Foto: print da transmissão – Rádio Oeste FM
Levantamento do Instituto Insight revela o paradoxo de uma cidade que arrecada R$ 3 milhões ao dia, mas opera no limite da insolvência; cientista político alerta para “efeito bola de neve” avalizado pela Câmara de Vereadores
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A robusta arrecadação diária de Barreiras – superior a R$ 3 milhões – já não é capaz de mascarar o quadro de estrangulamento fiscal que se instalou no município. Segundo pesquisa do Instituto Insight, apresentada pelo cientista político Rony Moreno à Rádio Oeste FM na última quarta-feira (26), mais de 90% do orçamento está comprometido com dívidas, configurando um cenário próximo da insolvência e ampliando a sensação de colapso iminente entre os moradores. O levantamento revela que, embora a população desconheça os números exatos, percebe de forma concreta a deterioração dos serviços essenciais.
Para 72% dos entrevistados, a sequência de empréstimos bancários não sinaliza progresso, mas antecipa o agravamento da situação da saúde, da educação e da limpeza urbana. Moreno define o quadro como uma “gestão de endividamento contínuo”: novos créditos são tomados não para ampliar a infraestrutura da cidade, mas para rolar dívidas antigas, alimentando um ciclo vicioso que empurra Barreiras para o abismo fiscal.
Rony Moreno: “Barreiras tem um problema seríssimo de endividamento, já vai aí a 92% da sua arrecadação. (…) Barreiras arrecada por dia pouco mais de três milhões de reais. (…) A população mostrou muita preocupação porque as pessoas sentem a dívida. É como se elas estivessem administrando a própria casa: quando você tem um problema, você toma um financiamento, e vira uma bola de neve, você vai tomando empréstimo em cima de empréstimo. (…) Isso pode acontecer com o município, pior ainda. Isso tem consequências futuras.”
O estudo também evidencia um déficit crítico de transparência e de retorno social. Enquanto a gestão municipal justifica os sucessivos empréstimos com promessas de obras, quase 70% dos moradores rejeitam essa explicação: para eles, os recursos servem prioritariamente para saldar dívidas antigas ou custear a máquina administrativa e política. A percepção de que o destino dos recursos é opaco – uma verdadeira caixa-preta – reforça o sentimento de abandono entre contribuintes que pagam impostos sem enxergar contrapartidas concretas.
Rony Moreno: “Quando a gente pergunta para que a prefeitura toma esse empréstimo (…) 52% acham que é pagamento de dívidas, mais 18% para gastos administrativos e políticos. Então quase 70% da população sabe que esse dinheiro não vai ser usado para obras estruturantes. (…) Você, com esse empréstimo, Marcelo [Ferraz], nunca viu sendo feita nos bairros nenhuma obra estruturante. A não ser o hospital, claro, que é importantíssimo, mas não foi terminado. Nós temos problemas de drenagem, estamos agora no período chuvoso. Choveu dois dias e vimos o absurdo.”
A pesquisa avança sobre outro ponto sensível: a responsabilidade compartilhada da Câmara de Vereadores. Para Moreno, o Legislativo atua como avalista automático dos empréstimos, abrindo mão de sua função de controle. O eleitorado, segundo o levantamento, enxerga a Câmara como uma instituição que entrega ao Executivo verdadeiros “cheques em branco”, aprovando créditos milionários sem debate técnico ou questionamento público.
Rony Moreno: “A Câmara de Vereadores é totalmente responsável por isso. Você entregar um cheque em branco, mais uma vez, sem saber para onde vai ser usado esse dinheiro. Exemplos nós temos vários ali em Barreiras. Tomou-se um empréstimo altíssimo, cerca de quarenta milhões, depois mais dez milhões para fazer o hospital municipal, que ainda não está concluído. (…) Se mandava um projeto para a Câmara, simplesmente o vereador assina e aprova porque é da base do governo, (…) mas entrega um cheque para a prefeitura dizendo: ‘faça aí o que você quiser com o empréstimo’.”
A análise também toca em uma ferida cultural do município: a distância entre o engajamento político nacional e a atenção ao cotidiano local. Para Moreno, a população discute com vigor as disputas ideológicas de Brasília, mas negligencia problemas domésticos – como drenagem, mobilidade urbana e a ausência de um Anel Viário Sul – permitindo que erros de gestão proliferem sem a cobrança necessária.
Rony Moreno: “A população de Barreiras olha muito para Brasília. (…) Você se incomoda com o endividamento do Governo Federal e Estadual, mas as pessoas não se preocupam com o seu quintal, na porta de casa. (…) É muito mais fácil discutir Brasília. (…) Mas, como a pesquisa mostrou, quando vem para Barreiras, para falarmos do nosso umbigo, a população muda. (…) A gente precisa mudar isso, esquecer um pouco Brasília e se importar mais com o nosso quintal.”
O custo do silêncio e a matemática da insolvência
Os números apresentados pelo Instituto Insight e interpretados por Rony Moreno vão além da crítica política e configuram um alerta técnico. Uma cidade que arrecada R$ 3 milhões por dia, mas precisa recorrer sistematicamente a empréstimos para manter a máquina administrativa, evidencia falhas estruturais na gestão dos recursos próprios ou um descontrole da despesa corrente que inviabiliza qualquer tentativa de equilíbrio no longo prazo. Não há engenharia financeira capaz de sustentar indefinidamente um modelo cuja espinha dorsal é a rolagem contínua de dívidas.
Com mais de 90% do orçamento comprometido, a margem para investimentos concretos – drenagem, saneamento, mobilidade urbana – é praticamente nula. O serviço da dívida se tornou a prioridade absoluta, enquanto o Legislativo, ao operar como avalista automático do Executivo, transfere o custo político e financeiro desse modelo para as próximas gerações de barreirenses.
A crise de Barreiras não reside na capacidade de arrecadar, mas em como se alocam e se explicam esses recursos. Enquanto o debate público continuar absorvido por polarizações nacionais, a caixa-preta das contas municipais permanecerá operando à sombra, em um ciclo onde a obra é promessa, o empréstimo é rotina e a dívida é a herança. O tempo – e o orçamento – estão se esgotando para que a cidade enfrente o peso dessa conta.
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