Mulher chora durante funeral das vítimas de ataque que atingiu escola
Mulher chora durante funeral das vítimas de ataque que atingiu escola em Minab, no Irã, em 3 de março de 2026. — Foto: Amirhossein Khorgooei/ISNA/WANA
Em meio aos bombardeios de Trump ao Irã, a eurodeputada Irene Montero denuncia: “Nenhuma mulher foi libertada por bombas dos EUA”. Por trás do discurso, petróleo, controle e os cães da guerra que nunca se calam
Luís Carlos Nunes – Em março, mês em que o mundo volta seus olhos para a luta das mulheres por direitos, igualdade e liberdade, a máquina de guerra estadunidense mais uma vez tenta sequestrar essa bandeira para justificar o injustificável: bombas, invasões e mortes em nome de uma “libertação” que nunca chega.
Desta vez, a carnificina tem nome e sobrenome: Donald Trump. É sob sua assinatura que os mísseis cruzam o céu do Irã no sétimo dia consecutivo de bombardeios. É sua administração que batizou a operação de “Fúria Épica” e comemora a destruição de 60% dos lançadores de mísseis iranianos como se fossem pontos num videogame. Mas seria ingênuo, e perigoso, reduzir isso a um único homem.
A alma dos Estados Unidos

Trump não é uma aberração, não é um desvio de rota. Ele é a expressão mais grotesca, mais explícita, menos filtrada daquilo que os Estados Unidos sempre foram: uma nação forjada no expansionismo, no extermínio de povos originários, no trabalho escravo, no bombardeio sistemático de qualquer país que ouse contrariar seus interesses.
Dos porões da CIA que derrubaram governos democraticamente eleitos na América Latina às toneladas de napalm despejadas sobre o Vietnã; das invasões do Iraque com a desculpa de “armas de destruição em massa” que nunca existiram ao caos semeado na Líbia; dos drones que ceifam vidas em casamentos no Iêmen às bombas que agora destroem Teerã: há um fio condutor.
Os Estados Unidos são isso. Não se trata de um partido, de um governo, de um presidente. Trata-se de um Império. E impérios não negociam, não pedem licença, não se comovem com cadáveres. Impérios extraem, destroem, avançam. E usam a retórica mais conveniente para vestir a própria barbárie.
As mulheres como escudo retórico

A declaração da eurodeputada espanhola Irene Montero, repercutida neste 6 de março de 2026, expõe a mais sórdida das estratégias: vestir a barbárie com a roupagem da virtude, transformar corpos femininos em justificativa para expansionismo, sangue e pilhagem.
“Nenhuma mulher jamais foi libertada por bombas dos EUA. Nem na Síria. Nem no Iraque. Nem no Afeganistão. E também não acontecerá no Irã. Eles se escondem atrás dos direitos das mulheres para justificar suas guerras coloniais”, afirmou Montero.
A fala da parlamentar acerta em cheio o coração da hipocrisia imperial. Sob Trump, o discurso se torna ainda mais escancarado: sua equipe já declarou que deve estar “envolvida na nomeação” do próximo líder do Irã, enquanto sua filha Ivanka posa para fotos com mulheres iranianas exiladas. A coreografia é tão previsível quanto nauseante.
A música que nunca envelhece
Há décadas, o Pink Floyd advertia em “The Dogs of War” (Os Cães da Guerra), composição que integra o álbum “A Momentary Lapse of Reason” (1987):
“Nossa moeda é carne e osso / O Inferno abriu as portas e colocou à venda / Por dinheiro vivo, vamos mentir e enganar / Mesmo nossos mestres não conhecem a teia que tecemos”
A letra de David Gilmour e Anthony Moore descreve com precisão cirúrgica a lógica dos mercenários modernos, dos senhores da guerra que transformam nações inteiras em campo de prova para armamentos, em mercado para indústria bélica, em cemitério para populações civis.
E que teia é essa que se tece agora sobre o Irã? A mesma que se teceu sobre o Afeganistão, onde 20 anos de ocupação não impediram que as mulheres fossem novamente apagadas da vida pública pelas forças que os bombardeios supostamente combatiam. A mesma que se teceu sobre o Iraque, onde a “libertação” deixou um rastro de um milhão de mortos e um país destroçado. A mesma que se tece agora, sob Trump, com a mesma coreografia de sempre.
O paradoxo americano: paz em casa, guerra no mundo
Enquanto os estadunidenses vivem em seu território o mais longo período sem ataques estrangeiros em sua história moderna, protegidos por oceanos e por um aparato militar que gasta mais que os dez países seguintes somados, os mísseis que fabricam caem sobre cabeças de crianças em Teerã, em Beirute, em Sanaa.
É a geografia da impunidade: a paz é um privilégio reservado aos que estão longe do alvo. Para o resto do mundo, resta o espetáculo da destruição transmitido ao vivo, enquanto comentaristas estadunidenses discutem se a “intervenção humanitária” foi bem-sucedida.
