Audiência pública reúne especialistas, vereadores, setor produtivo e comunidade para discutir estratégias, gargalos e oportunidades para transformar Barreiras em um destino turístico estruturado e competitivo
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – Uma audiência pública realizada na Câmara Municipal de Barreiras transformou a noite em um amplo fórum sobre o futuro do turismo no município e na região. Promovido pela Comissão de Planejamento Urbano, Turismo, Desenvolvimento Econômico, Transporte, Trânsito e Obras, o encontro foi conduzido pela vice-presidente da Casa, vereadora Carmélia da Mata, com a presença do vereador Rider Castro, presidente da Comissão. Autoridades, representantes do setor produtivo e a sociedade civil participaram ativamente do debate, que teve como foco a vocação turística de Barreiras e a construção de estratégias concretas para sua estruturação.
A mesa reuniu o secretário municipal de Cultura e Turismo, Virgílio Lima Pinto Gula; o presidente do Conselho Municipal de Turismo, Carlos Eduardo Lopes Braga (Caduda); o presidente da CDL Barreiras, Geovane Zorzo; e o consultor em turismo, Jorge Ávila. Ao longo da Audiência Pública, diagnósticos, propostas e análises foram apresentados em diálogo direto com o público, que contribuiu com questionamentos e sugestões.
Virgílio Gula destacou a força dos eventos, o valor das cachoeiras — como a Acaba a Vida — e ações de manutenção e sinalização. Com Barreiras de volta ao Mapa do Turismo, defendeu lançar antes o Carnaval 2026 para atrair mais visitantes
A primeira parte da audiência destacou o potencial hídrico, cultural e natural do município. O secretário de cultura de Barreiras, Virgílio Gula reforçou a força dos grandes eventos – como São João e Carnaval – e o valor do ecoturismo, citando rios e cachoeiras como verdadeiros patrimônios da região. Ele lembrou a recente projeção nacional da Cachoeira do Acaba a Vida, listada entre as dez mais belas do país, e mencionou ações de manutenção, novos projetos nas Três Bocas e melhorias na sinalização turística. O secretário comemorou também o retorno de Barreiras ao Mapa do Turismo Brasileiro, condição essencial para captar recursos federais e investir na qualificação profissional. Nesse contexto, antecipar o lançamento do Carnaval 2026 foi apresentado como estratégia para ampliar o fluxo de visitantes e fortalecer a rede hoteleira.
Geovane Zorzo afirmou que o turismo é motor econômico, pediu divulgação antecipada dos eventos e defendeu integração regional para que Barreiras transforme seu potencial em resultados reais
Representando o comércio, Geovane Zorzo evidenciou o turismo como motor do desenvolvimento econômico. Ele ressaltou a necessidade de divulgar eventos com mais antecedência e comparou Barreiras a cidades que, mesmo com menos atrativos naturais, alcançaram resultados expressivos por meio de planejamento contínuo. Para Zorzo, os rios, a natureza e o calendário festivo formam uma base sólida, mas exigem integração regional e visão de longo prazo.
Caduda Braga, presidente do Conselho Municipal de Turismo, concentrou sua intervenção na urgência da regulamentação do Fundo Municipal de Turismo (FUNTUR). Segundo ele, o fundo é requisito técnico para acessar editais, convênios e programas nacionais, ampliando a capacidade de investimento e garantindo continuidade das políticas públicas. Ele também defendeu o fortalecimento do sentimento de pertencimento, essencial para envolver a população na valorização do setor.
Jorge Ávila alertou que Barreiras precisa transformar diagnósticos em ação: qualificar a cadeia turística, profissionalizar a gestão de parques e proteger rios e cachoeiras para garantir um futuro sustentável ao setor
O consultor Jorge Ávila adotou uma abordagem técnica e pragmática ao analisar o potencial turístico de Barreiras. Em sua intervenção, lembrou que o turismo deixou de ser um setor secundário: tornou-se uma das principais engrenagens econômicas globais — uma indústria capaz de influenciar políticas públicas, orientar investimentos e moldar estratégias de desenvolvimento regional. Ao apresentar os números mais recentes, Ávila buscou provocar gestores e empresários, destacando que a oportunidade está posta, mas o município ainda precisa transformar diagnósticos em execução real.
“Em 2024, o turismo movimentou US$ 11 trilhões em todo o mundo, e há projeções de que esse valor chegue a US$ 16 trilhões em 2026. Estamos falando da maior indústria em expansão no planeta. A Bahia tem 130 municípios turísticos, representando mais de 60% da população do estado. Barreiras voltou ao Mapa do Turismo Brasileiro, mas agora precisa cumprir critérios técnicos: manter o Conselho Municipal ativo, com atas atualizadas, e assegurar previsão orçamentária na LOA.”
