"Não governo o Brasil, governo os EUA", afirma Trump
Entre afagos públicos ao petista e insinuações vazias de fraude, líder republicano lava as mãos e deixa o bolsonarismo desamparado perante a matemática irrefutável do TSE.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A expectativa do bolsonarismo de transformar a Casa Branca em trincheira contra a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva ruiu diante do pragmatismo desabrido de Donald Trump. Instado pela imprensa internacional a intervir na contestação do pleito – após Lula vencer o segundo turno com 51,79% contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL) -, o líder republicano desfez-se do aliado brasileiro com uma sentença lapidar:
“Eu não governo o Brasil, eu governo os Estados Unidos”.
O descarte veio acompanhado de um jogo de cena ambíguo, no qual Trump ensaiou o papel de incendiário sem se queimar no fogo diplomático. Questionado sobre a lisura da disputa, o republicano disparou que o processo “pareceu mais uma eleição fraudada, pareceu tão corrupta e tão terrível”, mas apressou-se a estender pontes de conveniência com o Palácio do Planalto ao exaltar o vitorioso:
“Gosto muito do Lula. Pessoalmente, eu gosto dele e me dou muito bem com ele. Mas aquela prorrogação de votação foi muito estranha”.
Ao distribuir rapapés ao petista e relegar os derrotados à própria sorte, Trump escancarou a dinâmica do agitador que incita o conflito, admira o troféu do adversário e atravessa a rua antes da chegada das autoridades. As suspeitas que tentou insinuar a respeito do estiramento do horário de votação até as 19h caem por terra quando confrontadas com os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), compilados com exclusividade pelo Congresso em Foco.
A autópsia dos arquivos de log das urnas eletrônicas revela que apenas 34.330 brasileiros depositaram seus votos após as 17h em todo o país. A cifra é uma gota d’água no oceano eleitoral: representa irrisórios 0,027% dos 128,2 milhões de votantes e míseros 0,77% da folga de 4,43 milhões de votos consolidada por Lula. Na prática, ainda que a integralidade desses sufrágios tardios fosse transferida para Flávio, a correlação final das urnas permaneceria intocada.
A consistência dos relatórios do TSE desmonta ainda o espantalho de uma mobilização de última hora orquestrada pela liminar do ministro Cristiano Zanin. Nada menos que 82,3% dessa votação marginal (28.257 eleitores) foi processada até as 17h05. Tratava-se, portanto, de eleitores que já ocupavam as tradicionais filas das seções e teriam o direito assegurado de votar de qualquer maneira, respaldados pela distribuição de senhas regimentais.
Para além disso, o comunicado de orientação geral da Corte aos estados só veio a público às 17h49, quando o comparecimento nas seções já se encontrava praticamente esgotado.
A ironia que desconcerta a retórica bolsonarista ganha contornos ainda mais nítidos na esfera doméstica, já que a própria equipe jurídica de Flávio havia requerido a dilação de horário em 17 cidades do Sul e de São Paulo castigadas por tempestades e bloqueios de acesso.
O ponto final na narrativa conspiratória foi colocado de forma solene no encerramento oficial dos trabalhos da Justiça Eleitoral. O presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques – indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro -, comunicou ter telefonado pessoalmente para os dois concorrentes e garantiu a higidez absoluta do processo:
“Registro que liguei para os dois candidatos para confirmar o resultado do pleito. Ao candidato Flávio Bolsonaro, por votação expressiva, parabenizo pela campanha. Ao Presidente Lula, registro o reconhecimento da Justiça Eleitoral por sua participação em mais este processo democrático e pela vitória nas urnas. Sua trajetória política atravessa diferentes períodos da história democrática brasileira. Participou como candidato de 8 eleições, tendo vencido 4 delas.”
Ao avaliar objetivamente o impacto da prorrogação nas seções, o presidente do TSE arrematou de maneira categórica:
“Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial. Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral.”
Privados de estofo matemático, desmentidos pela própria cúpula da Justiça Eleitoral e desprovidos do apadrinhamento externo que tanto alardearam, os conspiradores de ocasião veem o teatro do terceiro turno se esvair entre a frieza dos números oficiais e a indiferença de um Trump que prefere estender a mão ao presidente reeleito a comprar o choro de quem perdeu na urna.
Caso de Política | A informação passa por aqui.
#Politica #Eleicoes2026 #Trump #Lula #FlavioBolsonaro #Diplomacia #TSE





