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Como os animais reagem à morte de seus filhotes

Caso de Política 23 de maio de 2025 10 minutos de leitura
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Foto: Silvia Bonizzoni/Dolphin Biology and Conservation

Expressões de dor, silêncio e saudade: o luto animal revela que o sofrimento pela morte de um filho não é exclusivo da espécie humana

Jornal da USP – Orcas, orangotangos e até peixes-bois que carregam os corpos de suas crias mortas. Elefantes que, enquanto fazem isso, emitem sons que, aos nossos ouvidos, soam como um lamento – e depois cobrem os seus mortos com folhagem. Mãe chimpanzé que se recusa a soltar o filhote que morreu há meses, mesmo diante da degradação ou mumificação do corpo. Casos assim inevitavelmente nos conduzem à pergunta: animais não humanos vivenciam algo como luto? E se você for um cientista curioso, vai querer ir além e saber: o que as reações apresentadas diante de um companheiro de espécie morto têm de base evolutiva?Ninguém tem respostas conclusivas para essas questões, mas os pesquisadores têm buscado formas mais sistemáticas para entender a percepção da morte, especialmente em mamíferos, grupo em que o apego tem presença importante.

Nos primatas, alguns experimentos começam a ser desenhados, mas a observação e o relato detalhado do fenômeno quando acontece, mesmo por pesquisadores que a princípio estudavam outros aspectos, continuam a ser úteis. Por isso, quando Irene Delval – que pesquisava o desenvolvimento da personalidade em macacos-prego-do-peito-amarelo – notou uma mãe carregando o filhote morto, fez questão de registrar e compartilhar o evento em um artigo científico.

Apesar da curta duração – algumas horas – e de não ter sido possível acompanhar como se deu o desfecho, este é o primeiro relato de um provável caso em que outros macacos mataram o filhote (infanticídio) em um grupo selvagem de Sapajus xanthosternos, seguido de respostas comportamentais relacionadas à morte, com o carregamento e cuidado do cadáver pela mãe.

A mãe carregar a sua cria morta é a resposta mais comum observada nos primatas, mas também foram vistas respostas dos animais à perda de outros membros juvenis e adultos do grupo com interações físicas como a catação (mais conhecida pelo termo em inglês “grooming”, que é um hábito presente em diversos mamíferos, especialmente os primatas, de afagar a pele ou os pelos e catar ectoparasitas), sacudir/abanar/agitar ou bater no cadáver, bem como vigílias, com a permanência perto do corpo por longos períodos e retorno ao local para observá-lo, enumera ao Jornal da USP André Gonçalves, primatologista da Universidade de Kyoto, no Japão.

A macaca Irene (nome utilizado pelos pesquisadores para identificar o animal) ajusta sua locomoção para carregar o corpo do filhote Fire, não responsivo. Observação do cuidado da mãe com o cadáver foi feita durante trabalho de campo na Reserva Biológica de Una, no sul da Bahia – Foto: Irene Delval

Protoluto

É possível falar em luto? No caso descrito por Irene Delval, os revisores do trabalho recomendaram não utilizar o termo. Mesmo assim, é um comportamento que chama a atenção. “Talvez um protoluto, porque a mãe já tem sinais do corpo que ele não vai acordar. Mas ela não o larga, porque está em apego. Há uma dissonância cognitiva por conta do seu vínculo de apego – e a mãe precisa deste vínculo para cuidar apropriadamente de um indivíduo que depende totalmente dela por muito tempo”, diz ao Jornal da USP Irene Delval.

Ela relata que quando o filhote apelidado de Fire caiu no chão, e ainda estava vivo, houve muitas vocalizações de alerta, mas bastante semelhantes às feitas diante de uma ameaça como uma cobra, ou quando eles estão predando algum mamífero pequeno e a presa cai no chão. “Então não podemos falar necessariamente em sofrimento, seria uma interpretação”, explica a pesquisadora do Instituto de Psicologia (IP) da USP.

Diversos outros casos registrados na natureza e em cativeiro, porém, tornam incontroverso afirmar que os primatas não humanos podem sentir luto. Definido como um evento de desregulação emocional pela perda de um indivíduo com quem se tem vínculo, nos humanos o luto se manifesta através de perturbações no sono, estresse, diminuição da sociabilidade, da atividade e do apetite. E esses sintomas também foram observados em primatas diante da morte, como relata André Gonçalves. “Da mesma forma que atribuímos a capacidade de luto a crianças pequenas que ainda não têm um conceito claro da morte, também não é necessário invocar esse conceito para afirmar que outros animais podem experienciar o luto”, diz ao Jornal da USP.

Irene Delval comenta que há um grande cuidado para não se incorrer em uma antropomorfização – atribuindo a animais não humanos comportamentos que são típicos de nós mesmos. “Mas a questão é que este comportamento [levar o filhote morto] não parece ser adaptativo. O mais pragmático seria algo como ‘tá bom, o filhote morreu, a vida continua, vamos ter outro filhote, vamos copular amanhã e esquecer disso’, e não é o que acontece”.

Carregar o filhote morto é desadaptativo, vai contra a própria sobrevivência da mãe, gerando dificuldades de alimentação e de seguir o grupo, por exemplo. “Você pode pensar: ‘ah, a mãe não sabe se ele poderia acordar’. Mas tem uma hora que ela já vê que ele não vai reagir e mesmo assim não o deixa ir embora. Talvez porque esse vínculo de apego já foi estabelecido e ficou um pouco mais forte, ela se recusa. Isso para mim é um protoluto. Para os mamíferos, que têm um cuidado materno prolongado, isso é muito claro. Há casos de até 90 dias de mãe carregando o corpo”, diz Irene Delval.

