EUA dão aviso ao Brasil para ditar regras contra o crime que eles mesmos financiam
Washington quer classificar CV e PCC como “terroristas” e dar lição de moral no mundo. México revela que 80% das armas dos cartéis saem de lojas americanas. Enquanto isso, o império que não resolve a própria desgraça (100 mil mortes por opioides por ano, tiroteios em massa, violência policial) acha que tem autoridade para ditar regras no Brasil
Caso de Política | Luís Carlos Nunes – O governo dos Estados Unidos enviou um recado ao presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, durante reunião em Brasília: Washington está decidido a classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras – com ou sem o aval do governo Lula. A informação é do jornalista Paulo Cappelli, do Metrópoles, publicada nesta sexta-feira (17).
O argumento dos americanos é o de sempre: as facções movimentariam grandes quantias por meio de lavagem de dinheiro, e a classificação como terroristas facilitaria a “asfixia financeira” desses grupos. O aviso prévio, dizem, seria uma “deferência” ao Brasil – diferentemente do que fizeram com o México, que foi pego de surpresa quando Washington classificou seis cartéis como terroristas sem qualquer cerimônia.
Mas há um pequeno detalhe que a arrogância americana insiste em ignorar. Enquanto o Departamento de Estado se prepara para lacrar contra o crime organizado latino-americano, o próprio governo mexicano soltou uma bomba que expõe a cara lavada da hipocrisia ianque.
80% das armas dos cartéis vieram dos EUA

No último dia 23 de fevereiro, o secretário de Defesa do México, Ricardo Trevilla Trejo, revelou que cerca de 80% das armas apreendidas em operações contra os cartéis de drogas no país são de origem norte-americana. Segundo Trevilla, das quase 23 mil armas confiscadas durante o governo da presidente Claudia Sheinbaum, a maioria esmagadora saiu de lojas legalizadas nos Estados Unidos.
Ou seja: o mesmo país que agora quer ditar regras contra o crime que ele mesmo financia é o maior fornecedor de armas para as organizações criminosas que diz combater. O México vive uma guerra interna financiada pelo próprio vizinho do norte. Milhares de agentes de segurança mexicanos já morreram em confrontos – com balas fabricadas nos EUA.
A pergunta que não quer calar: como levar a sério uma potência que arma os criminosos e depois quer ditar as regras do jogo?
“Deferência” ou intimidação?
A palavra “deferência”, usada pelos americanos, é uma piada de mau gosto. Trata-se, na verdade, de intimidação pura e simples. O governo Trump já deixou claro que não precisa da concordância brasileira para agir unilateralmente. A classificação de um grupo como terrorista é uma decisão interna dos EUA, e a Casa Branca já bateu o martelo: a documentação está pronta para ser encaminhada ao Congresso americano.
A reunião com Galípolo foi, no fundo, uma formalidade. Um “estamos avisando” antes de fazer o que bem entendem. O governo Lula, corretamente, argumentou que o sistema legal brasileiro não enquadra facções criminosas como terroristas – a lei brasileira exige motivação ideológica, religiosa ou de ódio, o que não é o caso do PCC ou do CV. Mas para Washington, detalhes jurídicos brasileiros são meros obstáculos a serem atropelados.
O império que não resolve a própria desgraça
Enquanto os EUA se arvoram em “polícia do mundo”, o país enfrenta uma crise de saúde pública e segurança que é um espelho de sua própria incompetência. Os números são estarrecedores e vão muito além dos opioides:
Crise de overdose múltipla: opioides, estimulantes e drogas sintéticas
- Mais de 100 mil mortes por overdose por ano no pico da crise, com mais de 71 mil mortes registradas no período de 12 meses até outubro de 2025 (CDC, maio de 2025).
- Estimulantes (metanfetamina e cocaína) agora matam mais que opioides em várias regiões. Em junho de 2025, os estimulantes ultrapassaram os opioides como causa subjacente de morte em atestados de óbito nos EUA – um marco histórico (Medscape, junho de 2025).
