Câmara de Barreiras debate combate à violência contra o idoso e cobra políticas públicas efetivas
Em sessão marcada por depoimentos emocionantes e duras críticas à gestão municipal, especialistas e vereadores defenderam a rede de proteção, a reabertura de centros de convivência e o fim do etarismo institucional.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A Câmara Municipal de Barreiras realizou, na manhã desta terça-feira (16), uma Tribuna Popular dedicada ao “Junho Violeta”, mês de conscientização sobre a violência contra a pessoa idosa. Proposta pela vereadora Delmah Pedra e presidida por Carmélia da Mata, a sessão reuniu especialistas em saúde, representantes de instituições de acolhimento e o parlamento municipal para discutir a vulnerabilidade da terceira idade.
O debate evidenciou que a violência vai além da agressão física, manifestando-se no abandono, no abuso financeiro e na falta de assistência médica especializada por parte do Executivo.
A mesa de honra foi composta pela presidente Carmélia da Mata, a proponente Delmah Pedra, a médica geriatra Dra. Bianca Cristina de Souza Barbosa, a coordenadora do Abrigo São João Batista, Diana Lúcia Santana de Oliveira, e o fonoaudióloga Dra. Maria de Fátima Oliveira e pelo vereador Rider Castro.
Delmah Pedra: “Uma sociedade que honra seus idosos valoriza suas raízes”

Como proponente da Tribuna, a vereadora Delmah Pedra abriu o debate destacando que a sabedoria dos idosos é o que sustenta a família e a sociedade. Em uma fala carregada de emoção, ela compartilhou sua experiência pessoal com os pais, de 90 e 88 anos, e defendeu que a política pública deve ser acompanhada pelo afeto e pela presença física dos familiares.
“Uma sociedade que honra seus idosos valoriza as suas raízes. Ouvindo a Diana, me emocionei porque eu sei o que é um abrigo, sei o que é a solidão e a tristeza que eles carregam no coração. Meus pais representam tudo para mim e eu pergunto o que estamos fazendo para que eles tenham um final de vida prazeroso. Minha mãe diz: ‘Minha filha, eu não quero nada, quero somente sua presença’. Vamos valorizar cada dia com amor”, declarou Delmah Pedra.
A parlamentar também convocou os colegas vereadores a transformarem o debate em ações concretas.
“Quero fazer parte na construção dessa política pública. Convido todos os nossos colegas vereadores a trazermos preposições e projetos de lei que venham beneficiar o cuidado com esses idosos. O abrigo pode contar comigo não só como vereadora, mas como cidadã”, concluiu.
O olhar técnico e a “Violência Silenciosa”

A médica geriatra Dra. Bianca Cristina alertou que a negligência muitas vezes não deixa marcas físicas, mas “marcas na alma”.
“Muitos idosos vivem em sofrimento silencioso por medo ou dependência. A humilhação, o abandono e a violência financeira são recorrentes. O envelhecimento com dignidade não é privilégio, é direito”, afirmou a médica, destacando o papel da atenção primária e do Disque 100.

A fonoaudióloga Dra. Maria de Fátima utilizou a metáfora de uma “corda” para representar o vínculo e o pertencimento.
“Não esqueçamos a corda, que é a escuta e a presença. Os idosos são fáceis de ser enganados por não entenderem a inteligência artificial. Incluir é fazer o outro sentir que pertence. Daqui a pouco, nós seremos os idosos”, pontuou a especialista.
A realidade do acolhimento

Diana Lúcia, coordenadora do Abrigo São João Batista, destacou que o respeito às escolhas individuais devolve a dignidade ao idoso.
“Respeito é um chuveiro quentinho e poder escolher a fruta que quer comer. Muitos dizem que a família somos nós. É nossa obrigação dar o que eles têm direito. Convido a todos: fiquem 10 minutos no abrigo para entenderem o que é aquele lugar”, apelou a coordenadora.
Cobranças políticas e denúncias de negligência

O debate parlamentar foi marcado por críticas severas à gestão municipal. O vereador João Felipe repudiou o fechamento de equipamentos públicos.
“Violência é não oferecer assistência. Temos o programa ‘Idade Viva’ fechado e não temos um único geriatra no município. O prefeito não cuida de gente; idoso não é prioridade para essa gestão”, disparou o parlamentar.
A vereadora Dra. Graça Melo reforçou a denúncia sobre o descumprimento de prazos para exames.
“O idoso padece na fila por meses e anos. Temos uma lei que garante atendimento em 7 dias, mas o município não cumpre. É preciso boa vontade para reativar o que já funcionou”, afirmou.
Propostas, emendas e testemunhos

A vereadora Silma Alves também compartilhou sua vivência cuidando de pais nonagenários: “Idoso é a memória da família. Cada ruga tem uma história”.

O vereador Rider Castro destacou a importância de mecanismos práticos de financiamento para o setor, defendendo o uso das emendas impositivas.
“Nós, vereadores, somos a antena parabólica das demandas da população. Precisamos de entendimento entre o poder executivo e a Câmara para que as emendas parlamentares cheguem, de fato, ao abrigo dos idosos e às demais entidades que realizam esse trabalho voluntário essencial”, sugeriu Rider.
A vereadora Teteia Chaves relatou seu trabalho voluntário contra golpes financeiros: “Eles recebem mensagens falsas. Eu oriento para que não caiam. É um legado de cuidado que recebi do meu pai”.
O combate ao etarismo
Ao encerrar a sessão, a presidente Carmélia da Mata parabenizou Delmah Pedra e denunciou que diversos projetos de sua autoria em benefício dos idosos estão parados na prefeitura.
“Infelizmente, a gestão municipal não acata nossos projetos. Parece que o etarismo é muito forte nessa gestão. Temos programas como ‘Vozes da Terceiridade’ e ‘Idoso Ativo’ que não avançam. Apoiar os idosos é nosso dever e obrigação”, concluiu Carmélia.
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