Dívida de R$ 8 milhões da Linkar expõe crise financeira e tensão política entre Zito e Otoniel
Empresa ligada a aliado histórico de Zito Barbosa cobra faturas acumuladas desde a gestão anterior. Enquanto a prefeitura enfrenta pressão para regularizar os pagamentos, movimentos políticos do ex-prefeito alimentam especulações sobre o futuro da aliança com Otoniel Teixeira.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A Prefeitura de Barreiras entrou em uma semana decisiva. A Linkar Locadora e Limpeza Ltda. notificou o município e estabeleceu um prazo para a regularização de uma dívida que já alcança R$ 8.001.242,52. Mais do que um passivo financeiro de grande dimensão, a cobrança coloca sob tensão contratos essenciais para o funcionamento da cidade e lança novas sombras sobre a relação política entre o prefeito Otoniel Teixeira e o grupo liderado pelo ex-prefeito Zito Barbosa.
O episódio reúne duas dimensões que, em Barreiras, raramente caminham separadas: a pressão sobre o caixa municipal e os movimentos de bastidores de uma sucessão política que já começou a redesenhar alianças.
A conta que atravessou governos
O Ofício nº 108/2026, protocolado pela empresa, mostra que o passivo não surgiu exclusivamente na atual administração. Segundo o documento, R$ 1.286.488,05 correspondem a valores referentes aos exercícios de 2023 e 2024, período em que Zito Barbosa ainda comandava o Executivo municipal.
A dívida, entretanto, ganhou novas proporções durante a atual gestão. A empresa aponta atrasos superiores a 90 dias e afirma que os últimos cinco meses foram marcados pela interrupção dos repasses, ampliando a pressão sobre contratos que envolvem serviços considerados essenciais.
Origem do débito | Valor | Situação |
| Gestão Zito – 2023/2024 | R$ 1.286.488,05 | Dívida herdada |
| Atrasos superiores a 90 dias | R$ 3.837.410,79 | Débitos acumulados |
| Últimos cinco meses – abril a agosto/2026 | – | Suspensão de repasses |
Total informado pela empresa | R$ 8.001.242,52 | 108 faturas em aberto |
A Linkar afirma que vem arcando com salários, FGTS e demais encargos utilizando recursos próprios, numa tentativa de preservar a continuidade dos serviços e evitar uma paralisação dos trabalhadores. Agora, porém, sustenta ter chegado ao limite de sua capacidade financeira.
O problema, portanto, deixou de ser apenas uma cobrança empresarial. Passou a representar um teste de capacidade financeira e política para o governo Otoniel.
Quando a cobrança empresarial ganha dimensão política
Há também um componente político impossível de ignorar.
A Linkar é de propriedade de Geraldo Fernandes da Cruz, o Geraldinho, aliado histórico de Zito Barbosa e apontado como integrante importante de seu grupo político. Em um momento de pré-campanha eleitoral, uma cobrança de mais de R$ 8 milhões feita por uma empresa ligada a uma figura tão próxima do ex-prefeito inevitavelmente produz repercussão no ambiente político local.
Isso não significa, por si só, que a cobrança tenha motivação política. O que existe, objetivamente, é uma dívida formalmente apresentada pela empresa e, paralelamente, uma mudança perceptível no ambiente de alianças.
É nesse ponto que entram os movimentos de Zito Barbosa.
O ex-prefeito tem aparecido com maior frequência ao lado do vice-prefeito Túlio Viana, enquanto os registros públicos de proximidade com Otoniel Teixeira parecem menos frequentes. Em política, fotografia também comunica. E, quando as imagens mudam, os bastidores costumam produzir suas próprias interpretações.
A leitura que ganha espaço entre os observadores da política local é a de um distanciamento progressivo entre Zito e Otoniel. Ainda assim, é importante separar fato de interpretação: não há, até o momento, declaração pública de Zito Barbosa anunciando rompimento político com o prefeito.
O que existe são sinais, movimentos e uma crise financeira que acrescenta combustível a uma relação política que já vinha sendo observada com atenção.
Da continuidade contratual ao ultimato
O cenário atual contrasta com o ambiente de poucos meses atrás.
Conforme publicou o portal Caso de Política, na reportagem “Barreiras renova contratos de limpeza com a Lincar que já somam R$ 57,8 milhões; reajustes superam a inflação do período”, publicada em julho de 2026, os contratos de limpeza urbana apareciam inseridos em uma perspectiva de continuidade da prestação dos serviços.
Em junho, o discurso também era de estabilidade. Na reportagem “Mesmo em meio a greve nacional da limpeza urbana, cidades atendidas pela Lincar terão serviços mantidos”, o portal registrou a manutenção dos serviços nas cidades atendidas pela empresa.
Agora, o tom mudou.
A Linkar recorreu ao instrumento de cobrança e anunciou que, caso não haja uma solução, pretende interromper a execução dos contratos nº 335/2022 e nº 336/2022, com fundamento na Lei nº 14.133/2021.
A empresa informou ainda que, diante do caráter essencial dos serviços e para evitar consequências mais graves, manterá por cinco dias os postos relacionados a situações de urgência e emergência hospitalar.
O prazo transforma uma dívida administrativa em uma crise de gestão com potencial impacto direto sobre a população.
O problema é financeiro – mas o desgaste é político
Para Otoniel Teixeira, o desafio vai além de encontrar recursos para quitar uma dívida milionária.
O prefeito precisa demonstrar capacidade de preservar serviços essenciais, administrar contratos herdados e, ao mesmo tempo, impedir que uma crise financeira seja convertida em crise de governabilidade.
A situação também recoloca em discussão a relação entre o atual prefeito e o grupo político de Zito Barbosa.
Parte do débito nasceu durante a administração anterior. Outra parcela cresceu durante o atual governo. A conta, portanto, atravessa administrações, mas o desgaste político recai, neste momento, sobre quem ocupa o Palácio das Águias.
É justamente essa combinação que torna o episódio politicamente sensível: a dívida tem passado, mas o ultimato tem endereço presente.
Enquanto a prefeitura busca uma saída para evitar a interrupção dos serviços, os movimentos de Zito Barbosa e de seu grupo serão observados com ainda mais atenção.
Em Barreiras, a disputa eleitoral começa a aparecer não apenas nos discursos e nos palanques, mas também nas alianças, nas fotografias e, agora, nas contas que chegam à mesa do prefeito.
Até o fechamento desta reportagem, a Prefeitura de Barreiras não havia se manifestado sobre o plano de pagamento ou sobre a possibilidade de interrupção dos serviços anunciada pela empresa.
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