Não trazemos amor 21022026
Em publicação nas redes sociais, gestão municipal ironiza a própria ineficiência enquanto terceira ponte segue inacabada e quarta já é anunciada; obra tinha prazo de 12 meses, já ultrapassado, e segue à espera de um desfecho menos metafórico e mais estrutural
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A Prefeitura de Barreiras conseguiu, em um único post, sintetizar o espírito do tempo: marketing afiado, cronograma frouxo.
A frase estampada no banner oficial diz:
“Não trazemos seu amor de volta.”
A sequência tenta amarrar lirismo e infraestrutura:
“Mas estamos construindo uma ponte até ele.”
É publicidade com vocação para premiação.
O problema é que a ponte real – a de concreto armado e recursos públicos – ainda não chegou.
A ponte que não traz o amor, nem a si mesma
A terceira ponte sobre o Rio Grande, ligando Vila Dulce a Barreirinhas, teve ordem de serviço assinada em 18 de dezembro de 2024 pelo então prefeito Zito Barbosa.
- Contrato de R$ 9,7 milhões.
- Prazo: 12 meses.
- Entrega prevista: dezembro de 2025.
Estamos em fevereiro de 2026.
A ponte? Em estágio de espera.
Em setembro de 2025, durante a concretagem dos pilares, o secretário municipal de Infraestrutura declarou que a expectativa era concluir a obra entre março e abril de 2026.
Não houve anúncio formal de aditivo contratual alterando o prazo original. Houve, sim, uma nova previsão pública – já deslocada para além do cronograma pactuado.
O contrato dizia dezembro de 2025.
A fala indicava primeiro semestre de 2026.
O relógio, indiferente a discursos, ultrapassou ambos.
Tecnicamente, o prazo foi vencido. Politicamente, a narrativa foi ajustada.
A política do anúncio permanente
Mesmo com a terceira em aberto, o prefeito Otoniel Teixeira anunciou a quarta ponte, conectando a região da UFOB ao bairro Antônio Geraldo.
É a lógica da antecipação simbólica: projeta-se o futuro enquanto o presente ainda está em obras.
“Não entregou nem a de Barreirinhas ainda.”
“Prefeito fraco.”
Na ciência política, isso se chama desalinhamento entre expectativa e entrega.
Na linguagem popular, chama-se impaciência.
Governança algorítmica
A publicação oficial afirma:
“Porque aproximar pessoas também é cuidar da cidade.”
Frase impecável. Sensível. Instagramável.
Mas na administração pública, aproximação exige execução orçamentária, fiscalização técnica e cumprimento de cronograma – não apenas copy criativa.
A postagem soma curtidas.
A obra soma meses.
O algoritmo respondeu rápido.
O concreto, nem tanto.
Talvez estejamos diante de um novo modelo de gestão: governança por engajamento.
Nota quase musical do editor
Enquanto redige esta matéria, este editor escuta Secos & Molhados, na icônica canção “Sangue Latino”.
“Os ventos do norte não movem moinhos”
a frase ganha inesperada densidade administrativa.
Porque discursos estratégicos, anúncios sucessivos e banners bem diagramados podem soprar em qualquer direção — mas não movem cronogramas nem substituem execução física.
“Rompi tratados, traí os ritos”
Há algo de estruturalmente familiar nisso.
Na política contemporânea, romper ritos institucionais virou método. Substitui-se a liturgia da entrega pela estética do anúncio.
“E o que me importa é não estar vencido”
Talvez resida aí a filosofia tácita da gestão pública moderna: não importa o atraso, importa a narrativa. Não importa o prazo, importa o discurso de resiliência.
“Sangue Latino” fala de caminhos tortos.
A ponte, por ora, também.
O editor aumenta o volume.
E pensa que Ney Matogrosso entenderia perfeitamente a diferença entre performance e materialidade.
No palco, a performance é tudo.
Na cidade, não deveria ser.
Cronologia – para além da retórica
Evento | Data | Situação |
|---|---|---|
| Ordem de serviço | 18/12/2024 | Cumprido |
| Prazo contratual | Dez/2025 | Ultrapassado |
| Nova previsão pública | Mar/Abr 2026 | A confirmar |
| Situação atual (fev/2026) | — | Obra inacabada |
Conclusão: menos metáfora, mais estrutura
O prefeito Otoniel Teixeira completa um ano de gestão. Algumas obras herdadas foram entregues. As estruturantes seguem sob observação pública.
A população não pede lirismo institucional.
Pede execução.
Não exige metáfora afetiva.
Exige infraestrutura viária.
A prefeitura afirmou que não traz o amor de volta.
A pergunta cívica é mais pragmática:
trará a ponte?
Ou seguiremos todos – com nossos “caminhos tortos” – aguardando o próximo anúncio?
Caso de Política | A informação passa por aqui.
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