“Os cães da guerra não negociam / Os cães da guerra não capitularão / Eles vão tomar e você vai dar / E você deve morrer para que eles possam viver”, canta o Pink Floyd.
Morrem os iranianos. Morrem as mulheres iranianas, que não foram consultadas se preferiam bombas estadunidenses ao regime que as oprime. Morrem as crianças. E vivem os acionistas da indústria bélica, vivem os fabricantes de drones, vivem os estrategistas que planejam a próxima “guerra justa” em seus escritórios com ar condicionado.
O cinismo elevado à política de Estado
Há uma perversidade adicional em lançar uma ofensiva militar sob Trump às vésperas do Dia Internacional da Mulher. É o cinismo elevado à categoria de política de Estado. Como se as bombas inteligentes fossem capazes de distinguir opressores de oprimidos, como se a destruição de infraestrutura, hospitais e escolas pudesse trazer qualquer forma de emancipação.
As feministas iranianas, exiladas ou resistindo dentro do país, não pediram isso. As mulheres afegãs não pediram isso. As iraquianas não pediram isso. Mas suas imagens são estampadas em editoriais e discursos oficiais como se fossem a razão de ser dos bombardeios.
“Você pode bater em qualquer porta / Mas aonde quer que você vá, você sabe que eles já estiveram lá antes”, prossegue a canção. Sim, os cães da guerra já estiveram lá. Estiveram no Vietnã, estiveram na Coreia, estiveram na América Latina, estiveram em cada canto onde os interesses econômicos falaram mais alto que a retórica da liberdade.
O custo da morte versus o custo da vida
Enquanto bilhões de dólares são despejados na máquina de guerra, a população estadunidense afunda em um mar de contradições. O orçamento militar solicitado por Trump para 2026 atingiu a cifra astronômica de US$ 1,01 trilhão – o maior da história humana. É dinheiro suficiente para financiar programas que salvam vidas, mas que são sistematicamente sacrificados no altar da indústria bélica.
Com esse montante, seria possível:
- Erradicar toda a dívida médica dos 20 milhões de americanos que carregam esse peso
- Contratar 350 mil enfermeiros para suprir o déficit nacional da área de saúde
- Garantir moradia para todos os 3,9 milhões de americanos que recebem ordem de despejo a cada ano
- Tirar das ruas todos os 653 mil americanos em situação de rua
- Expandir programas de assistência à infância para milhões de crianças que vivem na pobreza
- Substituir todas as tubulações de chumbo do país, garantindo água potável
Mas não é isso que acontece. Enquanto os mísseis cruzam o céu do Irã, a crise do fentanil continua matando mais de 100 mil americanos por ano – um número superior ao de soldados perdidos em décadas de guerra no Vietnã. A proposta de Trump para 2026, no entanto, incluía um corte de US$ 1 bilhão justamente nos programas de combate ao vício e à saúde mental.
Os sem-teto também batem recordes históricos. Em 2025, mais de 650 mil pessoas viviam nas ruas nos EUA – o número mais alto já registrado. Enquanto isso, Trump gastou meio bilhão de dólares apenas em 2025 para ocupar militarmente cidades americanas, removendo moradores de rua de parques enquanto prometia “combater o crime”.
O orçamento que bilionários como Elon Musk ajudaram a desenhar cortou US$ 33,6 bilhões do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano e US$ 12 bilhões do Departamento de Educação. Escolas públicas perderam verba, enquanto o Pentágono ganhou US$ 113 bilhões extras.
É a escolha mais cruel: morte lá fora, abandono aqui dentro.
“Os cães da guerra não negociam / Os cães da guerra não capitularão / Eles vão tomar e você vai dar / E você deve morrer para que eles possam viver”.
Morrem os iranianos. Morrem os americanos nas ruas, vítimas do vício e do desamparo. Morrem as crianças de ambos os lados. E vivem os acionistas da Lockheed Martin, da Raytheon, da General Dynamics – empresas que lucram bilhões com cada bomba lançada.
A dívida pública americana já ultrapassou US$ 38 trilhões, e o serviço dessa dívida (os juros pagos aos credores) já consome mais recursos do que o próprio orçamento da defesa. É o retrato de um império que se canibaliza: gasta-se com juros da dívida contraída para financiar guerras, enquanto se corta investimentos em educação, saúde e moradia.
“Você pode bater em qualquer porta / Mas aonde quer que você vá, você sabe que eles já estiveram lá antes”. Os cães da guerra não apenas estiveram lá – eles nunca foram embora. E, enquanto uivam, o povo americano paga a conta com a própria carne.
O que realmente está em jogo
Não há interesse em libertar mulheres iranianas. Não há interesse em levar democracia ao Oriente Médio. O que está em jogo é muito mais antigo, muito mais sujo: petróleo, controle geopolítico, hegemonia regional.
