
Em entrevista analítica à Rádio OesteFM nesta terça-feira (06), o pesquisador detalha a estratégia de Washington para criar um “Madurismo sem Maduro” e alerta para o perigoso precedente jurídico que ameaça soberanias globais, incluindo a brasileira
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A captura de Nicolás Maduro e sua condução à justiça norte-americana não representam um triunfo da democracia, mas sim o estabelecimento de uma tutela estratégica sobre as maiores reservas de petróleo do mundo. Esta é a tese central defendida pelo Prof. Dr. Gustavo Blum, pesquisador de Geografia das Relações Internacionais, em entrevista concedida nesta terça-feira (06) ao radialista Marcelo Ferraz, na Rádio OesteFM. Para Blum, a operação marca o retorno de uma política externa agressiva de Donald Trump, que visa reorganizar o Caribe sob a hegemonia de Washington, afastando definitivamente as influências de China e Rússia da região.
A manobra do “madurismo sem maduro”
Blum interpreta a movimentação americana como um pragmatismo extremo. Em vez de uma ruptura total que pudesse gerar um vácuo de poder perigoso, os EUA parecem apostar na continuidade administrativa sob rédeas curtas. “A gente está observando os Estados Unidos não só tentando tutelar a soberania da Venezuela, mas tentando afastar todos os links que juntam a Rússia e a China àquela região”, afirma Blum. Segundo ele, o reconhecimento tácito da vice Delcy Rodríguez sinaliza a intenção de manter um “Madurismo sem Maduro” – um regime que, por medo de novas incursões, garanta o fluxo de petróleo para o mercado americano em detrimento dos parceiros asiáticos.
O “efeito bumerangue” e a fragilidade das regras globais
Um dos pontos mais perspicazes da análise de Gustavo Blum reside na erosão do sistema internacional. Ao utilizar o sistema jurídico doméstico para capturar um líder estrangeiro, os EUA criam o que Blum chama de “precedente bumerangue”, que pode ser usado contra qualquer nação no futuro. “Se basta acusar algum líder de Estado no meu sistema jurídico para poder capturá-lo e julgar, a gente começa a ter um mundo cada vez mais conflagrado. O problema do precedente é que a gente não pode esquecê-lo; ele abre portas”, adverte o especialista, citando que essa lógica de “operações especiais” ignora o papel mediador da ONU e coloca chefes de Estado em risco permanente sob acusações que nem sempre precisam ser provadas de imediato.
O Caribe como o “mediterrâneo americano”
Interpretando a geografia do conflito, Blum destaca que Washington resgatou a doutrina do início do século XX, tratando o Caribe como o “mare nostrum” do Império Romano. “Existe uma tradição no pensamento americano de olhar para o Caribe como o mar Mediterrâneo era para o Império Romano: o mar é nosso”, explica. Essa visão explica por que Colômbia e Venezuela são tratadas como países caribenhos – e, portanto, de segurança interna dos EUA – e não apenas sul-americanos.
Reflexos no Brasil e as eleições de 2026
Para o Brasil, Blum é categórico: o evento terá um efeito dominó nas eleições gerais de 2026. A política externa deixou de ser um tema de gabinete para se tornar fator de instabilidade interna e debate público. “A política externa nos afeta cotidianamente. O ‘Tarifaço’ mostrou isso, a pandemia mostrou isso”, pontua o pesquisador. Ele conclui alertando que o precedente venezuelano servirá de munição retórica e estratégica no pleito brasileiro, forçando candidatos ao Legislativo e ao Executivo a definirem suas posições sobre ataques à soberania nacional e alinhamentos automáticos com grandes potências.
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