsabilidade dos seus condutores precisa também assumir responsabilidade sobre as condições das suas próprias ruas.
O problema, portanto, não está na existência da fiscalização. Está no risco de construir uma política pública em que a punição seja mais visível do que a prevenção.
Barreiras precisa de mais do que motoristas multados. Precisa de ruas sinalizadas, pavimento em condições adequadas, fiscalização orientadora, educação para o trânsito e planejamento capaz de identificar e corrigir pontos críticos antes que novos acidentes aconteçam.
Na Avenida Jardim da Saudade, o choro de uma criança diante da queda da própria mãe não deve ser transformado em espetáculo. Deve ser ouvido como um alerta.
Porque, no trânsito, prevenir não é apenas uma obrigação administrativa. É uma forma de proteger vidas.
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