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Como o “Boca de Jacaré” devorou três décadas de impunidade

Caso de Política 18 de abril de 2026 9 minutos de leitura
Como o Boca de Jacaré Devorou Três Décadas de Impunidade

Como o Boca de Jacaré Devorou Três Décadas de Impunidade

Imagem gerada com auxílio de Inteligência Artificial

Três décadas de escândalos, apelidos criativos e R$ 51 milhões em espécie não foram suficientes para aposentar o “Boca de Jacaré”. Agora, o código é floral: cada “rosa” vale R$ 1 milhão

Caso de Política | Luís Carlos Nunes – Se o Brasil fosse um país sério, a trajetória de Geddel Vieira Lima seria um tratado de direito penal. Como não é, ela se tornou um épico do realismo fantástico político. O “Boca de Jacaré” – apelido que Itamar Franco lhe deu para descrever seu apetite voraz por verbas e que o doleiro Lúcio Funaro confirmou ao descrever como ele “abocanhava” percentuais – é o verdadeiro mestre das artes ocultas da sobrevivência.

O Nascimento do Mito: “Ganhando na Loteria”

Nos anos 90, o escândalo dos Anões do Orçamento apresentou ao país o mentor de Geddel, o deputado João Alves de Almeida. A curiosidade que beira o deboche? João Alves, então com 74 anos e na oitava legislatura, justificou sua fortuna milionária dizendo que Deus o ajudava a ganhar na loteria centenas de vezes.

O delator do esquema foi José Carlos Alves dos Santos, chefe da assessoria técnica da Comissão do Orçamento, preso acusado de tramar a morte da própria esposa. Para tentar escapar, abriu a boca – e que boca! – e revelou que o deputado baiano movimentava 300 vezes mais do que seu salário de parlamentar. Mas a cereja do bolo veio quando a CPI descobriu que, só em 1993, João Alves havia ganhado 56 vezes na loteria. Pela probabilidade matemática, para alcançar esse “milagre”, ele teria que ter gasto cerca de US$ 17 milhões em apostas – um baita investimento para quem dizia contar apenas com a sorte.

Geddel, o pupilo aplicado, aprendeu ali que, com a justificativa certa (e uma votação secreta), até o absurdo vira absolvição. Ele escapou da cassação com a ajuda do então presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães – filho de seu futuro algoz, Antônio Carlos Magalhães — que cobrou lealdade em troca. Saiu daquela CPI não apenas livre, mas com a receita de como manipular emendas sem perder o sorriso.

Itamar Franco e o “Percevejo de Gabinete”

Se João Alves foi o mestre, Itamar Franco foi o profeta. O ex-presidente, já na função de governador de Minas Gerais em 2002, participava das prévias do PMDB à Presidência quando resolveu dar uma aula de retórica nas costas de Geddel.

O baiano, na época líder da bancada do PMDB na Câmara, defendia que o partido apoiasse a candidatura de José Serra (PSDB). Itamar, que tinha outros planos, não se conteve e soltou a pérola: chamou Geddel de “percevejo de gabinete” – numa alusão direta aos peemedebistas que viviam grudados em governos em troca de cargos, como o inseto que se alimenta do sangue alheio sem nunca construir nada.

Geddel, claro, rebateu com sua elegância habitual: chamou Itamar de “desleal” e “nômade partidário”. Foi um duelo de titãs da verborragia política. Mas o apelido pegou. E como pegou. Anos depois, Itamar ainda se referia a Geddel com o mesmo desprezo afiado.

Aliás, não foi o único apelido que Geddel colecionou. Antônio Carlos Magalhães, seu algoz maior, produziu vídeos inteiros sobre ele. Um deles se chamava “O Agatunado” – gíria baiana para quem é “agarrado”, sovina, interesseiro. ACM também o chamava de “ladrão” em depoimentos a CPIs, enquanto Geddel revidava com acusações de que o senador teria tomado “Viagra demais e Lexotan de menos”.

O “dono” da integração e a geografia do favor

Quando assumiu o Ministério da Integração Nacional em 2007, Geddel transformou a pasta em uma extensão do seu escritório em Salvador. A trama era descarada: enquanto o país sofria com secas e enchentes, ele olhava para o mapa da Bahia e via um tabuleiro de xadrez eleitoral. O Tribunal de Contas da União (TCU) apurou que ele destinou 75% da verba de prevenção de desastres para o seu próprio estado. Era a “solidariedade regional” elevada ao nível de projeto de poder, garantindo que o jacaré nunca passasse sede em seu pântano.

A vista de 31 milhões e um ministro derrubado

Em 2016, a trama digna de vilão de novela das nove: o Edifício La Vue. Geddel não queria apenas um apartamento; ele queria o 31º andar de um espigão de luxo na Ladeira da Barra. O problema? O IPHAN barrou porque o prédio “atropelava” o patrimônio histórico. Geddel não pensou duas vezes: pressionou o colega de ministério, Marcelo Calero, como quem cobra um garçom.

