O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto e Flávio Bolsonaro (PL RJ) Crédito Beto Barata PL
Cúpula partidária desautoriza discurso de anulação do candidato derrotado, aceita a proclamação do TSE e transfere a narrativa da derrota para gastos sociais do governo.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A tentativa de Flávio Bolsonaro (PL) de incendiar o país contestando o resultado do segundo turno durou menos de 24 horas antes de ser contida dentro da própria casa. Em nota oficial divulgada nesta segunda-feira (26), a executiva nacional do Partido Liberal, presidida por Valdemar Costa Neto, reconheceu formalmente a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu o pleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do senador. O gesto do cacique partidário funcionou como um puxão de orelha público no candidato derrotado, desidratando qualquer fôlego para aventuras golpistas.
O posicionamento assinado por Valdemar contrasta frontalmente com as declarações dadas por Flávio na noite de domingo (25/10). Ainda sob o impacto da derrota nas urnas, o parlamentar havia afirmado que era “impossível aceitar o resultado”, classificou o pleito como uma “sacanagem” e anunciou com estardalhaço que seu corpo jurídico acionaria o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir a anulação total da votação.
Desautorizado pela cúpula do partido e alertado por advogados sobre a fragilidade jurídica da tese de anulação, o senador foi obrigado a modular o tom e ensaiar um recuo estratégico. Em vídeo publicado nas redes sociais nesta segunda-feira, Flávio desistiu de anular a eleição, mudou o discurso e afirmou que apenas ingressará com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) para tentar cassar a chapa Lula-Alckmin por suposto abuso de poder político e econômico. Para justificar a volta atrás aos apoiadores, o parlamentar prometeu organizar a oposição e transformar o Congresso em uma “fortaleza”.
A direção do PL, contudo, tratou de sepultar de vez as teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas para evitar sanções e multas judiciais. Na nota oficial, Valdemar escreveu textualmente:
“Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral, mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático.”
Leia a íntegra da Nota Oficial
Sem parabenizar Lula, o dirigente partidário construiu uma rota de fuga retórica para a derrota de seu correligionário. Em vez de endossar o choro sobre fraudes no sistema eleitoral, Valdemar atribuiu o revés a medidas que classificou como “fortemente eleitoreiras” adotadas pelo governo federal na reta final da disputa – citando o reajuste de 15% e a antecipação do Bolsa Família, o pacote de anistia de dívidas a microempreendedores (MEIs) e a gratuidade de transporte público.
O recuo coletivo do partido desarmou os dois principais pretextos inflados pela campanha bolsonarista na véspera: a reclamação contra a prorrogação de votação até as 19h autorizada pelo ministro Cristiano Zanin – medida que a própria coligação de Flávio havia solicitado em 17 cidades atingidas por enchentes – e o boato de que fiscais do PL teriam sido retirados da sala-cofre do TSE, prontamente desmentido pela Corte.
No xadrez pragmático de Brasília, Valdemar Costa Neto sabe que o PL agora comanda 29 senadores e a maior bancada da Câmara. Enquanto Flávio tenta lidar com a apreensão de seus passaportes e alimentar a militância com promessas de resistência, a cúpula da sigla preferiu abandonar a retórica incendiária para sentar à mesa com a caneta orçamentária que governará o país pelos próximos quatro anos.
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