Lula cresce 22% na cidade que Nikolas gravou vídeo sobre o Nordeste.Reprodução
Vídeo forjado em Luís Eduardo Magalhães gerou onda de rejeição no oeste baiano, encolheu margem de Flávio Bolsonaro e rendeu bronca pública do prefeito.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A incursão cinematográfica do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) pelo oeste baiano produziu nas urnas o efeito oposto ao planejado pelos estrategistas de Flávio Bolsonaro (PL). Em Luís Eduardo Magalhães – município escolhido a dedo pelo parlamentar para gravar uma ofensiva contra o PT -, Luiz Inácio Lula da Silva registrou um avanço de 22,6% no número de votos válidos entre o primeiro e o segundo turno, saltando de 20.173 para 24.739 sufrágios.
No mesmo intervalo, Flávio praticamente andou de lado: cresceu tímidos 3,1% (de 38.496 para 39.688 votos). O candidato do PL manteve a dianteira local com 61,60% a 38,40%, mas viu sua margem de folga derreter em quase 3,4 mil votos logo após a visita do correligionário mineiro.
O revés local operou como o estopim de uma verdadeira bola de neve pela bacia do Rio Grande. A repercussão negativa transbordou as fronteiras de Luís Eduardo Magalhães e contaminou cidades vizinhas de forte peso regional, como Barreiras e São Desidério, onde a reação ao material circulou intensamente em grupos comunitários e sindicatos rurais.
O sentimento de que o interior baiano estava sendo usado de forma instrumentalizada por um forasteiro serviu de combustível para a militância petista e impulsionou o comparecimento eleitoral em favor de Lula em todo o polo do agronegócio baiano.
O episódio escancarou a imaturidade política e a empolgação inconsequente de Nikolas Ferreira – para não dizer oportunismo -, incapaz de discernir o engajamento superficial de algoritmos da complexidade concreta da vida real.
Conhecido pela militância de estúdio e discursos inflamados no Sudeste, o deputado aterrissou na Bahia demonstrando o mesmo traquejo de um turista que desembarca na Amazônia esperando encontrar onças na calçada.
Em questão de 72 horas, publicou dois conteúdos conflitantes: primeiro, exibiu lavouras modernas e concessionárias para tentar vender a ilusão de que o progresso local derivava exclusivamente da cartilha direitista; logo depois, divulgou o vídeo “O Nordeste que foi esquecido”, gravado na mesma cidade, mas ocultando o nome do município, usando teleprompter e focando famílias em extrema vulnerabilidade para associar a miséria a gestões petistas.
A encenação foi tão descolada da realidade que o desmentido mais demolidor não partiu da oposição, mas do próprio prefeito de Luís Eduardo Magalhães, Júnior Marabá (PP). Aliado declarado do campo bolsonarista, o gestor municipal não engoliu a afobação do visitante e foi às redes passar um sermão público no deputado:
“Nikolas, você errou. Sou prefeito dessa cidade onde você gravou seus dois vídeos: um mostrando prosperidade e outro, pobreza, nas mesmas terras. Às vezes a gente precisa desenhar”, disparou o prefeito, antes de dar uma aula sobre a história fundiária da região – dividida entre pioneiros que tiveram acesso a crédito e áreas que ainda lutam por regularização histórica -, desnudando o roteiro mambembe montado pelo parlamentar mineiro.
Para fechar o fiasco, bastidores revelaram instruções da equipe para esconder antenas parabólicas do enquadramento na tentativa de forçar um cenário de abandono absoluto, além da posterior derrubada do áudio por uso desautorizado de trilha sonora.
Entre a pose messiânica e a inexperiência flagrante de quem confunde curtidas de internet com voto na urna, Nikolas conseguiu a proeza de transformar sua superprodução em um tiro no pé: tomou um corretivo do anfitrião aliado, desagradou os eleitores da região e acelerou em quase sete vezes o ritmo de crescimento de Lula sobre o seu próprio candidato.
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