
Crédito de imagem: AFP
Após a captura de Nicolás Maduro na Venezuela e o indulto ao megatraficante Juan Orlando Hernández, Washington expõe o uso seletivo da “guerra às drogas” como pretexto para pilhagem de recursos estratégicos; no Brasil, a extrema-direita articula a classificação de facções como “terroristas”, abrindo brecha jurídica para intervenção militar do Pentágono
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O governo Donald Trump consolidou, neste fim de semana, o que analistas já descrevem como o mais agressivo estelionato geopolítico do século XXI na América Latina. No sábado, 3 de janeiro de 2026, em entrevista à Fox News, Trump afirmou que “algo terá que ser feito” no México, ao acusar o país de estar sob domínio de cartéis durante a gestão da presidenta Cláudia Sheinbaum. A declaração ocorreu menos de 48 horas após a invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela, operação que resultou na captura de Nicolás Maduro.
A retórica de “lei e ordem”, contudo, desmoronou com a revelação de um gesto que escancarou o duplo padrão de Washington: o perdão presidencial concedido a um dos maiores operadores do narcotráfico no continente. O episódio expôs que a chamada “guerra às drogas” funciona, na prática, como instrumento flexível de coerção política, seletivamente aplicado para justificar intervenções, pilhagem econômica e reordenamento forçado de governos na região.
A farsa do fentanil e o indulto ao aliado
Nada evidencia mais o cinismo da política externa trumpista do que o contraste entre discurso e ação. Enquanto utiliza as mais de 300 mil mortes por overdose nos Estados Unidos como casus belli contra o México, Trump concedeu, em 28 de novembro de 2025, indulto total ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández. Condenado a 45 anos de prisão em Nova York por facilitar o envio de cerca de 500 toneladas de cocaína aos EUA, Hernández foi reabilitado politicamente por sua histórica submissão aos interesses de Washington.
O recado é inequívoco: o narcotráfico é tolerável quando o criminoso é funcional à geopolítica norte-americana. O crime só se transforma em “terrorismo” quando o país afetado insiste em preservar sua autonomia estratégica – como ocorre hoje com México e Brasil.
O cavalo de Troia brasileiro
No Brasil, a estratégia encontra terreno fértil em setores da extrema-direita que atuam como linha auxiliar da política externa dos EUA. Ao defenderem a classificação de facções criminosas como “organizações terroristas”, essas lideranças oferecem ao Pentágono o dispositivo jurídico necessário para enquadrar o país na Doutrina da Guerra ao Terror.
A manobra não é retórica. Uma vez rotulados como terroristas, esses grupos passam a justificar, segundo a lógica americana, incursões de forças especiais, operações clandestinas e ataques de drones em território estrangeiro, sob a alegação de que o Estado nacional é “conivente” ou “incapaz” de agir. Trata-se do mesmo argumento hoje mobilizado contra o governo mexicano.
O alvo, porém, não é o enfrentamento estrutural do crime organizado – que opera majoritariamente por meio de esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro, fluxos financeiros internacionais, corrupção institucional e cadeias logísticas empresariais – mas a instrumentalização seletiva da violência visível. As periferias concentram apenas a ponta mais frágil e exposta do narcotráfico, enquanto o objetivo real da pressão externa é conter o Brasil como potência regional, fragilizar sua soberania e criar as condições políticas e jurídicas para o controle de ativos estratégicos como o pré-sal, as chamadas terras raras e a biodiversidade amazônica.
Lítio, petróleo e o cerco à China
Por trás da cortina de fumaça do combate às drogas, a engrenagem real é econômica. No México, Trump mira diretamente as vastas reservas de lítio nacionalizadas pelo governo Sheinbaum. A pressão política e militar busca abrir caminho para que mineradoras norte-americanas retomem o controle de um insumo central para a indústria tecnológica global.
Ao mesmo tempo, México e Brasil figuram como principais parceiros comerciais da China na América Latina. A ameaça de intervenção funciona como instrumento de chantagem geopolítica para forçar o recuo de investimentos chineses em áreas estratégicas, como manufatura avançada, telecomunicações, 5G e veículos elétricos, transformando o continente em um protetorado industrial subordinado aos interesses de Washington.
No Caribe, essa lógica já se materializa de forma brutal. Desde setembro de 2025, operações navais dos EUA resultaram no ataque a mais de 20 embarcações e na morte de ao menos 83 pessoas em águas internacionais, sob a justificativa genérica de “interdição de drogas”, sem respaldo jurídico internacional.
A nova Doutrina Monroe
Em 2026, a administração Trump não apenas reviveu, como radicalizou o espírito da Doutrina Monroe. A América Latina volta a ser tratada como quintal estratégico, onde soberania é obstáculo e vidas locais são danos colaterais aceitáveis. Ao transferir para países vizinhos a responsabilidade pelo fracasso de suas próprias políticas de saúde pública, Washington tenta mascarar sua decadência industrial com demonstrações de força.
Com a pressão direta sobre o México e a colaboração de setores internos no Brasil, Trump busca consolidar uma região submissa, politicamente domesticada e economicamente explorável, garantindo a hegemonia americana sobre o lítio, o petróleo e o destino político do continente.
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