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Entre o gesto e o fato: a pausa estratégica do SINPROFE e o ônus político que agora recai sobre a Prefeitura de Barreiras

Caso de Política 20 de fevereiro de 2026 10 minutos de leitura
Sinprofe e prefeitura de Barreiras 20022026

Sinprofe e prefeitura de Barreiras 20022026

Fotomontagem: SINPROFE

Suspensão da greve não é recuo – é reposicionamento. E o dia 4 de março tornou-se um teste de fogo para a gestão municipal

Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A  do SINPROFE publicou em sua página oficial, a decisão de suspender temporariamente a greve que estava marcada para 25 de fevereiro. O texto é claro ao definir o movimento como “suspensão estratégica” — não como arrefecimento, muito menos como trégua definitiva.

A decisão foi tomada após a Prefeitura de Barreiras finalmente atender ao pedido de audiência formalizado no Ofício nº 04/2026. A resposta veio no fim da tarde de ontem, por meio do Ofício nº 023/2026, assinado pelo chefe de Gabinete, Álvaro Sampaio Júnior. O documento agenda uma reunião com o prefeito Otoniel Teixeira para o dia 4 de março, às 9h30, na sede do Executivo municipal.

ofício resposta da prefeitura 20022026
ofício resposta da prefeitura 19022026

O ofício atende à notificação protocolada pelo sindicato no dia 6 de fevereiro, que estabelecia o dia 20 como prazo fatal para a administração se manifestar sobre as pautas da categoria. Até então, a Prefeitura mantinha silêncio desde 7 de janeiro, quando o SINPROFE entregou o primeiro ofício do ano com demandas urgentes. Foram dois meses de espera — e a resposta só veio na undécima hora, porque a categoria organizada não deixou alternativa.

“Desde janeiro buscamos diálogo institucional. A greve sempre foi o último recurso”, afirma o texto publicado pela entidade. “Se houve resposta agora, foi porque a categoria se manteve mobilizada e a greve se tornou concreta.”

Durante reunião da diretoria, os professores avaliaram que ignorar a resposta — ainda que tardia e entregue no limite do prazo, e apenas por causa da pressão exercida — seria politicamente insustentável. O sindicato sempre defendeu o diálogo como caminho legítimo, desde o primeiro ofício enviado em janeiro. E também nunca abriu mão da pressão como ferramenta. A suspensão da greve, portanto, não é recuo, mas reposicionamento tático. Não há alívio, nem muito menos conformismo.

O movimento agora se desloca para o encontro com o prefeito. No dia seguinte, 5 de março, às 16h, o SINPROFE convoca Assembleia Geral Extraordinária para apresentar à categoria os resultados da conversa. “Se não houver avanço real, a categoria deliberará pela retomada do movimento”, reforça a publicação.

O gesto político e a inversão da pressão

Em política, gestos são movimentos estratégicos. Ao suspender a greve, o SINPROFE preserva sua coerência institucional — defensor histórico do diálogo — e, simultaneamente, desloca o ônus da prova para o Executivo.

A cronologia é eloquente. Desde 7 de janeiro o sindicato aguardava manifestação formal da Prefeitura. A notificação entregue em 6 de fevereiro fixava o dia 20 como prazo fatal para retorno. A resposta veio no fio da navalha. Dois meses após o primeiro ofício.

“A nossa disposição sempre foi negociar. Mas negociar pressupõe reciprocidade”, afirma a entidade. “Agora cabe à gestão apresentar respostas objetivas.”

Até aqui, a iniciativa partiu do sindicato. A pressão foi construída pela categoria. A agenda foi provocada pelo movimento. A Prefeitura reagiu — e reagiu apenas quando instada formalmente e pressionada publicamente.

“O silêncio também comunica. E o que tivemos até aqui foi silêncio”, declarou a presidente do SINPROFE, professora Maria Aparecida Pessoa, conforme a publicação. “A reunião só foi marcada quando a greve se tornou concreta.”

O gesto do sindicato inverteu o jogo: agora, a gestão precisa produzir fatos.

O “zeramento” anunciado e a disputa pela narrativa

No dia 12 de fevereiro, a Prefeitura publicou o Decreto nº 18/2026 afirmando ter “zerado as pendências dos direitos reivindicados pelos servidores do magistério” ao conceder progressões e gratificações para 61 professores.

O SINPROFE contesta frontalmente essa leitura e reage de forma categórica. Para a entidade, a versão oficial não resiste ao confronto com os dados da própria rede. Os 61 contemplados representam uma fração ínfima dos profissionais que aguardam o cumprimento da Lei nº 768/2007, que assegura progressões horizontais, verticais e gratificações por titulação.

“Não se trata de concessão. Trata-se de direito previsto em lei”, afirma a entidade. “As progressões são reivindicação histórica da categoria e estavam represadas.”

Segundo o sindicato, o anúncio não representa iniciativa espontânea da gestão, mas cumprimento tardio de obrigação legal — e apenas após a pressão concreta da greve iminente.

“Se era direito, por que não foi implementado antes? Por que somente após a deflagração da greve?”, questiona a tesoureira, professora Ana Maria Vieira. “Cumprir a lei sob pressão não pode ser tratado como política de valorização.”

A entidade sustenta que a narrativa de “zeramento” produz efeito discursivo, mas não elimina o passivo acumulado ao longo dos anos. Os 61 casos contemplados representam fração da demanda reprimida, enquanto cerca de 70% dos aprovados no concurso público de 2023 já pediram exoneração — um dado que, segundo o sindicato, expõe a gravidade da crise e desmonta qualquer versão que insista em tratar o problema como resolvido.