Ao comentar a situação do planejamento local, Ávila reconheceu avanços institucionais, mas ponderou que Barreiras ainda não converteu seu Plano Municipal de Turismo – elaborado em 2022 – em políticas contínuas, programadas e com impacto direto na cadeia econômica. Para ele, o documento existe, mas a etapa decisiva, que é tirar do papel, ainda não foi enfrentada com a velocidade necessária.
“Barreiras possui um Plano Municipal de Turismo desde 2022, mas ele ainda não foi transformado em ações efetivas. O papel aceita tudo; o desafio é executar.”
O consultor também defendeu uma visão moderna de gestão, baseada em parcerias que combinem preservação ambiental e aproveitamento econômico. Segundo Ávila, parques, rios e balneários precisam de um modelo profissionalizado, com regras claras, manutenção contínua e mecanismos que garantam sustentabilidade e atratividade simultaneamente. Ele reforçou que a qualificação profissional é a engrenagem silenciosa que faz o destino funcionar – do hotel à farmácia, do restaurante ao posto de combustível.
“Parcerias público-privadas são fundamentais, especialmente para parques e balneários. E é preciso lembrar: toda a cidade forma a cadeia turística. Hotéis, restaurantes, farmácias, postos, motoristas – todos participam da experiência do visitante. Sem qualificação profissional, não há destino que se sustente.”
Na parte ambiental, Ávila trouxe um alerta que misturou prudência técnica e preocupação estratégica: rios e cachoeiras não são apenas paisagens – são ativos econômicos de alto valor, que precisam ser cuidados agora para garantir o futuro do setor. Ele também mencionou iniciativas recentes de promoção da cidade, demonstrando que pequenos movimentos já estão acontecendo, mas exigem maior protagonismo da iniciativa privada.
“Os nossos rios e cachoeiras são patrimônios econômicos e ambientais. Se a gente não cuidar agora, compromete o futuro do turismo. Também tivemos ações importantes de promoção, como as gravações do Panela de Bairro, mas a iniciativa privada precisa ser mais ativa dentro do Conselho Municipal.”
Ao concluir, Ávila trouxe um exemplo concreto de como criatividade, articulação e sensibilidade social podem mover a economia mesmo em cenários adversos. Recordou o case ‘Aos Nossos Heróis’, implementado em Itacaré durante a pandemia — um gesto simples que se tornou política de impacto e referência nacional.
“Em Itacaré, durante a pandemia, criamos o projeto ‘Aos Nossos Heróis’, oferecendo hospedagem acessível a profissionais de saúde. Foi um movimento que uniu solidariedade e economia — e tornou-se referência no Brasil. Barreiras também pode construir seus próprios cases de sucesso.”
A fala do presidente da comissão, vereador Rider Castro
Durante a audiência, Rider Castro fez um chamado à ação: pediu união política, defendeu a criação do Fundo Municipal de Turismo e afirmou que Barreiras está “a poucos passos” de consolidar uma virada no setor
O vereador Rider Castro, responsável pela condução política da pauta dentro do Legislativo, fez uma intervenção longa, enfática e interpretada pelos presentes como um chamado à ação. Ele afirmou que acompanhou de perto, ainda na legislatura passada, as primeiras tentativas de estruturar o turismo local e destacou que o grande divisor de águas foi a elaboração do Plano Municipal de Turismo, documento técnico que, segundo ele, deu base para que Barreiras finalmente pudesse “dar os primeiros passos reais”.
Rider lembrou que “o turismo em Barreiras teve dois momentos”: o período em que havia apenas desejo e discurso, sem estrutura e sem ordenamento, e a fase recente, em que foi possível “fazer os deveres de casa”, com a contratação de empresa especializada e a criação do Conselho Municipal de Turismo. Entretanto, ele reconheceu que a troca de governo gerou dúvidas sobre a continuidade das ações, mas avaliou que a gestão atual “voltou a tracionar” o tema, reacendendo o debate – e a audiência, segundo ele, foi prova disso.
O ponto mais forte de sua fala foi a defesa enfática da criação e capitalização do Fundo Municipal de Turismo, reforçando a posição apresentada por Caduda Braga. Para o vereador, o fundo é “o ponto principal desta audiência pública”, pois sem orçamento não há execução possível: “sem dinheiro, não tem como a gente fazer nada… o recurso tem que vir de algum lugar”.