- Entre 2016 e 2025, o envolvimento de estimulantes em mortes por overdose de fentanil aumentou 164% (NPR, setembro de 2025).
- Novas drogas sintéticas surgem mensalmente no mercado americano. Químicos descrevem a oferta de drogas de rua como uma “sopa sintética” – uma mistura imprevisível e tóxica (NPR, setembro de 2025).
- Substâncias perigosas como cychlorphine, nitazenes, medetomidina e xilazina estão se espalhando. A xilazina, conhecida como “tranq”, causa lesões de pele devastadoras. A cychlorphine foi detectada pela primeira vez na Carolina do Sul em 2026, um opioide sintético tão potente que pegou as autoridades de surpresa (The Guardian, janeiro de 2026).
- “Uma vez por mês, estamos encontrando algo que nunca vimos antes nos Estados Unidos”, afirmou Ed Sisco, químico pesquisador do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST) (Institute of Medicine of Chicago, fevereiro de 2026).
Violência armada e falhas estruturais
- Tiroteios em massa recorrentes – escolas, supermercados, igrejas, shows. Nenhum lugar está a salvo da epidemia de armas que o próprio país se recusa a controlar.
- Violência policial endêmica – contra a população negra, contra minorias, contra qualquer um que cruze o caminho de um sistema policial treinado para matar.
- Sistema prisional superlotado e desumano – uma máquina de produzir mais criminalidade em vez de ressocializar.
Mas, ao invés de olhar para dentro, o império prefere exportar sua “guerra ao terror” para a América Latina. A estratégia é antiga e conhecida: criar um inimigo externo para desviar a atenção dos problemas domésticos. E, de quebra, garantir controle geopolítico sobre a região e acesso irrestrito a seus recursos naturais.
O medo real do Brasil: intervenção disfarçada
A resistência do governo Lula é legítima e necessária. A preocupação é que essa classificação abra um precedente perigosíssimo: uma brecha para intervenções externas ou sanções indiretas que afetem a soberania nacional. O México e a Colômbia já viram essa novela de perto. Depois que Trump classificou cartéis mexicanos como terroristas, o país passou a sofrer pressões econômicas e até operações militares americanas em seu território.
Não é teoria da conspiração. O próprio governo Trump já demonstrou o modus operandi: classifica-se um grupo como “terrorista”, depois se usa isso como justificativa para ataques militares, bombardeios de embarcações suspeitas e imposição de sanções financeiras. O Brasil, sob a liderança de Lula, não vai se curvar a esse tipo de chantagem.
E há ainda o risco econômico. Empresas americanas poderiam ser proibidas de fazer negócios com qualquer entidade que, direta ou indiretamente, se relacione com as facções – o que incluiria, potencialmente, o sistema financeiro brasileiro como um todo. Até o Pix, a ferramenta de pagamento brasileira de sucesso global, está no radar dos EUA, que veem com maus olhos qualquer transação financeira que não possam controlar.
A hipocrisia em sua forma mais pura
A revelação mexicana escancara o cinismo americano: o mesmo país que abastece os cartéis com armas pesadas quer ditar como o Brasil deve combater o crime organizado. É o cúmulo da hipocrisia.
O governo Lula está certo em resistir. Classificar o PCC e o CV como terroristas não resolverá o problema do crime organizado – apenas dará aos EUA mais um pretexto para intervir onde não são chamados. A solução, como já disse Lula na ONU, passa por cooperação policial, combate à lavagem de dinheiro e contenção do tráfico de armas. Não por imposições unilaterais de um império decadente que mal consegue governar a si mesmo – e que ainda por cima financia os criminosos que diz combater.
O presidente Lula e sua equipe demonstram, mais uma vez, estatura diplomática ao não se curvarem às pressões de Washington. Enquanto os EUA tentam exportar seus fracassos na forma de políticas externas fracassadas, o Brasil aposta no diálogo e na cooperação horizontal entre nações soberanas.
O recado está dado. O Brasil não deve se curvar.
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