
Após sustentar por anos que Maduro liderava um megaesquema de narcotráfico, Trump retira a acusação mais grave e expõe contradições políticas, jurídicas e estratégicas na postura dos EUA em relação à Venezuela
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O governo Donald Trump recuou da acusação mais explosiva que vinha sustentando há anos contra Nicolás Maduro: a de que o ex-presidente venezuelano comandava o chamado Cartel de Los Soles, supostamente responsável por abastecer de cocaína o mercado norte-americano. A retirada dessa imputação desmonta a principal justificativa usada pela administração republicana para tensionar as relações com Caracas e para sustentar, interna e externamente, a narrativa de que a Venezuela funcionava como um narco-Estado sob comando direto de Maduro.
A reversão ocorre logo após a captura do venezuelano em território americano, no final de semana, quando a Casa Branca ainda insistia em associar Maduro às redes internacionais de tráfico. Na primeira audiência de custódia, realizada na segunda-feira (5), Maduro negou todas as denúncias, declarou-se inocente e afirmou ser um “prisioneiro de guerra” dos Estados Unidos – expressão calculada para posicionar Washington como agressor e para reivindicar apoio internacional.
A guinada oficial se consolidou com a divulgação de um novo documento do Departamento de Justiça, substituindo a acusação direta de liderança criminosa por uma formulação mais elástica: Maduro agora responde por “participar, proteger e perpetuar uma cultura de corrupção e enriquecimento ligada ao tráfico de drogas”. Trata-se de uma redação genérica o suficiente para manter pressão política sem amarrar o governo americano à necessidade de provar comando operacional sobre cartéis — ponto que Trump defendia sem apresentar evidências robustas.
O documento equipara Maduro ao ex-presidente Hugo Chávez, afirmando que ambos teriam alimentado “uma cultura de corrupção na qual elites poderosas da Venezuela se enriquecem por meio do tráfico de drogas e da proteção de parceiros traficantes”. A acusação, apesar de pesada, deixa de imputar estrutura de comando, o que reduz o risco jurídico para os EUA e revela uma tentativa clara de recalibrar a narrativa política após anos de exageros e declarações inflamadas de Trump.
Por que Trump recuou?
A retirada da acusação não ocorreu por acaso – e tampouco por generosidade jurídica. Há elementos políticos e estratégicos que ajudam a explicar o movimento:
1. Falta de provas consolidadas
Apesar do discurso agressivo, o governo Trump jamais apresentou documentação consistente que vinculasse Maduro diretamente ao Cartel de Los Soles. A fragilidade das evidências se tornaria insustentável diante de tribunais federais, sobretudo com Maduro sob custódia nos EUA. Manter a acusação sem provas sólidas colocaria o Departamento de Justiça em risco de constrangimento jurídico e político.
2. Pressão interna de setores de inteligência
Fontes do próprio sistema de segurança americano sempre consideraram a tese do “chefão do cartel” como politicamente conveniente, mas juridicamente frágil. O recuo sugere que parte da inteligência dos EUA pressionou para evitar uma derrota processual que poderia respingar na credibilidade das agências.
3. Reordenamento geopolítico envolvendo petróleo
A Venezuela segue com as maiores reservas de petróleo do mundo. Com um cenário global instável e oscilações de oferta, os EUA podem estar buscando reposicionar sua relação com Caracas, mesmo que de maneira tensa. Abandonar a acusação mais espetacular abre espaço para negociações – formais ou informais — sobre petróleo, sanções e circulação de divisas.
4. Cálculo eleitoral e narrativa interna nos EUA
Trump sempre instrumentalizou a Venezuela para mobilizar sua base mais radical. Porém, com Maduro preso, insistir na acusação máxima exigiria resultados rápidos e provas concretas — algo que o governo não possui. Recuar evita desgaste antes que o fantasma da inconsistência jurídica vire munição para adversários internos.
Reação em Caracas: narrativa de sequestro e guerra política
Enquanto os EUA ajustam seu discurso, Caracas se reorganiza politicamente. Na segunda-feira (5), Delcy Rodríguez assumiu a presidência da Venezuela e, em seu discurso de posse, reforçou a versão de que Maduro foi “sequestrado” pelos Estados Unidos. A nova presidente declarou que dois “heróis venezuelanos” estariam como “reféns”, ampliando o tom de confronto e mobilizando setores nacionalistas.
A disputa discursiva – Washington ajustando acusações e Caracas denunciando sequestro – marca o início de uma nova fase da crise. Uma fase em que o peso das palavras pode ser tão decisivo quanto o das provas.
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