Ela chama a atenção para o risco oposto ao da antropomorfização: a “antroponegação”, que é esquecer que nós humanos também somos animais, e que pode haver comportamentos que antes se pensava exclusivamente humanos, mas existem em outros primatas.

“Não queremos dizer que os outros primatas são como nós, mas lembrar que nós também somos primatas”, diz. “Não somos os únicos que fazemos alguma coisa quando um indivíduo da nossa própria espécie morre. Nos mamíferos, eu me inclino a dizer que o luto manifestado pelo carregamento do filhote morto tem a ver com com o apego, mas para isso precisamos acumular registros e testar melhor a hipótese.”

“O vínculo entre mãe e cria é tão forte que não desaparece logo depois da morte, e ficar em contato com o corpo pode ser uma forma de coping, de lidar com o sofrimento interno”, explica André Gonçalves.

“Em inglês, ‘grief’ refere-se ao sofrimento interno, enquanto ‘mourning’ é o processo externo de lidar com a perda, mas em português usamos apenas ‘luto’ para ambos”, esclarece o especialista.

Ele adverte que não se deve reduzir esses comportamentos a simples “instintos maternos”; o cuidado parental nos primatas tem vários fatores. “Embora os hormônios pós-parto provavelmente tenham menos impacto quando a mãe deixa de amamentar e retoma a ovulação, o forte vínculo mãe-cria persiste para além do mero instinto, influenciando o comportamento de carregá-la após a morte.”

Sobre os cuidados na interpretação de quem estuda o fenômeno, André Gonçalves lembra que cada ser humano tem um viés:

“Não podemos escapar, mas devemos estar conscientes dele – é fundamental que os investigadores tenham cuidado para não projetar as próprias emoções nos animais observados.”

Assim, evitar o antropomorfismo está profundamente enraizado na formação desses pesquisadores.

“Somos ensinados a considerar o contexto natural da espécie e a interpretar comportamentos como respostas a estímulos, para além das expressões emocionais. As conclusões devem basear-se em dados empíricos e observações, em vez de suposições preconcebidas. Mas claro que, na ciência, devemos estar sempre abertos a novas possibilidades”, pondera ele.

Irene Delval também não subestima o problema da antropoformização. “Não dá para ver um macaco mostrando os dentes e falar que ele está sorrindo, quando na verdade ele faz isso como uma forma de ameaçar outros”, exemplifica.

Por sinal, é também graças à antropomorfização que os primatas têm sido massivamente explorados para a produção de vídeos para redes sociais, em que aparecem vestidos como pessoas, bebendo refrigerante, entre outros. “A gente luta bastante contra isso”, diz Irene Delval, lembrando da campanha “Macaco não é pet”, da Sociedade Brasileira de Primatologia.

Tanatologia de primatas

Em uma revisão crítica sobre as ações de primatas não humanos perante seus mortos e moribundos, André Gonçalves e Suzana Carvalho (Universidade de Oxford) definem a tanatologia de primatas como “estudo científico do fenômeno da morte e do morrer em primatas não humanos, incluindo os processos fisiológicos, comportamentais, sociais e psicológicos a ele associados”.

“A tanatologia comparada, que olha para outras espécies, é uma área muito recente, que começa a partir dos anos 2010. Até pouco tempo atrás só se falava sobre isso em humanos”, ressalta Irene Delval.

Os primatas não humanos ocupam uma trajetória evolutiva próxima à nossa, e por isso “continuam sendo os melhores candidatos para investigar como nossos ancestrais, antes da linhagem Homo, poderiam ter respondido à morte, precedendo o surgimento de comportamentos ritualizados”, assinalam os especialistas no artigo.

Uma particularidade dos primatas é que eles não são guiados principalmente pelo olfato, dependendo fortemente da visão e da audição, entre outros sentidos, para formar uma percepção precisa do seu ambiente.

“Não é surpreendente que apresentem uma gama diversificada de comportamentos tanatológicos, desde a ambiguidade emocional até ações exploratórias que os distinguem das respostas menos flexíveis exibidas por outros animais”, escrevem. E essas tendências de comportamento são compartilhadas com animais como corvos, elefantes e baleias.

Morte e evolução

Quanto à base evolutiva dos comportamentos de primatas perante a morte, existem várias hipóteses que abordam diferentes níveis de explicação e são difíceis de testar, “tanto por razões éticas como pela complexidade multicausal envolvida”, diz André Gonçalves.

“A interação entre fatores biológicos, emocionais e sociais torna essas explicações difíceis de isolar, e muitos dos comportamentos observados podem ser o resultado de uma combinação de variáveis que não podem ser facilmente separadas ou analisadas de forma controlada”.

Apesar de alguns pesquisadores entenderem que parte dos comportamentos não parece ser adaptativa, outros especularam que eles podem ser evolutivamente vantajosos, “particularmente para mães que carregam bebês temporariamente imobilizados”, escrevem André Gonçalves e Suzana Carvalho.

Espécies como os primatas têm baixas taxas reprodutivas – pense no grande investimento de tempo e energia da mãe para cada gestação e filhote que nasce. Por isso, nessas espécies há a possibilidade do comportamento ser selecionado, com os descendentes de mães mais dedicadas tendo vantagens na sobrevivência.

O artigo Carrying the dead: behavior of a primiparous capuchin monkey mother and other individuals towards a dead infant está disponível neste link.

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