LEM é o reduto da direita e Lamarão é a capital do lulismo
Com 61,60% dos votos para Flávio Bolsonaro, município do Oeste bateu recorde conservador no estado e impôs a Lula seu pior percentual entre as 417 cidades baianas.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – Com 100% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o mapa eleitoral da Bahia reafirmou sua histórica inclinação ao Partido dos Trabalhadores, mas consolidou um contraponto expressivo na fronteira agrícola. No segundo turno de 2026, Luís Eduardo Magalhães (LEM) firmou-se como o município mais à direita do estado: Flávio Bolsonaro (PL) obteve 61,60% dos votos válidos (39.688 votos) contra 38,40% de Luiz Inácio Lula da Silva (24.739 votos).
O resultado representou o melhor desempenho percentual da oposição e, simultaneamente, o piso eleitoral do petista entre os 417 municípios baianos.
A marcha conservadora: 2022 versus 2026
A preferência local pela direita aprofundou-se ao longo dos últimos quatro anos. Em 2022, Jair Bolsonaro havia vencido no município com 58,61% dos votos (31.918 sufrágios), mas o posto de maior reduto bolsonarista da Bahia pertencia então a Buerarema, no Litoral Sul (59,64%).
Em 2026, o cenário reconfigurou-se: enquanto Buerarema viu a vantagem conservadora encolher para 52,26%, Luís Eduardo Magalhães avançou quase três pontos percentuais, isolando-se no topo do ranking direitista estadual.
Chama a atenção, contudo, a dinâmica entre os turnos de 2026 em LEM: o percentual de Flávio Bolsonaro na rodada final (61,60%) ficou sutilmente abaixo do registrado na primeira fase (62,03%). Ao atrair os votos de abstenção, nulos, brancos e de candidaturas de terceira via, Lula cresceu de 32,51% para 38,40%, encurtando a diferença em 6,32 pontos percentuais – movimento relevante, mas insuficiente para fragilizar o domínio liberal-conservador no município.
Comportamento eleitoral de Luís Eduardo Magalhães (2022 × 2026)
| Pleito / Fase | Flávio / Jair Bolsonaro | Lula (PT) | Diferença | Vencedor Local |
| 2º Turno 2022 (Jair Bolsonaro) | 58,61% (31.918 votos) | 41,39% (22.542 votos) | +17,22 p.p. | Jair Bolsonaro |
| 1º Turno 2026 (Flávio Bolsonaro) | 62,03% | 32,51% | +29,52 p.p. | Flávio Bolsonaro |
| 2º Turno 2026 (Flávio Bolsonaro) | 61,60% (39.688 votos) | 38,40% (24.739 votos) | +23,20 p.p. | Flávio Bolsonaro |
Fonte: Dados consolidados do TSE (100% apurado)
LEM ante as raras vitórias oposicionistas na Bahia
Flávio Bolsonaro saiu vitorioso em apenas quatro municípios baianos. Contudo, enquanto as disputas em Teixeira de Freitas e Itamaraju foram decididas voto a voto, em Luís Eduardo Magalhães a oposição estabeleceu uma folga de 23,2 pontos percentuais.
Municípios com vitória de Flávio Bolsonaro na Bahia (2026)
| Município | Região | Votos Flávio (%) | Votos Lula (%) | Margem de Vitória |
| Luís Eduardo Magalhães | Oeste | 61,60% | 38,40% | +23,20 p.p. |
| Buerarema | Litoral Sul | 52,26% | 47,74% | +4,52 p.p. |
| Itamaraju | Extremo Sul | 51,56% | 48,44% | +3,12 p.p. |
| Teixeira de Freitas | Extremo Sul | 50,06% | 49,94% | +0,12 p.p. (93 votos) |
| Média Estadual (Bahia) | Total | 28,69% | 71,31% | Lula +42,62 p.p. |
Fonte: Dados consolidados do TSE (100% apurado)
Os dois polos da política baiana em 2026
O contraste de LEM com a realidade estadual revela a polarização socioeconômica da Bahia. Enquanto na média estadual Lula superou os 71% dos votos válidos, no Território do Sisal e no Vale do Paramirim o presidente aproximou-se dos 90%, estabelecendo em Lamarão o epicentro do voto governista.
Extremos da eleição presidencial na Bahia (2026)
| Extremo Eleitoral | Município | % Lula | % Flávio | Perfil Socioeconômico Dominante |
| Ponto mais à direita | Luís Eduardo Magalhães | 38,40% | 61,60% | Fronteira do agronegócio, alta renda per capita e forte migração sulista |
| Ponto mais à esquerda | Lamarão | 87,49% | 12,51% | Semiárido/Sisal, predomínio da agricultura familiar, do setor público e programas de transferência de renda |
| 2º ponto mais à esquerda | Boquira | 87,41% | 12,59% | Bacia do Paramirim, predomínio da agricultura familiar, economia ancorada em serviços e funcionalismo |
Fonte: Dados consolidados do TSE (100% apurado)
As raízes do voto e a força do “Time Marabá”

A fidelidade de LEM ao campo conservador decorre diretamente de sua formação produtiva e demográfica. Emancipado no ano 2000, o município floresceu ancorado na cadeia produtiva da soja, milho e algodão no Matopiba, atraindo fluxos migratórios do Sul e Sudeste – regiões de tradicional inclinação antagônica ao PT. O eleitorado local alinha-se a pautas de desregulamentação econômica, segurança jurídica no campo e estímulo ao livre mercado.
Essa densidade política teve reflexo direto na disputa legislativa: articulado pelo coordenador político Jader Marabá e pelo prefeito Júnior Marabá, o Time Marabá foi o único grupo político da região a eleger um deputado estadual em 2026. A deputada estadual eleita Cinthya Marabá (PL) somou 89.063 votos e recebeu votos em 375 municípios baianos. O mandato foi praticamente selado nas duas principais cidades do Oeste, com expressivos 29.977 votos em Luís Eduardo Magalhães e 19.802 votos em Barreiras – totalizando quase 50 mil votos apenas nesse eixo.
Esse desempenho eleitoral destoa do restante da região: na disputa presidencial, Barreiras deu 56,72% a Lula e São Desidério garantiu 64,63% ao petista. Luís Eduardo Magalhães consolida-se, desse modo, como uma singularidade política no estado – um enclave liberal no maior colégio eleitoral do Nordeste.
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