“Vamos fazer greve” cuidadoras lotam Câmara de Barreiras e denunciam desrespeito, perseguição e salário que não fecha
Foto: Caso de Política | Luís Carlos Nunes
Em audiência marcada por emoção e cobranças, profissionais relataram atraso no pagamento do terço de férias, adoecimento e ameaças; Indicação nº 547/2026 fundamenta a urgência de concurso público e o fim da precariedade
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A Câmara Municipal de Barreiras foi palco de um desabafo coletivo histórico na noite desta quarta-feira (06). Vindas de diferentes regiões da cidade, muitas ainda com o uniforme de trabalho após uma jornada exaustiva, centenas de cuidadoras escolares transformaram a audiência pública em um grito contra a precariedade. O encontro, que teve como tema “A valorização das cuidadoras do município: condições de trabalho e qualidade do atendimento”, revelou um cenário de abandono, adoecimento e revolta.
O recado da categoria foi direto: sem reajuste salarial e sem o fim das perseguições nas escolas, as profissionais vão parar. Além da defasagem de receber apenas um salário mínimo para uma jornada de 40 horas semanais, as trabalhadoras denunciaram uma grave irregularidade financeira: o atraso no pagamento do terço de férias, direito garantido por lei, mas que segue pendente.
“Nós ganhamos pouco e ainda temos um terço de férias para receber e até agora nada. Se não aumentar o salário – o justo – vamos fazer greve”, afirmou uma das trabalhadoras sob aplausos de pé.
Vozes do plenário: entre o adoecimento e o assédio
Os relatos no microfone deram rosto às estatísticas de uma rede que viu a demanda por inclusão crescer 300% em cinco anos. Uma profissional emocionou o público ao contar que desenvolveu fibromialgia crônica devido à sobrecarga física e emocional. “Me dediquei muito, fui responsável, mas adoeci. Estou sendo desrespeitada no meu ambiente de trabalho”, denunciou, relatando ameaças de uma diretora após cobrar materiais adaptados para seus alunos. “Ela disse que ia me levar ao CEFAI para me punir, e eu respondi que fosse, pois eu também tenho voz”.
Outra cuidadora narrou o drama de ser impedida de levar o próprio filho especial a consultas médicas. “Fui barrada e repreendida pelo gestor. Eu sou cuidadora, mas não deixei de ser mãe. Somos punidas por cuidar dos nossos”, desabafou. Os depoimentos também revelaram agressões físicas sofridas em sala de aula sem suporte: “Estamos apanhando dos nossos alunos e não temos voz nem vez. Somos invisíveis”, relatou outra profissional. A queixa sobre a interferência política nas unidades de ensino também foi contundente:
“Existem escolas comandadas por vereador; era melhor ter dado logo a escola para o vereador”, criticou uma cuidadora, expondo como indicações políticas têm atropelado a capacitação técnica.
O fim do modelo REDA e a “Mora Legislativa”

Com a Indicação, Delmah propõe o fim da rotatividade dos contratos temporários que tanto prejudicam o vínculo afetivo e pedagógico com os alunos autistas e com deficiência. “Valorizar as cuidadoras é garantir o futuro das nossas crianças”
Diante da crise, a vereadora Delmah Pedra apresentou uma das medidas mais concretas da noite. A parlamentar protocolou a Indicação nº 547/2026, que exige que o Poder Executivo elabore e envie, com máxima urgência, um Projeto de Lei para a criação do cargo de provimento efetivo de ‘Cuidador Escolar’ no Quadro Permanente do Município. O objetivo central é a realização de concurso público para promover a substituição integral e definitiva do atual modelo de contratações temporárias (REDA). Clique aqui para ver a íntegra do documento.

A fundamentação da indicação rebate o uso do “vácuo legislativo” federal como desculpa para a precarização. O documento ressalta que o veto ao PL 1385/2019 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro não retira a autonomia de Barreiras para legislar sobre o tema, citando como exemplo Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista, que já possuem leis próprias. Além disso, a proposta baseia-se em decisão do TCE-BA de 30 de abril de 2026, que define a omissão do Executivo em criar cargos efetivos para funções permanentes como “Mora Legislativa”, ferindo o princípio constitucional do concurso público e rompendo o vínculo pedagógico essencial exigido pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015).
O amparo legal para a proposta também se sustenta na Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012), que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e garantiu o direito ao acompanhante especializado em sala de aula, reforçando que o suporte ao aluno não é uma concessão política, mas uma obrigação legal e contínua do Estado.
Dados da rede e omissão do Executivo
A representante da Associação de Amigos dos Autistas (AMA), Íris Jorge, reforçou que o vínculo é parte do tratamento. “Sem continuidade, a criança autista retrocede”, alertou, citando casos de alunos que tiveram três cuidadores em apenas quatro meses. Atualmente, Barreiras atende quase 2.000 alunos na educação especial, um salto enorme em relação aos 633 atendidos em 2021. No entanto, cuidadoras relataram situações em que uma única profissional precisa dar suporte a quatro crianças simultaneamente.
As vereadoras Carmélia da Mata e Dra. Graça Melo, junto aos vereadores Rodrigo do Mucambo e Tetéia Chaves, criticaram duramente a ausência do Prefeito e do Secretário de Educação e de vereadores da base governista no debate. “Sem cuidador, o discurso de inclusão vira propaganda enganosa”, disparou Carmélia.
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