Ele lembrou que a Câmara aprovou recentemente o orçamento de R$ 1,092 bilhão para o próximo ano e citou a destinação de R$ 2,5 milhões para o Parque Santo Cristo – usando esse exemplo para argumentar que o Legislativo poderia ter incluído valores também para o FUNTUR, caso o Conselho tivesse apresentado a demanda antes da votação.
Em tom de autocobrança e mobilização, Rider fez uma provocação direta aos colegas: quer votar ainda este ano uma proposta que permita viabilizar recursos para o fundo, se houver previsão legal e técnica. Ele pediu união dos vereadores e reforçou sua crença de que Barreiras está próxima de uma virada:
“falta pouca coisa… talvez alguns meses, um ano ou dois”.
Encerrando, afirmou que o Legislativo e a Comissão presidida por ele estão comprometidos com o tema e colocou o parlamento à disposição para destravar ações e acelerar o desenvolvimento turístico da cidade.
Participação popular e demais contribuições
A participação popular ampliou o debate com olhares práticos e vivências cotidianas. Mário Sérgio pediu atenção especial aos pontos de lazer mais frequentados pela comunidade, como Três Bocas, Prainha e as cachoeiras da região. Ana Rita Fernando e Maria da Penha reforçaram a importância da continuidade das políticas públicas, da adesão da iniciativa privada e dos cursos de qualificação. Maria da Penha apresentou ainda o projeto “Shopping Pé na Roça”, voltado à cultura e à produção local.
A intervenção crítica de Fernando ZDA
ZDA cobrou calendário anual, gestão ambiental e dados turísticos para que Barreiras deixe de apostar tudo em um único evento
O jornalista Fernando ZDA acrescentou um contraponto direto ao entusiasmo coletivo, ao afirmar que Barreiras corre o risco de concentrar expectativas turísticas em um único evento – o Carnaval – sem construir uma base sólida que funcione o ano inteiro. Ele defendeu a criação de um calendário permanente de pequenos eventos, distribuídos ao longo do ano, capazes de movimentar bares, hotéis, restaurantes, transporte e comércio em ciclos constantes.
ZDA ressaltou ainda que Barreiras precisa parar de “expulsar” seus próprios potenciais ao permitir que atrativos importantes se degradem pela falta de manejo. Como exemplo, citou o balneário Três Bocas, que, segundo ele, perdeu atratividade pela ausência de reordenamento ambiental, acesso inadequado e uso descontrolado do espaço. Propôs um modelo de gestão que inclua controle de veículos, áreas exclusivas para banhistas, trilhas sinalizadas e responsabilidade compartilhada com parcerias público-privadas. Para completar, defendeu a implantação de um sistema municipal de dados sobre visitantes.
Experiências regionais
Giovani Mani destaca que Barreiras só vai crescer como destino de Cerrado investindo em ecoturismo, infraestrutura, experiências completas e integração entre poder público e iniciativa privada
Giovani Mani, empreendedor do setor em Aurora (TO), relatou sua experiência na gestão da Ilha das Corredeiras, na Serra Gerais (TO), defendendo que Barreiras precisa assumir sua identidade de turismo de Cerrado – semelhante ao Jalapão, Serra Gerais e Chapada dos Veadeiros – e planejar a partir dela. Explicou que, mesmo em cidades pequenas, o Conselho Municipal de Turismo é tratado como obrigação, pois sem Contur ativo e sem presença no Mapa do Turismo não há acesso a financiamentos; seu próprio empreendimento só obteve crédito graças à regularização municipal.
Comparou resultados: sua micro-região recebeu 14 mil turistas em 2024 e deve superar 20 mil em 2025, enquanto Barreiras ainda não atrai visitantes espontâneos. Para ele, o município “ainda não nasceu para o ecoturismo”, apesar da força do turismo religioso e de eventos. Citou atrativos como a Cachoeira da Cabaceira, Rio dos Angicos e Rio de Ondas, reforçando que todos têm potencial, mas dependem de receptivo e organização.
Sugeriu visita técnica de vereadores e gestores à Serra Gerais e afirmou que a ampliação do Aeroporto de Barreiras pode transformar a cidade na principal porta de entrada para os destinos do Cerrado, caso haja integração entre poder público e iniciativa privada.
Em sua fala final, a vereadora Carmélia da Mata destacou a importância da audiência para o fortalecimento do turismo local, parabenizou a comissão pela mobilização e reafirmou o compromisso da Câmara com o setor. Ela lembrou a aprovação de recursos para o Parque Santo Cristo e defendeu a viabilização de verbas para o FUNTUR. Carmélia concluiu convidando a população a apresentar ideias e projetos, fortalecendo o diálogo e a construção conjunta do turismo de Barreiras.
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