“A Prefeitura quer vender a ideia de que tá tudo certo, mas a realidade é outra. A carreira do magistério continua defasada e desrespeitada, a estrutura segue precária e o assédio moral permanece como prática. Conceder o que já era direito de 61 colegas não resolve o problema da categoria inteira”, afirmou a presidente do SINPROFE, professora Maria Aparecida Pessoa.

“Não adianta mudar de nível — seja para pós-graduado, mestrado ou doutorado — se a mudança não vem acompanhada da pecúnia correspondente. A gente vê professor que mudou de nível e, ao invés de receber os 20% da pós, recebeu apenas 10%. Outros não receberam nada. Só mudou no papel, mas no bolso, nada. Isso não é valorização. Valorização também perpassa pela questão financeira. E é sobre isso que a categoria vem reclamando: não adianta o título se o salário não acompanha.”

Cumprimento tardio de direito não é favor. É obrigação.

O dado que tensiona o discurso oficial

O levantamento apresentado pelo sindicato indica que cerca de 70% dos aprovados no concurso público de 2023 já pediram exoneração — um indicador que revela prejuízos em múltiplas dimensões: perda de quadros qualificados, descontinuidade pedagógica, sobrecarga para os professores que permanecem e impacto direto na qualidade do ensino oferecido à população.

Para o SINPROFE, esse número evidencia que a crise é estrutural.

“Uma rede que perde a maioria de seus recém-concursados precisa olhar para dentro”, afirma a presidente. “Se a carreira estivesse valorizada, não teríamos esse índice.”

Entre os problemas apontados pela entidade estão:

  • Progressões não implementadas no tempo devido, com professores pós-graduados recebendo apenas o piso;
  • Infraestrutura precária em unidades escolares, com relatos de infiltrações em prédios recém-inaugurados, fiação exposta e mobiliário deteriorado;
  • Sobrecarga associada ao sistema EducaNet, apontado como fonte de adoecimento profissional;
  • Denúncias recorrentes de assédio moral e vigilância sistemática nas escolas;
  • Falta de equipamentos institucionais adequados, com professores utilizando recursos próprios para trabalhar.

“Valorização não é discurso. É estrutura, é carreira, é condição de trabalho”, resume a entidade.

Uma pauta acumulada e a defesa de institucionalidade permanente

O documento protocolado pelo sindicato reúne reivindicações que, segundo a entidade, atravessam gestões e se acumulam há anos:

  • Cumprimento integral da Lei nº 768/2007, com incorporação de progressões e titulações;
  • Fim do assédio moral e da vigilância sistemática nas escolas;
  • Melhoria da infraestrutura das unidades de ensino;
  • Condições tecnológicas adequadas com o fornecimento de equipamentos;
  • Abertura de diálogo efetivo e contínuo com a categoria;
  • Convocação de aproximadamente 100 professores para creches, assegurando o 1/3 de hora-atividade;
  • Reformulação do PCCS, com criação de comissão para revisão do Plano de Carreira, Cargos e Salários.

Para o SINPROFE, uma reunião por ano é insuficiente para tratar de problemas que se arrastam há décadas. A proposta da entidade é a criação de uma mesa permanente de negociação, com encontros periódicos. O objetivo é garantir o acompanhamento sistemático das demandas e impedir que os problemas se acumulem até virarem crise.

“Uma reunião por ano não resolve problemas acumulados por décadas”, afirma o SINPROFE. “Precisamos de institucionalidade permanente.”

O que está em jogo no dia 4 de março

A reunião com o prefeito Otoniel Teixeira, marcada para o dia 4 de março, tornou-se ponto de inflexão na relação entre o Executivo municipal e a categoria.

O que está em disputa não é apenas a regularização de progressões. Está em jogo:

  • A credibilidade da gestão municipal;
  • A efetividade do cumprimento da Lei nº 768/2007;
  • A sustentabilidade da carreira docente;
  • A capacidade de retenção de profissionais;
  • A qualidade da educação pública ofertada à população.

“O que esperamos são compromissos com prazos e formalização. Não discursos”, afirma a entidade.

Se a gestão apresentar calendário, metas e soluções estruturantes, poderá transformar o momento de tensão em reconstrução institucional. Se limitar-se a reafirmar medidas pontuais já tomadas sob pressão, a pausa pode se revelar apenas intervalo antes de novo ciclo de mobilização.

O SINPROFE sempre defendeu o diálogo como canal legítimo de negociação. Foi o que fez desde janeiro, quando protocolou o primeiro ofício do ano. Agora, com a reunião finalmente agendada — algo que só aconteceu por causa da pressão organizada da categoria —, mantém a disposição para conversar, mas sem abrir mão da mobilização como garantia. A orientação da diretoria é clara: não há recuo sem avanço concreto.

Entre gesto e obrigação

Há distinção fundamental que o SINPROFE insiste em registrar: gesto político não se confunde com cumprimento de dever legal.

“A implantação das 61 progressões não é favor. É obrigação que estava atrasada”, diz a nota. “A categoria não reivindica privilégios, reivindica direitos.”

A greve está suspensa. A mobilização permanece.

O sindicato realizou seu gesto estratégico.
O ofício foi assinado. A reunião está marcada.

Agora, segundo a própria entidade, “é a vez da gestão demonstrar, com fatos, se há disposição real de mudança ou apenas resposta pontual à pressão”.

A gestão Otoniel Teixeira terá que demonstrar, nos termos da reunião, se os 61 contemplados com progressões são exceção dentro de um quadro de abandono ou se representam, de fato, o início de uma política de valorização. Até lá, a greve segue suspensa. Mas o ônus da prova está todo do lado de quem só respondeu no limite do prazo, depois de dois meses de silêncio, e unicamente porque a pressão do SINPROFE não deixou outra saída.

Entre o gesto e o fato existe uma distância.
E será no dia 4 de março que essa distância começará — ou não — a ser preenchida.

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