Como quatro gestões construíram a dívida recorde de R$ 1,3 bilhão
Apesar de superávit oficial de R$ 50,8 milhões admitido em Diário Oficial, LDO 2027 projeta salto de 62,4% no endividamento; análise técnica detalha a responsabilidade histórica de cada governo no passivo atual.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O planejamento orçamentário que conduzirá Barreiras ao histórico patamar de R$ 1,2 bilhão em 2027 foi oficialmente sancionado pelo prefeito Otoniel Nascimento Teixeira. No entanto, a publicação da Lei nº 1.737/2026 (LDO 2027) no Diário Oficial (Edição 4694) revelou uma face preocupante: o estoque da Dívida Consolidada do município deve atingir R$ 1,38 bilhão até 2029.
Este número não é apenas uma estatística; é o extrato de um “revezamento” de débitos que atravessa quase três décadas. O principal argumento para contestar o isolamento do Executivo frente às demandas populares está no Relatório de Avaliação do Cumprimento de Metas Fiscais, publicado pela própria prefeitura. Os números provam que a cidade vive uma bonança financeira, com arrecadação de R$ 962,9 milhões em 2025 — um superávit real de R$ 50,8 milhões (5,57% acima da meta).
Mesmo com o caixa cheio, a gestão projeta um endividamento que crescerá 62,4% em cinco anos. Para entender esse salto, é preciso olhar para as digitais deixadas no passivo bilionário.
O rastro das gestões no passivo de Barreiras
Antônio Henrique: O “Marco Zero” dos Precatórios (1997-2005 / 2013-2016)
O Diário Oficial traz o rastro técnico no Artigo 70, § 1º, citando o ano de 2000. Foi nas primeiras gestões de Antônio Henrique Moreira (Tonhão) que Barreiras começou a acumular ordens judiciais de pagamento (precatórios) que não foram quitadas na época.
A herança: Ao ignorar decisões judiciais e indenizações há mais de 20 anos, Tonhão criou a “bola de neve” que hoje, corrigida por juros e inflação, representa um dos maiores drenos do caixa municipal.
Jusmari Oliveira: O Passivo das Contas de Consumo (2009-2012)
A gestão de Jusmari Oliveira é o período em que o endividamento administrativo ganhou corpo. O Artigo 70, § 2º da atual LDO revela que a dívida consolidada inclui débitos com concessionárias de energia elétrica, água e telefonia.
O erro: Durante este ciclo, a prefeitura acumulou faturas não pagas de serviços essenciais de manutenção da cidade.
A consequência: Em vez de usar a arrecadação para quitar o custeio, esses débitos foram empurrados para o futuro através de parcelamentos previdenciários e contratos de confissão de dívida. O que deveria ser despesa corrente virou “dívida consolidada” para os sucessores pagarem.
Zito Barbosa: A Metamorfose da Dívida (2017-2024)
Sob Zito Barbosa, a natureza do passivo mudou. A cidade deixou de apenas “não pagar contas” e passou a “tomar dinheiro emprestado” para financiar o choque de infraestrutura através de grandes Operações de Crédito (empréstimos bancários).
O perfil: A dívida deixou de ser apenas fruto de erros e passou a ser uma escolha política de financiamento.
O salto: Zito encerrou seu ciclo em 2024 com a dívida em R$ 851,1 milhões. Ele modernizou a cidade, mas entregou o comando com um “carnê de prestações” bilionário cujas faturas principais (fim da carência) começam a vencer agora.
Otoniel Teixeira: O Superávit vs. O Recorde de Veto (2025-Atualidade)
O atual prefeito protagoniza o cenário mais contraditório da história recente. Com um superávit oficial de R$ 50,8 milhões no caixa, veta mecanismos de transparência e obras nos bairros na LDO 2027, enquanto sua equipe projeta que a dívida alcance R$ 1,3 bilhão.
A “Cereja do Bolo”: Ao suprimir o Artigo 69 (que impunha travas a gastos com pessoal), a atual gestão abre as portas para uma expansão de despesas sem precedentes, retirando mecanismos de fiscalização justamente no momento em que a cidade atinge seu pico de endividamento.
Vitória da Câmara: A “Gaveta Blindada”
Apesar da ruptura e dos vetos ao controle de remanejamento, o Legislativo garantiu uma ferramenta vital de proteção ao cidadão: o Artigo 34-A. Foi preservada a criação da Dotação 1110, que vincula recursos próprios para a execução das emendas parlamentares. Na prática, isso cria uma reserva segura que impede o Executivo de alegar “falta de saldo” para ignorar as demandas colhidas pelos vereadores diretamente com a população.
Entenda o que é a LDO
A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) é o elo entre o Plano Plurianual e o Orçamento Anual. Ela estabelece quais serão as regras e metas para o ano seguinte. Quando a LDO projeta uma dívida de R$ 1,3 bilhão, ela está emitindo um alerta de que o fôlego financeiro para novos investimentos está sendo consumido pelo custo de manter a máquina e pagar os juros das dívidas passadas.
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