Vereador de Wanderley concentra ataques em Barreiras enquanto ignora a própria estrutura legislativa
Geremias Mascarenhas ignora opacidade em Wanderley para atacar Barreiras com ofensas, discriminação e defender empréstimo de R$ 140 mi sem transparência técnica.
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – A política do Oeste baiano vive um momento de forte tensionamento institucional provocado pela atuação do vereador de Wanderley, Geremias Mascarenhas (PSD). Com jornada oficial de 44 horas semanais vinculada ao exercício do mandato no município vizinho, o parlamentar passou a concentrar parte significativa de sua atuação pública em críticas direcionadas ao presidente da Câmara de Barreiras, Yure Ramon.

A postura levanta questionamentos políticos e administrativos: estaria um agente público eleito para representar Wanderley utilizando tempo, estrutura e visibilidade institucional para atuar politicamente contra órgãos de outra cidade?
Embora eleito para representar Wanderley, Geremias passou a construir uma atuação política voltada quase exclusivamente ao debate público de Barreiras, município que não integra sua circunscrição parlamentar.
Transparência limitada e promoção pessoal
Enquanto direciona sucessivos ataques à Câmara de Barreiras, Geremias pouco comenta a situação estrutural da própria Casa Legislativa da qual faz parte. O portal oficial da Câmara de Wanderley apresenta lacunas relevantes no que se refere à transparência ativa prevista na Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011).
Em levantamento realizado pelo Portal Caso de Política nas páginas institucionais da Prefeitura e da Câmara de Wanderley, não foram localizados documentos essenciais, como a Lei Orgânica Municipal e o Regimento Interno do Legislativo. Em contrapartida, áreas voltadas à divulgação de perfis parlamentares e imagens institucionais permanecem atualizadas com regularidade.
O contraste evidencia uma inversão de prioridades: enquanto a publicidade institucional recebe destaque, informações fundamentais ao controle social permanecem de difícil acesso ao cidadão.
Retórica agressiva e ataques pessoais
Nos vídeos divulgados nas redes sociais, que ultrapassam 21 minutos de duração, Geremias utiliza expressões como “pobre, preto e gordo” ao se referir a Yure Ramon. O conteúdo ultrapassa o debate político e passa a adotar uma linha de ataque pessoal – reprováveis – baseada em aspectos físicos e sociais.
Ao atribuir ao presidente da Câmara de Barreiras supostos “traumas” e uma alegada “Síndrome do Pequeno Poder” – expressão apresentada sem qualquer referência acadêmica ou fundamentação técnica – o vereador incorpora um discurso marcado por generalizações e interpretações subjetivas, distantes do debate institucional esperado de um agente público.
A utilização recorrente de conceitos psicológicos e sociológicos sem referência bibliográfica, autoria acadêmica ou base técnica verificável aproxima o discurso mais da retórica de redes sociais do que de um debate institucional qualificado.
A contradição se torna evidente quando o parlamentar classifica a presidência da Câmara de Barreiras, responsável pelo comando do Legislativo da maior cidade do Oeste baiano, como expressão de “pequeno poder”, ao mesmo tempo em que utiliza o próprio mandato em Wanderley como plataforma permanente de intervenção política em outro município.
Em vez de concentrar o debate nos aspectos técnicos da operação de crédito, os vídeos publicados pelo vereador priorizam ataques personalistas, ironias e construções performáticas voltadas ao ambiente das redes sociais.
O debate sobre o empréstimo de R$ 140 milhões
Outro ponto central da controvérsia envolve a defesa feita por Geremias da aprovação de um empréstimo de R$ 140 milhões sem a apresentação detalhada das planilhas técnicas da operação.
A exigência de transparência nesse tipo de projeto não decorre de disputa política, mas de previsão legal. A Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nº 101/2000), em seu artigo 32, estabelece que operações de crédito dependem de autorização legislativa específica e compatibilidade com os limites fiscais do ente público. Já o artigo 16 exige estimativa de impacto orçamentário-financeiro.
Além disso, normas do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA), especialmente a Instrução Normativa nº 01/2021, determinam a apresentação de plano de aplicação dos recursos, incluindo detalhamento das obras e destinação dos valores financiados.
