Exportações para a Europa podem aumentar em US$ 1 bi neste ano com entrada em vigor de acordo com Mercosul
Foto: Amanda Perobelli – REUTERS
Às vésperas da entrada em vigor do Mercosul-UE em 1º de maio, país firma acordo com Espanha por minerais críticos e Lula leva comitiva à Alemanha para Feira de Hannover
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O governo brasileiro estima que as exportações para a União Europeia (UE) podem crescer US$ 1 bilhão ainda em 2026 com a entrada em vigor do acordo comercial entre os dois blocos. A estimativa foi feita pelo presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir André Müller, após encontro de empresários brasileiros e espanhóis com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Barcelona.
O acordo entrará em vigor provisoriamente a partir de 1º de maio de 2026, conforme notificação formal da União Europeia aos países do Mercosul em 23 de março de 2026. Argentina, Brasil e Uruguai já concluíram seus procedimentos de ratificação, e 543 produtos terão as tarifas zeradas imediatamente.
“Só com os 543 produtos que vão sair imediatamente a desgravação, com a tarifa indo para zero, pode dar um ganho de US$ 1 bilhão já este ano, que se somariam aos já US$ 50 bilhões de exportação que o Brasil já tem (para a União Europeia)”, afirmou Müller.
Brasil e Espanha firmam acordo por minerais críticos
Ainda em solo espanhol, Brasil e Espanha deram um passo adicional na cooperação bilateral. No dia 17 de abril de 2026, foi assinado um Memorando de Entendimento (MdE) para parceria estratégica em minerais críticos – elementos essenciais para a transição energética, como lítio, nióbio, terras raras e cobre.
O acordo foi oficializado pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ao lado do presidente Lula, após a I Cúpula Brasil-Espanha e Mobilização Progressista Global, que contou com a presença do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e de ministros das áreas econômica e ambiental da Espanha.
Segundo Alexandre Silveira, a medida representa um avanço relevante para o setor:
“A assinatura deste memorando representa um passo estratégico para o fortalecimento do nosso setor de minerais críticos, um tema central para a transição energética e o desenvolvimento sustentável. Estamos unindo esforços para ampliar investimentos, fomentar a inovação tecnológica e agregar valor à cadeia produtiva, sempre com responsabilidade socioambiental e respeito à soberania de cada país.”
O memorando estabelece cooperação em diversas etapas da cadeia produtiva, como exploração, pesquisa, mineração, refino, reciclagem e transformação de minerais considerados estratégicos. Também estão previstas ações voltadas à gestão ambiental responsável, capacitação técnica, monitoramento e atração de investimentos.
Outro ponto relevante do acordo é o incentivo ao uso de tecnologias inovadoras, incluindo soluções digitais e inteligência artificial aplicadas à análise geológica e à gestão de cadeias de suprimentos .
Silveira destacou que o acesso a minerais críticos é fundamental para a segurança energética e o desenvolvimento industrial:
“Essa parceria abre novas oportunidades para o Brasil avançar na industrialização e no uso sustentável de seus recursos minerais, ao mesmo tempo em que fortalece nossas relações internacionais com base em benefícios concretos e mútuos.”
Lula visita Alemanha com foco no acordo Mercosul-UE
A ofensiva diplomática brasileira na Europa não parou na Espanha. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou no final de semana de 18 e 19 de abril de 2026 uma viagem à Alemanha com forte ênfase na agenda econômica e no avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia. A visita aconteceu em um momento estratégico, às vésperas da entrada em vigor provisória do tratado comercial, considerado um dos principais eixos da política externa brasileira.
O encontro entre Lula e o chanceler alemão Friedrich Merz marcou o terceiro diálogo entre os dois líderes, desta vez em caráter bilateral. Segundo reportagem da Deutsche Welle (DW), a aproximação ocorre em meio a um contexto de forte interdependência comercial entre os dois países, que mantêm relações econômicas relevantes e complementares, com destaque para o setor industrial e investimentos de empresas alemãs no Brasil.
Relações econômicas e presença empresarial
O Brasil é atualmente o principal parceiro comercial da Alemanha na América Latina, enquanto a Alemanha ocupa posição de destaque entre os parceiros do Brasil na União Europeia. Mais de 1.500 empresas alemãs atuam em território brasileiro, incluindo gigantes como BASF, Bosch, Siemens e Volkswagen.
