
INVESTIGAÇÃO EXCLUSIVA | Auditoria cruzada expõe o “consórcio” financeiro entre Legislativo e Executivo: enquanto o Prefeito Neo Afonso (inelegível pelo TCU) chancelava desvios no SUS, a Câmara explodia seus gastos para R$ 600 mil mensais. A conta fechou na urna, mas a justiça implodiu o esquema
Por Caso de Política | Investigação Especial – A reeleição do prefeito Manoel Afonso de Araújo (Neo Afonso) por uma margem apertada de apenas 246 votos não foi um acaso estatístico. Foi o resultado de uma operação financeira massiva que utilizou a máquina pública municipal em duas frentes simultâneas. Nesta semana, o castelo de cartas ruiu: o Supremo Tribunal Federal (STF) afastou o presidente da Câmara, Hermínio Cordeiro, por perpetuação ilegal no cargo; a Polícia Civil prendeu a cúpula da Saúde por desvios de R$ 12 milhões; e o Tribunal de Contas da União (TCU) selou a inelegibilidade do prefeito por obras fantasmas.
O Caso de Política analisou 5 anos de documentos fiscais da Câmara e os cruzou com os inquéritos da Operação USG. O cenário é de um aparelhamento sistemático desenhado para vencer o pleito de 2024 a qualquer custo.
A matemática da vitória: O peso da máquina
Em 2024, ano decisivo da eleição, a Câmara Municipal de Formosa do Rio Preto operou com capacidade máxima. Os documentos oficiais, expostos no Portal da Transparência, provam que a gestão de Hermínio Cordeiro manteve, de janeiro a novembro de 2024, 50 cargos comissionados (indicados políticos) ativos, somados aos servidores efetivos, totalizando cerca de 80 funcionários.
Embora nem todos os servidores compactuem com o projeto político, a pressão sobre os cargos de confiança – que devem o emprego à indicação política – é o fator decisivo.
A conta é simples:
A diferença que garantiu a vitória de Neo Afonso sobre o adversário foi de exatos 246 votos.
Considerando apenas os 50 comissionados (o núcleo duro da indicação política), bastaria que cada um conseguisse 5 votos (entre familiares e amigos) para somar 250 votos.
Ou seja: a manutenção da estrutura inchada da Câmara foi matematicamente suficiente para cobrir a margem da vitória do grupo político.
A Caixa-Preta dos reajustes: milagre ou manobra?
A auditoria aponta um dos aspectos mais perturbadores da gestão Hermínio: a escalada vertiginosa dos salários de servidores efetivos. Não se trata de recomposição inflacionária, mas de aumentos reais que ultrapassam qualquer lógica administrativa – e afrontam a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Entre janeiro de 2021 e julho de 2025, a inflação acumulada medida pelo IPCA foi de cerca de 30%. No entanto, na Câmara de Formosa do Rio Preto, salários de cargos de nível médio e fundamental chegaram a subir impressionantes 240%.
Qual o critério? Não há justificativa técnica que explique, por exemplo, um motorista ter o salário triplicado em apenas quatro anos — de cerca de R$ 3.800 para mais de R$ 13 mil.
A principal suspeita recai sobre o uso indiscriminado de gratificações, incorporações de funções comissionadas e horas extras transformadas em adicionais fixos. Esse pacote de benefícios sugere uma estratégia de blindagem: ao inflar a remuneração da estrutura permanente, a gestão assegura silêncio, apoio automático e uma máquina administrativa dócil diante de eventuais excessos políticos.
| Ano | Mês de Referência | Custo Mensal da Folha (Bruto)* | Situação Administrativa |
| 2021 | Janeiro | R$ 138.115,34 | Início da gestão. Estrutura técnica e enxuta (apenas 8 comissionados). |
| 2022 | Dezembro | R$ 228.510,93 | Começa o inchaço. Primeiros aumentos significativos e entrada de apadrinhados. |
| 2023 | Dezembro | R$ 267.821,25 | A virada: custo com comissionados começa a rivalizar com o de efetivos. |
| 2024 | Novembro | ~ R$ 564.000,00 | Ano Eleitoral. Soma das folhas explode. Manutenção de 50 cargos indicados. |
| 2025 | Julho | R$ 622.691,85 | O Colapso. Recorde histórico. Câmara passa de meio milhão/mês só com pessoal. |
*Valores aproximados baseados nos relatórios de “Proventos” das folhas analisadas.
Tabela da vergonha: A inversão de valores
Para manter a engrenagem funcionando, a gestão de Hermínio criou uma aberração administrativa. Cargos de nível fundamental e médio foram anabolizados com gratificações, superando em muito a remuneração de funções estratégicas.
Comparativo real da folha de pagamento de fevereiro de 2025:
| Cargo / Função | Vínculo | Salário Bruto (Aprox.) | Análise da Distorção |
| Motorista | Estatutário | R$ 13.259,24 | Recebe mais que enfermeiros e professores. Custo anual superior a R$ 170 mil. |
| Agente Administrativo | Estatutário | R$ 21.978,69 | Vencimento compatível com Juízes e Secretários de Estado – função de nível médio. |
| Vigilante | Estatutário | R$ 10.947,21 | Valor 500% superior à média regional da segurança privada. |
| Gerente de RH | Comissionado | R$ 5.900,00 | Ganha menos da metade de um motorista, embora gerencie toda a folha. |
| Assessor Especial | Comissionado | R$ 2.528,61 | A “infantaria”. Muitos contratados com salários baixos para gerar volume político. |
A conexão executiva: O “Caixa” da Saúde
Enquanto a Câmara garantia a militância paga, a Prefeitura operava o fluxo financeiro. A Operação USG revelou um esquema de R$ 12 milhões desviados, envolvendo exames fictícios e plantões fantasmas.
Documentos indicam que o prefeito Neo Afonso assinou digitalmente processos fraudulentos, enquanto o Controlador-Geral do Município auditava as próprias falhas.
Somado a isso, a condenação do TCU por uma “obra fantasma” de saneamento reforça que a simulação de serviços é um método de gestão contínuo do grupo.
A “Porta Giratória” e o vácuo de poder
A prova de que o esquema na Câmara pretendia se perpetuar está nas datas de admissão de 2025. Após uma exoneração em massa em dezembro de 2024, os relatórios mostram que, nos dias 02 e 03 de janeiro de 2025, a mesma base de comissionados foi readmitida.
Agora, com o afastamento de Hermínio pelo STF e a inelegibilidade de Neo, Formosa do Rio Preto entra em uma zona de instabilidade.
A presidência da Câmara deve ser assumida interinamente por quem estiver apto na linha sucessória – possivelmente o vice-presidente Joílson Rocha, ou outro membro da Mesa, dependendo dos desdobramentos jurídicos.
Quem assumir terá 15 dias para convocar novas eleições e enfrentará um dilema imediato:
- desmontar a “máquina de 50 cargos” e cortar supersalários, ou
- tentar manter uma estrutura que, ao que tudo indica, foi o pilar da vitória apertada de 246 votos.
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