Sem essas informações, a aprovação do projeto pode ser interpretada como autorização genérica de endividamento, situação que expõe gestores e parlamentares a riscos administrativos e jurídicos.
Aliados da própria base governista reconhecem reservadamente que a exigência de planilhas detalhadas não representa obstrução política, mas cautela administrativa diante de uma operação financeira de alto impacto fiscal.
No Parlamento de Barreiras, a resistência ao projeto de empréstimo de R$ 140 milhões já alcança a maioria absoluta: estima-se que entre 12 e 13 dos 19 vereadores rejeitam a proposta nos moldes em que foi apresentada. Essa cautela não é exclusiva da oposição, unindo parlamentares de diferentes blocos, inclusive da base aliada ao Executivo, que manifestam séria preocupação com a ausência de documentação técnica e planilhas detalhadas.
Para a maioria do plenário, votar uma matéria de tamanha magnitude financeira sem o devido respaldo documental e segurança jurídica seria negligenciar o dever de fiscalização e afrontar as exigências de transparência dos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas dos Municípios e o Ministério Público.
O princípio do plenário soberano
Outro ponto que chama atenção nas manifestações do vereador é a crítica recorrente à posição adotada por Yure Ramon de que “o plenário é soberano”.
No entanto, a soberania do plenário constitui princípio elementar do funcionamento legislativo brasileiro. Em qualquer Câmara Municipal, decisões estruturantes dependem da deliberação da maioria dos vereadores, e não exclusivamente da vontade do presidente da Casa.
Ao atacar esse entendimento, Geremias termina por confrontar um dos pilares do processo legislativo democrático, justamente enquanto acusa adversários de suposto autoritarismo.
Contradições regimentais
Embora critique sessões solenes, homenagens e títulos concedidos pela Câmara de Barreiras, Geremias conhece a natureza regimental dessas práticas, comuns aos parlamentos municipais em todo o país, inclusive nas câmaras do interior baiano.
A crítica generalizada a instrumentos tradicionais da atividade legislativa acaba revelando mais um discurso voltado ao desgaste político do que propriamente uma discussão técnica sobre o funcionamento institucional das Casas Legislativas.
Alianças, Projeto de Poder e Consequências Jurídicas
A ingerência de Geremias Mascarenhas em Barreiras revela um projeto político alinhado aos seus padrinhos: a deputada estadual Jusmari Oliveira (que busca a reeleição), o ex-prefeito de Barreiras, Zito Barbosa (pré-candidato a deputado federal), e o prefeito Otoniel Teixeira. Atuando como linha de frente desse grupo, Geremias visaria pavimentar uma candidatura a deputado estadual em 2026. Já para 2028, os caminhos se dividem entre duas frentes: a disputa pela prefeitura de Wanderley ou, conforme apontam informações de bastidores, a migração definitiva de seu domicílio eleitoral para Barreiras – onde reside atualmente – para disputar uma vaga na Câmara barreirense.
Essa escalada do conflito, marcada por ataques a Yure Ramon – que foi escanteado pelo grupo de Zito antes de ser eleito presidente em um processo democrático de independência -, ampliou o debate sobre os limites da imunidade parlamentar. A literatura jurídica é clara: a proteção ao mandato não alcança ataques de natureza pessoal ou discriminatória. Nesse contexto, as declarações de Geremias já motivam discussões sobre representações por quebra de decoro e medidas judiciais sob a Lei Federal nº 14.532/2023, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo, tornando-o inafiançável e imprescritível.
Enquanto a presidência da Câmara de Barreiras sustenta a necessidade de transparência antes da votação do empréstimo milionário, o vereador de Wanderley amplia um embate marcado por forte personalização e desvio de finalidade do cargo que ocupa. No centro da controvérsia permanece uma questão objetiva: exigir transparência prévia constitui obstrução política ou simples cumprimento do dever fiscalizador previsto em lei? Para o ordenamento jurídico e para a maioria do plenário barreirense, a resposta reside no rigor da lei, e não no volume das ofensas.
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