Audiência Pública de combate às drogas Barreiras 25022026
Primeiro ano da Lei Municipal 1.657/2025 foi marcado por debates qualificados, dados da saúde e relatos emocionantes de familiares e acolhidos durante sessão especial.
Tribuna Popular transforma plenário em espaço de escuta e compromisso público.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A Câmara de Vereadores de Barreiras foi palco, na noite desta quarta-feira (25), de uma sessão que conjugou emoção, técnica e responsabilidade institucional. Sob o tema “Prevenção ao Uso Abusivo de Substâncias Psicoativas: Prevenir é Cuidar”, a vereadora Delmah Pedra celebrou o primeiro ano da Lei Municipal nº 1.657/2025, de sua autoria, que institui o Dia Municipal de Prevenção ao Uso de Drogas.

A vereadora Delmah Pedra presidiu solenidade sobre prevenção à dependência química, destacando a importância de políticas públicas e acolhimento
Presidida pela própria parlamentar, a solenidade reuniu autoridades da saúde, representantes estaduais, profissionais da psicologia, acolhidos e familiares. O plenário se converteu em arena de escuta – e também de cobrança por políticas públicas permanentes.
“Lei que não sai do papel não transforma realidades”
afirmou Delmah na abertura, lembrando que a norma nasceu da escuta das ruas e das famílias que enfrentam o “sofrimento silencioso” da dependência química.
Com mais de 30 anos de atuação social, a vereadora defendeu a centralidade da prevenção. “Prevenir é investir em educação de qualidade, é fortalecer a escola, é garantir esporte, cultura e oportunidades. Queremos que nossos jovens, em vez de segurarem uma pedra de crack, segurem uma oportunidade. O Estado, a família e a escola precisam chegar antes da droga”, discursou, sustentando que acolhimento e política pública estruturada devem anteceder qualquer lógica meramente punitiva.
A mesa contou com a subsecretária de Saúde, Érica Lacerda; a representante do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas da Bahia, Lindinalva de Paula; o psicólogo Antônio Marcos; e Dilma Santos Silva, mãe de um acolhido. A abertura foi marcada por apresentação musical dos acolhidos do Instituto Nova Vida, entidade presidida por Delmah Pedra.
Saúde mental em Barreiras: crescimento da demanda e pressão sobre a rede

A subsecretária Érica Lacerda detalhou o crescimento da Rede de Atenção Psicossocial em Barreiras, reforçando a necessidade de políticas intersetoriais e prevenção integral
A subsecretária Érica Lacerda apresentou um panorama detalhado da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no município, contextualizando a ampliação da demanda.
“Falar de saúde hoje é um bem-estar bio, psicossocial e emocional. Não adianta tratar a doença se o meu paciente passa fome ou não tem transporte. A saúde ampliou os horizontes”, afirmou.
Os dados revelam avanço expressivo na procura por atendimento especializado:
Serviço / Indicador | 2024 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Atendimentos em grupo – CAPS AD | 351 | 1.086 | +209% |
| Atendimentos individuais – CAPS AD | — | 2.031 | +18%* |
| Consultório de Rua (desde maio/2025) | — | 613 | — |
| Internações por transtornos mentais – Hospital Eurico Dutra | — | 266 | — |
| Ocorrências de saúde mental – SAMU | — | 790 | 9% do total |
Érica ampliou o cenário para além do município: “O Brasil é o país mais ansioso do mundo, com 26 milhões de pessoas convivendo com transtorno de ansiedade, e 3,5 milhões são dependentes de álcool e outras substâncias.”
Ela concluiu defendendo uma política intersetorial: “Precisamos de uma abordagem integral, que envolva saúde, educação, assistência e a comunidade. A prevenção precisa ser universal, seletiva e indicada.”
Política pública exige orçamento, alerta Conselho Estadual

Representando o Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas, Lindinalva de Paula destacou a necessidade de orçamento para políticas de prevenção e alertou sobre os riscos do consumo problemático, especialmente do álcool
Representando o Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas e a Superintendência de Políticas sobre Drogas da Bahia, Lindinalva de Paula foi enfática:
“Para uma lei ser efetiva e prevenir uma dor que assola a Bahia e o Brasil, é preciso que se pense em orçamento. Não executamos política sem ele.”
Ela defendeu que a Câmara avance no diálogo com o Executivo para garantir recursos para campanhas e estruturação da rede.
Lindinalva também apresentou dados comparativos que desafiam percepções comuns sobre o consumo problemático de substâncias:
Substância | Percentual aproximado |
|---|---|
| Álcool | Mais de 50% |
| Tabaco | 10% a 12% |
| Cannabis | 7% a 8% |
| Medicamentos | Acima de cocaína/crack |
| Cocaína e crack | 1% a 1,5% |
“O álcool está ao meu alcance se eu virar a cabeça agora. É a substância que mais mata, que mais induz à violência, que mais está relacionada aos feminicídios nos finais de semana”, alertou.
Ela defendeu campanhas educativas não punitivistas e investimento em centros comunitários e arte como instrumentos de reconstrução social. “O que queremos é dignidade e viver bem.”
O relato que silenciou o plenário: “A família sozinha não consegue”

