Zanin atende reclamações das duas campanhas, estica votação até as 19h e lambança no TSE trava apuração
Além da omissão diante dos alertas de Lula e Flávio Bolsonaro, presidência de Kassio Nunes Marques vaza números preliminares, trava sistema às pressas e espalha desordem nas seções eleitorais.
Bate-cabeça em Brasília atrasa desfecho da eleição
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O encerramento do segundo turno presidencial deste domingo (25) descambou para um dos episódios mais desastrosos da história recente da Justiça Eleitoral. O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a extensão do horário de votação em todo o país até as 19h, atendendo a petições formais apresentadas tanto pela campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto pela chapa de Flávio Bolsonaro (PL).
Porém, mais do que a lentidão em deliberar, a sucessão de erros operacionais e trapalhadas capitaneada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, transformou o encerramento do pleito em uma autêntica lambança institucional.
Os pedidos de providência chegaram a Brasília no começo da tarde. O comitê petista denunciou a retenção e o corte deliberado de linhas de transporte público em grandes colégios eleitorais da Bahia, como Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas.
Do outro lado, a equipe jurídica de Flávio Bolsonaro protocolou requerimento direcionado diretamente ao gabinete de Kassio Nunes Marques, cobrando a prorrogação até as 19h em 17 cidades castigadas por tempestades em São Paulo (como a capital, Americana e Jundiaí), Paraná (Curitiba e Guaratuba) e Santa Catarina (Tijucas e Videira).
A representação bolsonarista apontou enxurradas, deslizamentos e ruas bloqueadas, sustentando que os cidadãos não deveriam ter de arriscar a integridade física para conseguir votar, e exigiu expressamente que nenhum resultado parcial fosse exibido antes do término estendido.
Da lentidão à trapalhada: o vazamento de votos parciais
Kassio Nunes Marques ignorou a urgência dos dois lados. Sentou sobre os requerimentos a partir das 13h30, pediu prazos regimentais a tribunais regionais e deixou o relógio correr rumo ao horário fatal das 17h. A inércia empurrou a crise para o STF, onde Zanin, sorteado relator da Reclamação 101.673 às 16h32, determinou a prorrogação geral.
Foi aí que a inação se transformou em desastre de gestão. Mesmo com a ordem do Supremo expedida, o TSE manteve o piloto automático ligado e abriu os sistemas de apuração às 17h. Pior: às 17h06, os telões da Corte e o aplicativo oficial do tribunal começaram a divulgar parciais da disputa presidencial para todo o país. Foram exibidas 1.225 seções totalizadas (0,25% das urnas), registrando Lula com 57,66% e Flávio com 42,34%.
O vazamento violou frontalmente a regra de ouro do processo eleitoral: jamais tornar públicos percentuais da corrida enquanto eleitores ainda estão votando nas cabines. Diante do disparate, a presidência do TSE puxou o freio de emergência: suspendeu abruptamente a divulgação, travou os servidores e mandou avisar aos estados que a votação continuava até as 19h – gerando um curto-circuito generalizado.
Medida não resolve o problema e amplia a disparidade
A marcha-à-ré tardia não pacificou o pleito e multiplicou as distorções, segundo confirmações oficiais dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e relatos de campo colhidos por fiscais partidários e equipes de reportagem.
De acordo com informações do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) e de zonas eleitorais do TRE-SP e do TRE-BA, a notificação de Brasília só chegou aos cartórios quando a maioria absoluta dos colégios já havia encerrado os trabalhos pontualmente às 17h. Milhares de mesários já tinham emitido o Boletim de Urna (BU), desligado os equipamentos e lacrado as mídias de votação.
O apagão operacional obrigou o STF e o TSE a emitirem despachos de esclarecimento no início da noite. Em nota técnica e decisão complementar nos autos da Rcl 101.673, Zanin e a cúpula do tribunal admitiram que as urnas já encerradas e com BU emitido não poderiam ser religadas por razões de integridade do software eleitoral.
Assim, a prorrogação passou a valer apenas para as raras seções que ainda estavam abertas por motivo de fila às 17h.
Conforme apurado junto a cartórios de São Paulo, Salvador e Brasília, a decisão gerou uma disparidade escancarada no exercício da cidadania: no mesmo colégio, eleitores encontraram salas já fechadas e lacradas, enquanto em salas contíguas eleitores puderam continuar votando até as 19h porque o fluxo estava atrasado.
Nos bastidores do Judiciário e nos comandos das duas campanhas, o sentimento predominante é de perplexidade. A mistura de omissão inicial com descontrole técnico colocou a credibilidade operacional da presidência do TSE sob fogo cruzado, produzindo uma insegurança jurídica que deve arrastar os questionamentos sobre a apuração para muito além da divulgação do resultado final.
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