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Reajuste unilateral via decreto consome até 27,1% do salário mínimo e inflama mobilização popular; na rádio Oeste FM, debate técnico entre especialista em políticas públicas e diretor da concessionária expõe o colapso do modelo de remuneração por passageiro
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O transporte público de Barreiras, torna-se o epicentro de um levante social. Sob a vigência do Decreto nº 04/2026, que eleva a tarifa urbana para R$ 5,00 (pagamento em espécie), a população organiza uma resposta direta nas ruas. O “Ato Contra o Aumento” está marcado para quinta-feira (15), às 17h, na Praça das Corujas, reunindo estudantes da UFOB, usuárias do transporte público, lideranças da UEES e lideranças políticas política em uma manifestação que visa denunciar a precariedade do serviço e a opacidade dos contratos que regem o setor.
A matemática da exclusão e a canetada do Executivo
A decisão do prefeito Otoniel Teixeira de autorizar o reajuste por decreto isolou o escrutínio público sobre as planilhas da Viação Cidade de Barreiras (VCB). O impacto é aritmético: com o salário mínimo de 2026 fixado em R$ 1.621,00, o trabalhador que necessita por exemplo de quatro conduções diárias comprometerá 27,1% do salário (R$ 440,00/mês) apenas para se deslocar. Mesmo para usuários do Barreiras CARD (R$ 4,50), o gasto mensal de R$ 396,00 consome 24,4% do salário, inviabilizando o acesso básico à saúde, educação e lazer.
O embate na rádio Oeste FM: “Pecado Capital” vs. Mudança de Paradigma
A repercussão ganhou contornos técnicos em um debate no programa Impacto, da rádio regional Oeste FM. O diretor da concessionária, Neidilson Ribeiro, justificou o valor alegando que o sistema é sobrecarregado por gratuidades não pagas pelo município.
“O pecado capital aí é que essas gratuidades não são financiadas pelo poder público. Quem financia é o passageiro pagante”, afirmou o diretor, defendendo que o valor ideal para o usuário deveria estar entre R$ 2,00 e R$ 3,00, desde que houvesse subsídio.
A réplica veio do cientista político Jean Carlos Gama, que rebateu o que chamou de “imprecisões” na fala do empresário. Jean Carlos argumentou que o modelo de remuneração baseado em contar passageiros está falido.
“Esse modelo que nós temos hoje tem feito com que os operadores entrem em falência (…). Não faz sentido basear esse sistema na quantidade de pessoas”, explicou. Segundo o especialista, um estudo específico para Barreiras provou que a Tarifa Zero custaria pouco mais de 2% da arrecadação municipal (cerca de R$ 20 milhões/ano).
Jean Carlos Gama foi enfático:
“A implementação da tarifa zero não é um debate técnico e orçamentário (…), é uma decisão política”.
Investigação: 12 anos de segredos e repasses milionários
Por trás do aumento de R$ 0,50, esconde-se uma “caixa-preta” contratual. A concessão, iniciada em 2014 com um valor líquido de R$ 148.404.999,66, permanece invisível no Portal da Transparência. A falta de acesso público aos termos dos contratos 173/2014 e 174/2014 impede a fiscalização de obrigações como renovação da frota, por exemplo.
O debate sobre a arrecadação da cidade também entrou em pauta. Durante a entrevista ao radialista Marcelo Ferraz, no Programa Impacto da rádio Oeste FM, uma pergunta enviada por Danilo Henrique (candidato a prefeito na última eleição) questionou a viabilidade da gratuidade diante do caixa municipal:
“Barreiras recebe cerca de 3 milhões por dia; diante disso, é realmente possível implantar tarifa zero no transporte público?”.
Investigações do portal Caso de Política revelam que, somente entre 2021 e 2022, a gestão de Zito Barbosa destinou mais de R$ 2,5 milhões extras à empresa, sem que isso resultasse em melhorias para a comunidade da UFOB, que relata veículos sucateados e descaso com pessoas com deficiência.
Subsídios diretos e contribuição empresarial: fim da catraca
A crítica ao reajuste traz para o centro do debate os conceitos que o governo federal tenta nacionalizar via Sistema Único de Mobilidade (SUM) para viabilizar a Tarifa Zero:
- Subsídios Diretos: pagamento à empresa pelo serviço prestado (quilômetro rodado), e não por passageiro. Isso garante qualidade, previsibilidade e circulação mesmo em horários de baixa demanda.
- Contribuição Empresarial: substituição do atual Vale-Transporte por uma taxa fixa paga pelas empresas a um fundo municipal. O trabalhador deixa de perder 6% do salário, enquanto o município passa a ter receita estável para financiar a gratuidade universal.
Pressão política e social
Enquanto o ato na Praça das Corujas ganha adesão, o vereador João Felipe (PCdoB) reforça o tom crítico:
“O prefeito da nossa cidade não tem vergonha na cara e decidiu aumentar a passagem (…). Nós vamos agora ocupar as ruas mostrando a nossa indignação”.
Para os especialistas e movimentos sociais, a saída para a crise em Barreiras passa por uma auditoria profunda do contrato de 2014 e pela coragem política para transformar o transporte de um negócio baseado em catracas em um direito social financiado diretamente pelo orçamento público.
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