A mãe de um acolhido do Instituto Nova Vida, Dilma Santos Silva, compartilhou o impacto da dependência química na família e reforçou a importância de apoio comunitário e prevenção aos jovens
O momento de maior comoção veio com o depoimento de Dilma Santos Silva, mãe de Rian Henrique, acolhido no Instituto Nova Vida.
“Minha reação quando vi Rian com um corte na orelha por causa do alargador foi dar um tapa. Sangrou. E o médico disse: ‘Tá doida?’. Eu respondi: ‘Fui eu que pari, se eu pari, posso corrigir’.”
Ela narrou o impacto devastador da droga, inclusive quando seu ex-companheiro foi detido com 20 quilos de cocaína no carro durante viagem em que ela e o neto estavam presentes.
“Onde a droga entra na família da gente, que você apoia? Eu achava antigamente que era só para filho de rico, mas não escolhe cor, classe, nada.”
Em apelo direto: “A família sozinha não consegue. A igreja tem que ajudar, a Câmara tem que ajudar. Quem souber e puder, que apoie a Casa Nova Vida.”
E aos jovens: “O ‘não’ tem que ser de vocês, não das drogas.”
Dependência sob a ótica da neurociência

O psicólogo Antônio Marcos explicou os efeitos neurobiológicos das drogas e reforçou que prevenção envolve família, informação qualificada e desenvolvimento socioemocional
O psicólogo Antônio Marcos trouxe uma leitura científica do fenômeno:
“Prevenir é cuidar, não é só reprimir ou proibir, mas fortalecer vínculos afetivos.”
Com base na teoria do cérebro tríuno, explicou que substâncias psicoativas “sequestram” sistemas ligados à sobrevivência e às emoções.
“A droga sequestra o reptiliano, que é o da sobrevivência. A pessoa deixa de comer, de beber água. Não é falta de vergonha na cara ou desvio de caráter, é algo neurobiológico mais profundo.”
Ele destacou três pilares preventivos:
- Família como porto seguro
- Informação qualificada
- Desenvolvimento de habilidades socioemocionais
“A ansiedade está invadindo as casas através das telas. O cérebro busca cada vez mais prazer e esse prazer precisa ser dosado.”
E concluiu: “Eu não acredito que a droga seja o problema. O problema é a pessoa sem objetivo de vida.”
Vereadores reforçam apoio à causa

Vereadores como Thaislane Sabel, Rider Castro, Graça Melo, Adriano Stein e Silma Alves elogiaram a atuação de Delmah Pedra e destacaram a coragem dos acolhidos, reforçando a importância da prevenção contínua
Thaislane Sabel
Elogiou o trabalho de Delmah Pedra: “Não é fácil você acolher pessoas que não são nada seu, mas você acolhe como se fossem seus filhos.”
Rider Castro
Classificou o depoimento de Dilma como “forte” e compartilhou experiência pessoal com dependência na família.
Graça Melo
Pediu que a prevenção ultrapasse a data simbólica: “Que todos os dias sejam um dia de prevenção ao uso de drogas.”
Adriano Stein
Destacou a coragem dos acolhidos: “Só pelo fato de terem a coragem de tentar mudar, vocês já são vencedores.”
Silma Alves
Exaltou o cuidado da vereadora: “Temos que ter amor para cuidar das pessoas.”
Encerramento: união e compromisso permanente

Ao encerrar a sessão, Delmah Pedra reforçou a necessidade de articulação entre Legislativo e Executivo e fez questão de reconhecer nominalmente cada parlamentar que marcou presença – Graça Melo, Thaislane Sabel, Rider Castro, Adriano Stein e Silma Alves – além de estender seu agradecimento aos demais 18 vereadores que aprovaram por unanimidade o projeto de lei.
“Esta noite mostrou que juntos somos mais fortes. Eu acredito nesta Casa, acredito no trabalho de cada vereador e vereadora. Vamos seguir lutando por políticas públicas estruturantes para que nossos jovens tenham oportunidades reais e para que nenhuma família precise enfrentar essa dor sozinha.”
Delmah também reverenciou cada expositor: “Cada fala, cada dado apresentado, cada lágrima derramada aqui hoje nos fortalece na missão de cuidar das pessoas. Que esta noite seja um marco, não apenas no calendário, mas na história de Barreiras.”
A Tribuna foi encerrada com nova apresentação musical dos acolhidos do Instituto Nova Vida, que entoaram canções de superação sob o olhar emocionado do plenário – selando a noite com um gesto simbólico de recomeço e com a mensagem definitiva de que prevenção não é evento, mas processo contínuo.







