Sem vice, Flávio Bolsonaro oficializa candidatura sob a sombra de ausências e as bênçãos de uma IA
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Convenção em São Paulo aposta em “messianismo digital” com IA de Bolsonaro e apoio agressivo de Milei, mas Michelle Bolsonaro brilha pela ausência e público cansa de discurso longo em espanhol.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A executiva nacional do PL homologou, neste sábado (25), em São Paulo, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (RJ) à Presidência da República. O evento, realizado no estádio do Pacaembu, confirmou a estratégia de manter a chapa pura e sem vice — um vácuo que serve como moeda de troca para o Centrão e, simultaneamente, escancara a dificuldade em atrair aliados moderados. O senador entra na disputa em uma posição de equilíbrio precário: embora apareça nas pesquisas como o nome mais competitivo da oposição, ele segue atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e enfrenta uma rejeição persistente que dificulta sua expansão para além do nicho bolsonarista.
A tônica da convenção não foi um projeto de futuro, mas o resgate do passado. Com o ex-presidente Jair Bolsonaro preso desde 2025, Flávio transformou o palanque em uma tribuna pela anistia familiar, prometendo que o pai “subirá a rampa do Planalto em 2027”. A ausência física do patriarca foi suprida por um simulacro tecnológico: um vídeo gerado por Inteligência Artificial onde o avatar de Jair Bolsonaro pedia votos para o “sangue do meu sangue”. O recurso, se por um lado emocionou a militância, por outro evidenciou a dependência de um candidato que ainda precisa de uma muleta digital para validar sua liderança.
Outro ponto que chamou a atenção dos analistas foi a ausência de Michelle Bolsonaro. Após recentes rusgas públicas com o enteado, a ex-primeira-dama evitou o palco presencial. Em um vídeo protocolar, justificou a falta dizendo estar em casa “cuidando do meu galego” e citou o nome de Flávio de forma seca, apenas uma única vez. A mudez presencial de Michelle é um sintoma claro das fissuras internas no clã e retira da campanha, ao menos no lançamento, o seu principal ativo de interlocução com o eleitorado feminino e evangélico.
Para compensar o vazio doméstico, o PL apostou no suporte internacional. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, enviou saudações em vídeo, mas foi o presidente argentino Javier Milei quem roubou a cena – e testou a paciência dos presentes. Milei subiu ao palco ao som de rock e, em um discurso em espanhol que se estendeu por quase meia hora, provocou o esvaziamento parcial do auditório antes do fim da cerimônia. O argentino disparou ataques viscerais contra o Judiciário brasileiro, chamando o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca” por ter negado seu pedido de visita a Bolsonaro, elevando a temperatura de um evento que buscou institucionalizar o conflito institucional como plataforma eleitoral.
Ao oficializar sua candidatura sem um vice e sob a sombra da guilhotina jurídica que paira sobre sua família, Flávio Bolsonaro sinaliza uma campanha de resistência. O desafio do senador será converter o vitimismo da prisão do pai em votos úteis para furar o bloqueio de um segundo turno. Sem Michelle no palco e com um aliado estrangeiro que fala para um auditório que se esvazia, o “herdeiro” do bolsonarismo descobre que a rampa do Planalto em 2027 exige muito mais do que homenagens eletrônicas e discursos em espanhol; exige uma viabilidade política que o radicalismo do Pacaembu ainda não conseguiu entregar.
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