A anatomia de uma audiência que expôs as feridas da inclusão e o vazio do Poder em Barreiras
Análise: Entre o colapso físico das cuidadoras e a inércia da prefeitura, audiência revela que a inclusão escolar na “Capital do Oeste” depende do esforço de cada profissional, e não de um compromisso real e definitivo do município
Luís Carlos Nunes – A lotação máxima do plenário da Câmara Municipal de Barreiras, na noite desta quarta-feira (06), não foi apenas um registro de quórum; foi um fenômeno social. Centenas de cuidadoras escolares decidiram que o silêncio não era mais uma opção. A audiência pública com o tema “A valorização das cuidadoras do município: condições de trabalho e qualidade do atendimento” deixou de ser um debate protocolar para se tornar o retrato de uma categoria que atingiu o seu limite físico e emocional.
O vazio que diz tudo: A omissão do executivo
Em política, a ausência raramente é um acidente; é uma mensagem de prioridades. Enquanto o plenário transbordava com a dor de profissionais exaustas, o lado direito da mesa principal e as cadeiras da base governista ofereciam um contraste gelado: o vazio. A falta do Prefeito, do Secretário de Educação e de grande parte da bancada governista em um debate sobre a dignidade de quem cuida de quase 2.000 alunos especiais é uma demonstração de descaso institucional.
Ignorar o chamado para ouvir denúncias de assédio moral e atrasos salariais sugere uma gestão que prefere a “propaganda da inclusão” ao diálogo democrático. Como destacou a vereadora Carmélia da Mata, autora da audiência ao lado de Graça Melo e Silma Alves, sem a estruturação devida, o discurso oficial vira “propaganda enganosa”.
O protagonismo legislativo e a busca por soluções
No vácuo deixado pelo Executivo, o protagonismo foi assumido por vozes que transformaram o lamento em proposta concreta:
- Carmélia da Mata (Presidente em exercício): Conduziu a sessão com o tom de quem conhece o chão da escola. Sua fala sobre a “propaganda enganosa” foi o fio condutor da noite, ao denunciar que a prefeitura anuncia uma inclusão que não estrutura, explorando a mão de obra de quem está na ponta.
- Delmah Pedra: Atuou como a arquiteta da solução jurídica. Ao protocolar a Indicação nº 547/2026, Delmah desmistificou o argumento do “vácuo legal” federal – muitas vezes usado como escudo após o veto de 2019 ao PLC 11/2016 – e provou que o município tem autonomia para criar o cargo efetivo. Sua proposta de substituir integralmente o modelo de contratações temporárias (REDA) por concurso público ataca o cerne da precariedade, fundamentando-se na Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e na Lei Berenice Piana.
- Graça Melo: Trouxe o peso da autoridade clínica. Como pediatra, validou a angústia das famílias e elevou as cuidadoras ao status de “ouro do serviço público”, confrontando o descaso da gestão com o valor técnico e social da categoria.
- Rodrigo do Mucambo: Foi incisivo ao apontar as feridas da zona rural e a covardia da perseguição política. Refletiu a dor das cuidadoras que, por baixos salários, mal conseguem ver os próprios filhos acordados.
- Tetéia Chaves: Resgatou o histórico da categoria e cobrou suporte psicológico urgente. Foi a voz que lembrou que o cuidador é a “segunda mãe” na escola e merece dignidade, não punição.
- Beza: Trouxe a perspectiva humana da desumanização. Sua indignação ao saber que profissionais são proibidos de comer a merenda nas escolas ecoou como um grito de basta contra a humilhação no ambiente de trabalho.
- Zé do Sorvete:Reforçou a abertura da “Casa do Povo” para o debate, validando o papel do Legislativo como escudo da população contra os abusos do poder central.
A “falha no dever” e a escolha política
O que se viu em Barreiras foi o choque entre um “atraso no dever” e a necessidade permanente de cuidado. Ao manter as profissionais no modelo de contratos temporários (REDA), o município ignora que o vínculo é parte essencial do tratamento – algo que a rotatividade de três cuidadoras em quatro meses, denunciada pela AMA, comprova ser desastroso para o aluno autista.
A audiência pública cumpriu seu papel: tirou o sofrimento do âmbito privado e o jogou para o centro do debate político e público. O grito de “greve” e o encaminhamento da ata ao Ministério Público são os últimos recursos de uma categoria imprescindível que se cansou de ser invisível. A Indicação 547/2026 de Delmah Pedra agora coloca a bola no campo do Executivo. Resta saber se a gestão continuará apostando no silêncio ou se finalmente assumirá o cuidado com quem cuida.
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