Para reforçar essa relação, Lula levou centenas de representantes e mais de 160 expositores à Hannover, buscando consolidar a imagem do país como um ator relevante na indústria global e nas cadeias produtivas sustentáveis.
Brasil é país homenageado na Feira de Hannover
A passagem por Hannover concentrou parte central da agenda presidencial. O Brasil foi o país homenageado na tradicional Feira Industrial de Hannover, considerada a maior do setor no mundo. Lula participou da abertura do evento e visitou o estande brasileiro, que reuniu cerca de 140 empresas e ocupou uma área de 2.700 metros quadrados.
O espaço expositivo brasileiro foi dividido em áreas como transição energética, hidrogênio, digitalização, indústria avançada, economia circular e inteligência artificial. O CEO do evento, Jochen Köckler, destacou o papel estratégico do Brasil:
“O Brasil é o país parceiro ideal para a Feira de Hannover, não apenas por sua força em tecnologias-chave como digitalização e energias renováveis, mas também por sua crescente importância geopolítica. Em uma economia global em constante transformação, a estreita cooperação com o Brasil é de imensa importância estratégica. Essa combinação torna o país um parceiro indispensável para a Alemanha e a Europa.”
Além da feira, Lula participou do Encontro Econômico Brasil-Alemanha, que reuniu empresários e autoridades dos dois países para discutir investimentos, inovação, energia renovável e infraestrutura.
Comitiva ampla e acordos previstos
A viagem contou com uma delegação de 14 ministros, além de representantes de instituições estratégicas, como o BNDES, Petrobras, Polícia Federal e ApexBrasil. A expectativa foi de assinatura de pelo menos dez acordos bilaterais em áreas como defesa, meio ambiente, bioeconomia, infraestrutura e inteligência artificial.
Outro ponto de destaque foi a terceira rodada das consultas intergovernamentais de alto nível entre Brasil e Alemanha, mecanismo de diálogo restrito a poucos parceiros de Berlim. A retomada desse formato, interrompido por anos, simbolizou o fortalecimento das relações bilaterais.
Oportunidades em dois grandes grupos no acordo Mercosul-UE
Voltando ao acordo comercial, levantamento da ApexBrasil identificou que os 543 produtos com desgravação imediata representam US$ 43,9 bilhões em importações anuais pela UE (média 2020-2024), dos quais apenas US$ 1,1 bilhão vêm atualmente do Brasil. O estudo dividiu as oportunidades em duas categorias:
- Produtos de abertura (244 itens): casos em que o Brasil não tem participação significativa nas importações europeias, mas é competitivo mundialmente. A participação brasileira atual varia de 1,5% a 16% nesses segmentos.
- Produtos agropecuários com cotas: carnes, açúcar, etanol, arroz, milho, mel e cachaça terão acesso preferencial por cotas com tarifa zero, além da eliminação total de tarifas para sete tipos de frutas.
Frutas: sete tipos com tarifa zero imediata
Um dos ganhos mais imediatos do acordo está na fruticultura. Sete tipos de frutas terão tarifa zero sem cotas a partir de 1º de maio de 2026:
Fruta | Tarifa atual | Prazo para zerar |
| Uva fresca de mesa | 11% | Imediato |
| Abacate | 4% | 4 anos |
| Limões e limas | 14% | 7 anos |
| Melancia e melão | 9% | 7 anos |
| Maçã | 10% | 10 anos |
O presidente da ApexBrasil destacou que a safra brasileira coincide com o inverno europeu, “quando a disponibilidade é menor, de modo que ambos os mercados se complementam”.
Carnes, etanol e açúcar: cotas garantidas
Os produtos do agronegócio considerados “sensíveis” pelos europeus terão acesso por meio de cotas com tarifa zero ou reduzida a partir de 1º de maio de 2026:
Produto | Cota | Condição |
| Milho | 1 milhão t | Tarifa zero imediata |
| Carne de aves | 180 mil t | Tarifa zero |
| Açúcar | 180 mil t | Tarifa zero |
| Etanol industrial | 450 mil t | Tarifa zero |
| Carne bovina | 99 mil t | Tarifa reduzida (7,5%) |
| Arroz | 60 mil t | Tarifa zero |
| Mel | 45 mil t | Tarifa zero |
| Carne suína | 25 mil t | €83/t |
| Cachaça | 2,4 mil t | Tarifa zero |
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, afirmou que “produtos como milho, etanol, arroz e proteínas suína e de aves começam a ter imediatamente cotas com tarifa zero, o que beneficia diretamente o Brasil, grande exportador desses produtos”.
