XÔ URUCUBACA
Barreiras, 23/04/2026 – Existe um estado silencioso que antecede qualquer azar concreto. A pessoa ainda não perdeu o ônibus, ainda não recebeu o não, ainda não levou o fora. Mas já está derrotada. Algo nela já se dobrou antes do combate. Não é medo – medo ainda é uma resposta ao mundo. É uma certeza anterior a qualquer mundo: a certeza de que o que vier será pouco, que o que tentar será falho, que o que desejar será ridículo.
Isso é a urucubaca. Não a má sorte. A má sorte é um acidente. A urucubaca é uma estrutura. Ela não está nas coisas que dão errado. Está na lógica que a pessoa usa para organizar o que dá errado. E essa lógica, com o tempo, deixa de ser interpretação e vira identidade. “Eu sou uma pessoa com urucubaca.” Não se diz assim, claro. Diz-se: “sou realista”, “sei como as coisas funcionam”, “não nasci em berço de ouro”. Mas o fundo é o mesmo: um pacto tácito com a própria insuficiência.
A ironia começa quando se percebe que essa certeza negativa é mais cômoda do que qualquer possibilidade positiva. Acreditar que se é azarado dá uma estranha paz: isenta da tentativa. Se nada pode dar certo, não há risco na aposta – e nem vergonha na derrota. A urucubaca vira um cobertor frio, mas conhecido. A pessoa dorme abraçada com a própria desgraça como quem dorme com um travesseiro velho: desconfortável, mas seu.
Exorcizar a urucubaca é, primeiro, sentir vergonha desse conforto. É perceber que se acomodou na própria ruína como quem aluga um apartamento sem janelas – escuro, mas barato. O ato de exorcizar começa quando a pessoa se pergunta, com honestidade brutal: “e se eu não for azarada? E se tudo isso que chamo de destino for apenas um hábito mental que já não me serve?”
Aí vem a parte mais sutil. Porque o hábito não está só na cabeça. Está no corpo. A urucubaca tem caligrafia muscular: ombros caídos, olhar que evita o horizonte, respiração curta. Ela não é uma crença. É uma postura diante do tempo. Exorcizá-la, então, é reeducar a carne. É sentar ereto mesmo quando não há motivo. É olhar para frente mesmo quando tudo indica que não há nada. É respirar fundo não porque acredite em alguma energia, mas porque o gesto já é uma declaração: “ainda estou aqui. E enquanto estou, escolho como fico.”
O banho de arruda – já que veio à conversa – não é uma crendice. Ou é, mas isso não importa. O que importa é o seguinte: o banho de arruda é uma interrupção. Por alguns minutos, a pessoa faz algo que não produz resultado mensurável. Ela quebra o fluxo contínuo de fazer, produzir, compensar, tentar, falhar, recomeçar. Ela para. E nessa parada, decide simbolicamente que o corpo pode ser lavado de camadas que não são sujeira – são história. Não importa se a arruda “funciona”. Importa que a pessoa, ao tomá-lo, diz para si mesma: “é possível limpar o que não está sujo”. E isso é um ato filosófico poderoso: reconhecer que nem toda sujeira é visível, nem toda limpeza é empírica.
E aqui, uma pausa autoral, uma glosa sobre aquilo que sempre dissemos sem saber que dizíamos.
“Sai pra lá, urucubaca!” – quantas vezes essa frase foi dita no limite entre o riso e o desespero? A gente faz de tudo para afastar o azar. E faz porque sabe, com uma sabedoria que não precisa de prova, que o azar tem conversa fiada e que a palavra, quando dita em voz alta, já é um pequeno gesto de defesa. “Bate na madeira três vezes”, “isola”, “tá amarrado”, “te esconjuro pé de pato, mangalô três vezes” – expressões que vêm de tempos que não são mais os nossos, mas que sobrevivem porque nomeiam aquilo que a razão prefere ignorar: o medo não é irracional; é apenas anterior à racionalidade. Bater na madeira não evita a tragédia. Mas ensina uma coisa essencial: o corpo pode responder antes do pensamento. E isso, por si só, já é um recurso.
As expressões vão se modificando ao longo do tempo, claro. A língua é uma pele que troca de célula sem parar. E hoje, quais são as frases que a gente usa para afastar o azar? “Vai dar certo.” “Isso passa.” “Amanhã é outro dia.” Ditas com o mesmo tom de quem sabe que não controla nada, mas precisa fingir que controla. O curioso – e aqui a ironia se alonga – é que as expressões modernas perderam a agressividade lírica das antigas. “Sai pra lá, urucubaca” tinha corpo, tinha palma batida, tinha expulsão. “Vai dar certo” é uma súplica disfarçada de otimismo. A gente não exorciza mais. A gente negocia com o azar. Pior: a gente chama o azar de “aprendizado” e agradece.
Retomar o exorcismo, portanto, não é voltar ao passado. É recuperar a violência simbólica do gesto. É não pedir licença para o azar. É dizer “sai pra lá” com a mesma naturalidade com que se diz “não” para quem insiste em ocupar um lugar que não lhe pertence. A política disso é direta: quando a pessoa aprende a expulsar o azar no plano do gesto e da palavra, ela ensaia a expulsão no plano da vida. O mesmo músculo que bate na madeira é o que fecha a porta para quem a faz mal. A mesma voz que diz “isola” é a que aprende a isolar o que não presta. A mesma mão que faz o sinal de esconjuro é a que aprende a não aceitar migalhas.
A política disso tudo? Simples: regimes de poder dependem de corpos que já venceram sozinhos. Um corpo que se curva antes do golpe é um corpo que não precisa ser golpeado. A obediência já está instalada. O sistema – chamem como quiserem: a norma, o Outro, o peso do mundo – adora pessoas que já se consideram derrotadas. Não precisa vigiá-las. Elas mesmas se vigiam. Não precisa humilhá-las. Elas já se humilham no silêncio do quarto.
Exorcizar a urucubaca, portanto, é um gesto de insubordinação ontológica. É recusar o lugar que lhe foi designado na geografia do fracasso. É dizer: “não sou o ponto de encontro dos meus fracassos”. É separar o que aconteceu do que você é. E isso é profundamente solitário – ninguém pode fazer por você – e irremediavelmente político, porque um só corpo que se recusa a ser derrota já desarranja a estatística.
O que sobra, depois do exorcismo? Não a felicidade. Isso é promessa de vendedor de curso. Sobra uma trégua. O silêncio deixa de ser acusador. O espelho deixa de ser tribunal. A pessoa ainda vai falhar. O azar ainda vai bater. Mas algo mudou: ela não se antecipa mais. Não se curva antes. Ela passa a habitar o intervalo entre o golpe e a reação como um território próprio. E nesse intervalo, respira.
A urucubaca, quando sentir que não encontra mais a dobra pronta no corpo, vai se cansar. Não porque foi derrotada por um ritual poderoso ou uma filosofia elevada. Mas porque ela só sobrevive de permissão. E a permissão foi revogada.
Exorcizar, no fim, é isso: revogar a permissão que você deu para que o mundo te convencesse de que você é o erro. Não é vencer. É parar de perder antes da hora.
Sai pra lá, urucubaca. Hoje não. Hoje nunca mais.