O Irã possui a quarta maior reserva de petróleo do mundo e a segunda maior de gás natural. Sua posição estratégica, às margens do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta, faz do país uma peça fundamental no tabuleiro energético global. Controlar o Irã – ou desestabilizá-lo a ponto de impor um governo fantoche – significa controlar o fluxo de energia que move a economia mundial.
As alianças regionais também estão em jogo. O Irã é o principal aliado da Síria, mantém influência sobre o Hezbollah no Líbano, apoia grupos no Iraque e mantém relações estratégicas com a Rússia e a China. Desmantelar o regime iraniano não é apenas uma questão de “combater o terrorismo” ou “defender os direitos humanos” – é eliminar um player independente que desafia a hegemonia estadunidense na região.
Há também o interesse em enfraquecer os adversários geopolíticos dos EUA. A Rússia, mergulhada em sua própria guerra na Ucrânia, vê no Irã um aliado crucial. A China, que recentemente aprofundou laços econômicos com Teerã em um acordo de 25 anos, também perde influência se o Irã cair na esfera de controle ocidental. A guerra contra o Irã é, também, uma guerra por procuração contra Moscou e Pequim.
E há, por fim, a indústria bélica. Cada míssil Tomahawk, cada bomba guiada a laser, cada drone lançado representa lucro para as contratantes do Pentágono. A “Operação Fúria Épica” já consumiu, em sete dias, o equivalente ao orçamento anual de países inteiros. E enquanto as bombas caem, os acionistas comemoram.
Um mundo, um campo de batalha
“Um mundo, é um campo de batalha / Um mundo, e nós o destruiremos”, canta o Pink Floyd em tom de profecia.
Não se trata de defender o regime iraniano, suas violações de direitos humanos ou seu histórico de repressão. Trata-se de recusar a falsa escolha entre tiranias locais e a tirania global das bombas. Trata-se de lembrar que a autodeterminação dos povos não se constrói sob escombros. Trata-se de denunciar que, enquanto o Império gasta rios de dinheiro para destruir, seu próprio povo agoniza à míngua.
E, acima de tudo, trata-se de desmascarar a retórica: não há libertação. Há petróleo. Há controle. Há hegemonia. Há lucro.
A fala final de Irene Montero
Irene Montero tinha razão. Nenhuma mulher jamais foi libertada por bombas dos EUA. Nem no Afeganistão, onde 20 anos de ocupação terminaram com o Talibã de volta ao poder e as mulheres novamente apagadas da vida pública. Nem no Iraque, onde a “libertação” deixou um milhão de mortos e um país destroçado. Nem na Síria, onde o “apoio à oposição moderada” alimentou uma guerra que já dura mais de uma década.
E não será no Irã.
As mulheres iranianas não precisam de mísseis Tomahawk. Precisam de solidariedade internacional genuína, de apoio às suas lutas internas, de boicotes econômicos ao regime que as oprime – não de bombas que matam a todas, indistintamente. Precisam que o mundo reconheça sua autonomia, sua capacidade de lutar por si mesmas, sem tutela imperial.
Mas os cães da guerra não se interessam por isso. Eles querem o petróleo. Eles querem o controle. Eles querem a hegemonia.
“Os cães da guerra não negociam / Os cães da guerra não capitularão / Eles vão tomar e você vai dar / E você deve morrer para que eles possam viver”.
Morrem os iranianos. Morrem as mulheres iranianas, transformadas em peças de retórica. Morrem as crianças. E vivem os acionistas. E vivem os generais. E vive o Império.
Enquanto escrevo estas linhas, em 6 de março de 2026 (com profunda dor e emoção), o sétimo dia de bombardeios completa-se. Mais de mil iranianos estão mortos, segundo fontes locais. Entre eles, certamente, mulheres. Mulheres que não foram libertadas. Mulheres que não pediram para ser mártires de uma causa que não era sua. E, do outro lado do mundo, mais de 650 mil americanos dormem nas ruas, dezenas de milhares morrem por overdose, e crianças passam fome.
No domingo, 8 de março, quando o mundo celebrar oficialmente o Dia Internacional da Mulher, que se lembre: há mulheres soterradas sob os escombros no Irã. Há mulheres que fugiam com seus filhos nos braços. Há mulheres que não terão o que celebrar. E há mulheres, nos Estados Unidos, que sobrevivem nas ruas enquanto o governo escolhe financiar a morte.
E os cães da guerra, esses, continuarão uivando. Esperando a próxima presa. A próxima “missão humanitária”. A próxima guerra que trará a paz.
Porque, como a música nos alerta:
“O que quer que você mude, você sabe que os cães permanecem”.
*”The Dogs of War” é uma canção da banda britânica Pink Floyd, lançada em 1987 no álbum “A Momentary Lapse of Reason”, composta por David Gilmour e Anthony Moore. Irene Montero é eurodeputada espanhola pelo partido Podemos e ex-ministra da Igualdade da Espanha.*
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