
Foto: Portal chinês Agripost
Caso Pengdu–Belagrícola–Fiagril revela riscos de governança, dependência de capital estrangeiro e fragilidade na proteção a credores no Brasil
O pedido de recuperação extrajudicial apresentado pelo Grupo Belagrícola na semana passada jogou ainda mais luz sobre a fragilidade financeira de parte do agronegócio brasileiro – e sobre a exposição de empresas locais à crise de seus controladores estrangeiros. A companhia, assim como a Fiagril, integra o portfólio da chinesa Pengdu Agriculture, controlada pela Shanghai Pengxin Group, condenada na China por fraude corporativa e manipulação contábil em decisão da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários (CSRC). Do outro lado do mundo, um escândalo estimado em 104,797 milhões de renminbis (cerca de R$ 74,1 milhões) começa a produzir efeitos práticos sobre investidores, credores e elos da cadeia do agro no Brasil.
Entre 2020 e 2022, a Pengdu foi responsabilizada por desvios sistemáticos de recursos, com destaque para operações de compra de gado que nunca foi integralmente entregue: de 60 mil cabeças supostamente adquiridas, menos de 10 mil teriam chegado ao destino, embora o valor total tenha sido transferido à controladora Pengxin Group. A sentença do Tribunal Intermediário de Changsha, de 29 de outubro de 2025, estabeleceu responsabilidade solidária da acionista controladora e afetou diretamente cerca de 120 mil credores na China. Enquanto o ambiente regulatório chinês avança com decisões céleres e prioridade a investidores lesados, no Brasil ainda não há definição judicial equivalente sobre a extensão da responsabilidade da holding em relação às suas subsidiárias locais.
No mercado brasileiro, o caso ganha contornos ainda mais delicados porque Belagrícola e Fiagril são emissoras de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) amplamente distribuídos a fundos e investidores institucionais. Especialistas apontam que parte desses títulos está lastreada em recebíveis hoje classificados como de qualidade questionável, em um contexto em que a própria Belagrícola reconhece enfrentar inadimplência superior a R$ 1 bilhão. A combinação de ativos problemáticos, controlador em situação pré-falimentar e garantias circulares entre empresas do mesmo grupo cria um risco sistêmico relevante: quando a holding deixa de ter condições de honrar compromissos, as garantias se esvaziam e as subsidiárias tendem a perder acesso a capital, crédito e suporte financeiro justamente no momento em que mais precisam.
O quadro se insere em uma trajetória de avanço consistente do capital chinês ao longo da cadeia do agronegócio brasileiro. Nas últimas décadas, grupos chineses passaram a atuar em praticamente todas as pontas: tradings, revendas, logística, produção de fertilizantes, máquinas e implementos, recuperação de pastagens e até projetos ligados a combustíveis sustentáveis. Essa presença é reforçada por instrumentos financeiros e bancários, como a autorização de operação do ICBC no Brasil em 2012 e o acordo firmado em 2024 entre o BNDES e o China Development Bank para financiar projetos de infraestrutura, energia, agricultura e mineração. O caso Pengdu não anula essas oportunidades, mas expõe a necessidade de escrutinar melhor a governança e a saúde financeira de grupos estrangeiros que assumem posições relevantes em ativos nacionais.
Ao mesmo tempo, a conjuntura macroeconômica chinesa adiciona uma camada extra de incerteza. Indicadores recentes mostram desaceleração do consumo interno, queda no investimento em ativos fixos e maior dependência da demanda externa, ampliando a pressão para que o país mantenha um modelo de crescimento alavancado por exportações e investimentos fora de suas fronteiras. Analistas alertam que, nesse cenário, erros de alocação de capital e operações pouco transparentes tendem a ser punidos com mais rigor pelo próprio governo chinês, em linha com o discurso de evitar “investimentos ineficientes”. Na prática, isso pode significar reestruturações rápidas de conglomerados, congelamento de ativos e desinvestimentos que repercutem diretamente em subsidiárias espalhadas pelo mundo – inclusive no Brasil.
Do lado brasileiro, o setor do agronegócio vive seu próprio estresse financeiro. Somente no terceiro trimestre de 2025, foram 628 pedidos de recuperação judicial, o maior número desde 2021, com forte crescimento entre empresas ligadas à cadeia do agro, especialmente no comércio atacadista de produtos agropecuários. Especialistas em crédito destacam que muitos desses grupos já vinham rolando dívidas por anos, sem ajustes estruturais em custos, portfólio de ativos e planos de expansão. Nesse contexto, a combinação de empresas nacionais fragilizadas com controladores estrangeiros em crise aumenta a exposição de bancos, investidores e fornecedores e torna o risco de efeito cascata mais concreto.
A fraude revelada na Pengdu, portanto, funciona como um alerta duplo. De um lado, evidencia a importância de mecanismos mais robustos de transparência, governança e cooperação regulatória entre Brasil e China, capazes de permitir que investidores brasileiros acompanhem de perto a situação real de grupos que controlam ativos estratégicos no país. De outro, reforça a urgência de aprimorar a análise de risco e a inteligência de crédito no agronegócio nacional, para que a busca por capital externo – essencial para financiar a expansão do setor – não se transforme em vulnerabilidade estrutural. Em um ambiente de 2026 ainda desafiador, a lição que fica é que o acesso ao dinheiro internacional precisa vir acompanhado de due diligence profunda, monitoramento contínuo e estratégias claras de proteção a toda a cadeia produtiva.
Por: Agência Brasil China







