Empate absoluto, vitórias por um voto e goleadas históricas marcam as curiosidades das eleições de 2026
Segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro reuniu resultados extremos nos municípios, uma disputa territorial equilibrada, uma virada inédita e números que ajudam a dimensionar o impacto da extensão do horário de votação.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A eleição presidencial de 2026 produziu resultados que ajudam a compreender a dimensão da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Para além da vitória nacional de Lula, com 64.256.232 votos (51,79%), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio, uma diferença de 4.430.191 votos, o segundo turno foi marcado por situações incomuns: empate exato em um município, decisões definidas por apenas um voto e desempenhos que ultrapassaram os 90% em algumas cidades.

Um dos resultados mais curiosos ocorreu em Marquinho, no Paraná. Ali, os dois candidatos terminaram rigorosamente empatados, com 1.530 votos cada. Não houve vantagem numérica para nenhum dos lados, um resultado raro em uma eleição presidencial e que traduz, em escala municipal, a polarização que marcou a disputa nacional.
A diferença mínima também apareceu em outros municípios. Em Apiacá, no Espírito Santo, a vantagem foi de apenas um voto; o mesmo ocorreu em Anhanguera, em Goiás, Altamira do Paraná, no Paraná, São João do Pau d’Alho e Nova Luzitânia, em São Paulo. Nesses lugares, cada voto teve peso decisivo na definição do vencedor local.
As maiores diferenças proporcionais
Se em algumas cidades a disputa foi decidida no detalhe, em outras o resultado assumiu proporções muito diferentes. A maior votação proporcional de Lula foi registrada em Carnaubeira da Penha, em Pernambuco, onde alcançou 92,34% dos votos válidos, contra 7,66% de Flávio Bolsonaro. O petista também obteve desempenhos expressivos em Bonfim do Piauí (91,25%), Fartura do Piauí (91,24%) e Guaribas (91,11%).
Do outro lado, Flávio Bolsonaro encontrou seu melhor resultado proporcional em Nova Pádua, no Rio Grande do Sul, com 90,56% dos votos, enquanto Lula ficou com 9,44%. O candidato do PL também superou os 86% em Vespasiano Corrêa (87,82%), Monte Belo do Sul (86,83%) e Pinto Bandeira (86,58%).
Os números revelam que, embora a disputa nacional tenha terminado com significativa diferença de mais de quatro milhões de votos, houve municípios em que a preferência pelo candidato vencedor se aproximou de uma unanimidade eleitoral.
Um país dividido por regiões
O mapa eleitoral também expôs uma divisão territorial bastante nítida. Lula venceu nos nove estados do Nordeste, região em que construiu uma vantagem estimada em aproximadamente 13,7 milhões de votos. Flávio, por sua vez, concentrou sua força nas demais regiões, onde obteve vantagem conjunta estimada em cerca de 9,3 milhões de votos.
No resultado por unidades da Federação, Lula venceu em 13 estados, incluindo todos os nordestinos, além de Amapá, Pará, Amazonas e Minas Gerais. Flávio também venceu em 13 estados, além do Distrito Federal. A divisão demonstra que a vitória nacional não correspondeu a uma predominância uniforme no território brasileiro.
Minas Gerais voltou a ocupar posição de destaque nesse cenário. O estado, tradicionalmente observado como um importante termômetro eleitoral, deu a vitória a Lula e acompanhou o resultado nacional. Já Santa Catarina foi o estado em que Flávio alcançou sua maior votação proporcional, com 69,42%. No sentido oposto, o Piauí apresentou o melhor desempenho estadual de Lula, com mais de 75% dos votos.
Minas Gerais e a virada no segundo turno
A eleição também entrou para a história pela inversão do resultado entre os dois turnos. Flávio Bolsonaro havia terminado a primeira etapa na frente, com 47,04%, enquanto Lula registrara 45,15%. No segundo turno, porém, o petista reverteu a desvantagem e venceu a disputa nacional.
O resultado representou uma mudança importante em relação ao primeiro turno e, conforme a apuração do TSE, essa foi a primeira vez desde a adoção do segundo turno presidencial, em 1989, que um candidato que terminou a primeira votação atrás conseguiu superar o adversário na etapa decisiva.
Abstenção e participação
Outro dado relevante foi a redução da abstenção. No primeiro turno, 21,08% dos eleitores aptos não compareceram às urnas. No segundo, o índice caiu para 19,2%. A diferença indica maior participação na etapa final da disputa, embora a ausência de milhões de eleitores continue sendo um componente importante da análise do resultado.
A extensão do horário e os votos registrados depois das 17h
A eleição também teve uma situação excepcional na Bahia. Por decisão judicial, o horário de votação foi estendido em duas horas em determinadas localidades, passando das 17h para as 19h. A medida foi acompanhada por uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que suspendeu temporariamente o recebimento dos boletins de urna enquanto aguardava a consolidação técnica dos dados.
Os registros de votação após as 17h ganharam relevância no debate político. Os números apresentados para esse período somam 34.330 votos, volume equivalente a aproximadamente 0,027% do eleitorado de 128,2 milhões de pessoas e a cerca de 0,77% da diferença de 4,43 milhões de votos que separou os dois candidatos no resultado nacional.
A dimensão desses números precisa, contudo, ser interpretada com cuidado. A quantidade de votos registrados depois das 17h, isoladamente, não permite concluir que a extensão do horário tenha alterado o resultado da eleição. Tampouco se deve atribuir automaticamente todos os votos contabilizados após esse horário à decisão judicial adotada na Bahia, uma vez que o dado nacional não corresponde exclusivamente às seções eleitorais alcançadas pela medida.
O episódio encerra uma eleição repleta de contrastes. Houve município em que os candidatos empataram voto a voto, cidades em que a diferença foi de apenas um eleitor e localidades nas quais um dos lados superou 90% da votação. No plano nacional, a vitória de Lula por pouco mais de quatro milhões de votos mostrou que, mesmo diante de uma polarização territorial tão acentuada, a disputa foi decidida por uma margem relativamente estreita em relação ao total de votos válidos.
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