Calero, em um ato raro de dignidade, pediu demissão e gravou a pressão. Geddel caiu, mas caiu atirando, provando que, para ele, a vista da Baía de Todos-os-Santos valia mais que a ética da Esplanada.

O Bunker: Onde o cheiro de mofo é o perfume do sucesso

Setembro de 2017 nos deu a imagem definitiva da política brasileira: R$ 51.030.866,40 em espécie. O detalhe que ninguém esquece? O dinheiro estava tão “vivo” que a PF precisou de sete máquinas e quase um dia inteiro para contar. As digitais de Geddel estavam nas notas, nas malas e até nas caixas de papelão.

E a maior curiosidade da trama familiar, digna de seriado de comédia pastelão: a mãe de Geddel, Dona Marluce, foi acusada de ajudar a esconder o dinheiro e de praticar a “rachadinha” doméstica. O MPF descobriu que a família mantinha empregados domésticos pagos com dinheiro público – assessores parlamentares que, na vida real, faziam compras no supermercado, abasteciam o carro da família, cuidavam do posto de gasolina dos Vieira Lima e até transportavam filhos e esposas. O campeão? Um funcionário chamado Job Brandão trabalhou por 27 anos como empregado da família, com os cofres públicos bancando o salário. E mais: até 80% do salário de Job voltava para os bolsos dos patrões.

É o empreendedorismo familiar levado às últimas consequências – ou, como disse a então procuradora-geral Raquel Dodge, “empregados domésticos pagos com dinheiro público”. O Boca de Jacaré não desperdiça nem as migalhas.

O julgamento que virou peça de teatro

Antes que alguém pense que o Jacaré nunca pagou por nada, é bom registrar: em outubro de 2019, o STF o condenou a 14 anos e 10 meses de prisão por lavagem de dinheiro e associação criminosa. O irmão Lúcio levou 10 anos e meio. A ministra Cármen Lúcia, ao votar, soltou uma pérola retórica digna de nota: “O componente desonroso e de indizível degeneração ética emergente de uma vida devotada à delinquência”.

Lindo, não é? Pois ele saiu. Recursos. Habeas corpus. Em fevereiro de 2022, o ministro Edson Fachin deferiu seu pedido de liberdade condicional. O “Boca de Jacaré” tem o dom de fazer a água bater na bunda e escorrer sem molhar. A condenação virou letra morta, e o réu virou quase um herói da resistência.

A redenção das rosas

E quando todos achavam que o Jacaré estava aposentado, curtindo a condicional em sua fazenda, surge a Operação Duas Rosas. Agora, a trama envolve o ex-deputado Uldurico Júnior e um código poético para esconder a sujeira. Cada “rosa” vale R$ 1 milhão.

A intriga da vez? Uma fuga de presídio em Eunápolis – 16 detentos que simplesmente resolveram tirar férias da Justiça em dezembro de 2024. No centro de tudo, uma ex-diretora apaixonada (ou seria apenas interessada?) e o nome de Geddel surgindo como o “grande tutor” do jardim, aquele que supostamente teria cobrado R$ 1 milhão após as eleições de 2024.

A cereja do bolo? A reação de Geddel ao ser questionado. Com a elegância de sempre, chamou o ex-aliado de “caso psiquiátrico”, “dependente químico” e “criminoso”, e classificou sua delação como “vagabundagem”.

É a prova viva de que, para o Boca de Jacaré, o tempo passa, as malas mudam de cor, o código agora é floral, mas o perfume do dinheiro público continua sendo irresistível. E o vocabulário, diga-se de passagem, continua primoroso.

A evolução da espécie

A Evolução da Espécie (1)
A Evolução da Espécie – gerada por IA

Década

O Disfarce

O Método

A Curiosidade

90

Anão do Orçamento Manipulação de Emendas O mestre “ganhava na loteria” 56 vezes só em 1993 (fonte)

00

Ministro da Integração Orçamento Seletivo 75% da verba de desastres foi para a Bahia (fonte)

10

Vice-presidente da Caixa Propina em Crédito R$ 51 milhões em malas de viagem (fonte)

20

O Articulador das Rosas Tráfico de Influência O código “Rosa” = R$ 1 milhão (fonte)

Extra

O “Percevejo de Gabinete” Apelido de Itamar Franco “Agatunado” para ACM, “Boca de Jacaré” para Funaro (fonte)

Extra

O “Empregador Doméstico” Rachadinha familiar Funcionário fantasma por 27 anos (fonte)

Como você bem notou, caro leitor, a história do Geddel não é uma linha reta; é um círculo vicioso de malas, bunkers, rachadinhas, loterias milagrosas e, agora, flores milionárias. Para quem faz jornalismo no “olho do furacão”, fica a pergunta: essa nova “safra de rosas” de 2026 vai finalmente ter espinhos para a justiça baiana ou o Jacaré vai mais uma vez usar sua pele grossa para submergir no pântano da impunidade?

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