Educação em Barreiras SINPROFE denuncia crise e assédio na Câmara
Com plenário transbordando e ausência da Prefeitura, audiência revela que 70% dos novos concursados abandonaram a rede; relatos apontam para aprovação automática de alunos para inflar índices oficiais.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – Em uma demonstração histórica de unidade e indignação, os profissionais da educação de Barreiras paralisaram as atividades e ocuparam as galerias da Câmara Municipal nesta quarta-feira (02). A Audiência Pública, proposta pela diretoria do SINPROFE após deliberação em assembleia geral realizada no dia 15 de julho, deu voz a uma categoria que denuncia o esgotamento do modelo de gestão atual.
O movimento, que manteve as escolas da rede municipal de portas fechadas, reafirmou a disposição de luta da categoria, que vê no diálogo institucional a última fronteira antes do acirramento das paralisações.
A composição da mesa de debates contou com a vereadora Carmélia da Mata na presidência; Maria Aparecida Pessoa de Souza (Cidinha), presidenta do SINPROFE; Luana Oliveira Carvalho, diretora do NTE 11; Cleonice Ferreira dos Santos, presidente do Conselho Municipal de Educação; Josefa Janaína Carvalho de Lima, representante do SINDSEMB; e o Tenente PM Valmir Braga, da Ronda Escolar.

O evento foi marcado por um vácuo institucional preocupante: as cadeiras destinadas ao Secretário Municipal de Educação, Jefferson Barbosa, representante do Conselho Tutelar E Comissão de Educação da Câmara permaneceram vazias.
O Ministério Público também não compareceu, enviando justificativa por ofício. A ausência desses órgãos estratégicos foi lamentada pelos presentes, uma vez que impediu o esclarecimento imediato de denúncias graves e comprometeu a resolutividade de questões urgentes da rede de proteção escolar.
A força do SINPROFE e o diagnóstico do “apagão” docente

A presidenta do SINPROFE, Maria Aparecida Pessoa, conhecida como Cidinha, conduziu uma fala técnica e humanizada, destacando que a ocupação da Câmara foi o ápice de meses de tentativas frustradas de diálogo administrativo.
“É greve porque é grave. O professor hoje enfrenta o silêncio imposto pelo assédio moral e um cruel adoecimento psicossocial”, afirmou.
Ela revelou que 60% da rede é composta por contratos temporários, o que gera instabilidade e fere o Plano Nacional de Educação.
“Trabalho deve ser meio de vida, não meio de morte. Estamos lutando pela sobrevivência da carreira docente em Barreiras”, sentenciou Cidinha.

Reforçando o cenário crítico, a diretora do NTE 11, Luana Oliveira Carvalho, trouxe um dado alarmante: mais de 70% dos professores aprovados no concurso de 2022 já pediram exoneração.
“O que esses dados nos dizem? Que vocês são heróis por entregarem resultados em salas lotadas e sem plano de carreira atrativo. No Estado, temos 90% de concursados. Barreiras precisa entender que educação não se faz com marketing, mas com valorização real”, pontuou Luana.
Suspeitas de manipulação e pressão eleitoral

Um dos pontos mais sensíveis da audiência foram os questionamentos sobre a integridade dos dados educacionais do município. Relatos de bastidores e conversas “a meia voz” entre os profissionais sugerem que pode haver uma cultura de aprovação automática de alunos sem as competências básicas, apenas para garantir indicadores positivos no IDEB.
A denúncia aponta que estudantes estariam sendo promovidos de série sem o devido acompanhamento pedagógico, o que camuflaria a real situação da aprendizagem na rede.
No campo político, os vereadores João Felipe e Delmah Pedra unificaram as críticas à gestão municipal. João Felipe denunciou o uso das escolas como “palco de assédio eleitoral” e classificou o pagamento de uma parcela do 13º salário na véspera da audiência como uma manobra para desmobilizar a categoria.
“O professor em Barreiras é perseguido e humilhado por juntas médicas. Não se constrói educação com medo”, disparou.
Delmah Pedra focou na transparência dos recursos:
“Precisamos saber onde está o dinheiro do FUNDEB. É lamentável que o Executivo não tenha aparecido para dar respostas. Cuidar da saúde do professor é cuidar do futuro da cidade”.
Vozes da Plenária: Da merenda precária à exaustão mental

O espaço aberto ao público trouxe depoimentos que evidenciaram o colapso estrutural. A professora Fabiana Vieira descreveu o limite do sofrimento:
“Colegas estão tendo ataques de pânico dentro das salas. O adoecimento é silencioso e quem questiona é silenciado”. A realidade financeira foi detalhada pelo professor Odilon, explicando a debandada de concursados: “Um doutorado rende apenas R$ 55,00 de gratificação mensal. É um deboche”.
A crise atingiu até a alimentação dos alunos. A vereadora Tetéia Chaves denunciou que “o lanche virou bolacha com suco”, enquanto a professora Ari Angela alertou sobre a vulnerabilidade social: “Perdemos um aluno de 14 anos para a violência ontem. O professor está desamparado para lidar com esse contexto sozinho”.
O professor Adalto Soares encerrou as participações cobrando o pagamento dos precatórios: “É direito garantido por lei e pela luta, não é favor”.
A audiência terminou com o SINPROFE reafirmando sua posição de luta intransigente. O sindicato garantiu que a mobilização seguirá intensificada até que as pautas de plano de carreira, fim do assédio e transparência absoluta dos dados e recursos educacionais sejam efetivamente atendidas.
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