Café: benefício gradual com exigência de origem
O café, segundo produto mais exportado pelo Brasil para a Europa (US$ 5,58 bilhões em 2024), terá suas tarifas – atualmente entre 7,5% e 11% – eliminadas em prazos de 4 a 7 anos. O acordo exige que 40% do café verde e 50% do café solúvel sejam originários do Brasil.
Indústria: as 244 oportunidades de abertura
Além do agronegócio, o acordo abre espaço para produtos industriais onde o Brasil é competitivo, mas ainda tem participação modesta no mercado europeu:
Máquinas e equipamentos (participação atual: 1,5%):
- Motores para geração de energia
- Bombas para combustíveis
- Autopeças
- Compressores para equipamentos frigoríficos
Bens de consumo (participação atual: 16%):
- Óculos de sol
- Joias de ouro e prata
- Partes para calçados
- Indicadores de velocidade
Manufaturados diversos (participação atual: 4,1%):
- Mármore e granito
- Ardósia
- Facas e lâminas cortantes
- Artefatos de amianto para freios
- Embalagens de madeira
Produtos químicos (participação atual: 10,8%):
- Óleos essenciais cítricos
- Amálgamas de metais preciosos
Por região, a ApexBrasil identificou que a maior parte das oportunidades – 266 produtos – está na Europa Ocidental.
O que o Brasil já exporta para a Europa
Atualmente, a pauta de exportações brasileiras para a União Europeia é concentrada em poucos produtos. Em 2024, os dez principais itens foram:
- Óleos brutos de petróleo: US$ 11,15 bi (23,09%)
- Café: US$ 5,58 bi (11,56%)
- Resíduos de soja (tortas): US$ 4,17 bi (8,65%)
- Soja: US$ 2,92 bi (6,04%)
- Minérios de cobre: US$ 2,75 bi (5,69%)
- Pastas químicas de madeira: US$ 2,42 bi (5,01%)
- Sucos de frutas: US$ 1,86 bi (3,84%)
- Minérios de ferro: US$ 1,42 bi (2,95%)
- Óleos de petróleo não brutos: US$ 1,25 bi (2,59%)
- Ferro-ligas: US$ 0,90 bi (1,86%)
Minério de ferro, aço e petróleo, vale notar, já entravam na Europa com tarifa zero antes mesmo do acordo.
Contrapartida: produtos europeus protegidos
O acordo é bilateral. O Brasil também abrirá seu mercado para produtos europeus, com tarifas reduzidas gradualmente para queijos, vinhos, champanhe, chocolate, azeite e autopeças.
Além disso, 350 denominações geográficas europeias serão protegidas no mercado brasileiro – ou seja, produtos como Presunto Parma, Champanhe, Queijo Feta e vários tipos de queijo francês e italiano não poderão ser produzidos ou vendidos com esses nomes por fabricantes brasileiros. Fabricantes locais terão prazos de 5 a 10 anos para se adaptar às novas regras.
Cenário geopolítico: Brasil como parceiro estratégico da Europa
A aproximação com Europa ocorre em um contexto de diversificação de parcerias. O cientista político Oliver Stuenkel, em entrevista à Deutsche Welle, destacou que:
“O Brasil gostaria muito de fortalecer sua cooperação com a Europa em elementos de terras raras, pois deseja ter o máximo de alternativas possível e não depender exclusivamente da China e dos Estados Unidos.”
Stuenkel também ressaltou a necessidade de maior protagonismo europeu: “A Europa, e a Alemanha em particular, precisa partir para a ofensiva e não se acomodar com os louros das últimas décadas”, acrescentando que “a história de Lula e seu governo é: ‘Queremos ser o mais pragmáticos possível’”.
O deputado alemão Anton Hofreiter, do partido Os Verdes, também comentou a aproximação:
“Europa, e em particular a Alemanha, deveriam prestar ainda mais atenção ao Brasil, já que este país é um aliado potencialmente próximo das democracias europeias. Espero que a atenção se afaste da disputa sobre a agricultura e se concentre no âmbito onde há maior valor agregado para ambos os países, ou seja, no setor industrial.”
A estratégia brasileira, conforme reportagem da Deutsche Welle, inclui a promoção da política de reindustrialização baseada na iniciativa Nova Indústria Brasil, lançada há dois anos. O país aposta em um modelo industrial de longo prazo, com ênfase em inovação, descarbonização e energias renováveis.
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