Irã reabre Estreito de Ormuz, mas Trump mantém bloqueio e eleva tom de guerra
Uma embarcação no Estreito de Ormuz, ao largo da costa da província de Musandam, em Omã, em 12 de abril de 2026. (Foto: REUTERS )
Chanceler iraniano garante passagem de navios durante cessar-fogo; petróleo cai. Ameaças de Washington aumentam tensão e risco de conflito no Golfo Pérsico
Caso de Política com Agências – O chanceler do Irã, Abbas Araghchi, anunciou nesta sexta-feira (17) que o Estreito de Ormuz foi “declarado completamente aberto” à navegação comercial durante o período restante do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, conforme informou a BBC. A decisão veio depois que o governo iraniano impôs restrições à passagem de navios por semanas, em resposta ao ataque conjunto de EUA e Israel ao país em fevereiro – uma reação defensiva que, ao menos, tinha o mérito da clareza.
Horas depois do anúncio iraniano, o presidente Donald Trump usou sua rede Truth Social para declarar que o bloqueio naval contra o Irã continuará “em pleno vigor e efeito”. É mais um capítulo na longa tradição americana de confundir força com razão. Segundo a BBC, a medida visa pressionar a economia iraniana mirando especificamente a receita do petróleo e os pedágios que Teerã cobrava pela passagem.
A agência da ONU para assuntos marítimos (IMO) declarou que não há base legal no direito internacional para bloquear estreitos usados para navegação internacional. Mas, para Washington, o direito internacional sempre foi sugestão, nunca regra.
Enquanto Trump endurecia o discurso, os mercados reagiam à reabertura do Estreito. O barril de petróleo Brent caiu abaixo de US$ 90 pela primeira vez em mais de um mês – uma prova de que a paz, quando ensaiada, beneficia a todos.
O alívio, no entanto, pode ser temporário. Dados compilados pela Bloomberg mostram que o tráfego na região continua muito abaixo dos níveis normais: na terça-feira (14), apenas 11 navios comerciais foram observados atravessando a via, ante uma média de 135 por dia em tempos de paz. O Centro Conjunto de Informações Marítimas (JMIC) já havia reportado semanas antes que o tráfego estava “praticamente paralisado”. Ou seja: o bloqueio de Trump já existia antes mesmo de ser anunciado.
A reação iraniana à manutenção do bloqueio veio rápida e em tom elevado – mas não mais elevado do que a própria retórica belicista de Washington. O assessor militar do líder supremo do Irã, Mohsen Rezaei – ex-comandante da Guarda Revolucionária – afirmou à televisão estatal Press TV: “Nossos lançadores estão agora travados nos navios de guerra e os afundaremos a todos”.
Em entrevista à AFP, o conselheiro militar provocou: “O senhor Trump quer ser a polícia do Estreito de Ormuz. Esse é realmente o seu trabalho?” A pergunta, no fundo, é retórica: o papel de polícia do mundo que os EUA insistem em desempenhar raramente trouxe estabilidade duradoura a qualquer região. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica advertiu que qualquer navio militar que se aproxime do Estreito violará o frágil cessar-fogo de duas semanas entre Irã e EUA, que expira em 22 de abril.
Apesar das bravatas de Washington e das ameaças de Teerã, os fatos no mar contradizem a narrativa de bloqueio total. Dados de rastreamento marítimo compilados pela Bloomberg mostram que ao menos três embarcações conseguiram atravessar o Estreito recentemente, desafiando as restrições – como se o mar se recusasse a obedecer a decretos unilaterais. O Jornal de Negócios, citando a Bloomberg, acrescentou que o bloqueio de Trump “já existia antes dos Estados Unidos anunciarem o seu próprio”, e que quatro navios passaram pela região nas 24 horas anteriores à publicação.
A própria BBC colocou em dúvida a eficácia do cerco ao reportar que duas embarcações ligadas ao Irã mudaram de direção após o início das restrições – embora houvesse suspeitas de “spoofing” (falsificação de sinais) para disfarçar suas localizações. Em outras palavras: a realidade no terreno é sempre mais complexa do que a versão oficial.
O cessar-fogo de duas semanas entre Irã e EUA, que permitiu a reabertura do Estreito, expira em 22 de abril. Se não houver avanço nas negociações – e a manutenção do bloqueio não é exatamente um sinal de boa vontade -, a tensão pode escalar novamente. E com ela, o preço do petróleo e o risco de um confronto militar direto na região. O mundo, mais uma vez, paga a conta da política externa americana.
Caso de Política | A informação passa por aqui.
#Irã #EstreitoDeOrmuz #Trump #GuerraNoGolfo #Petróleo #TensãoGeopolítica #EUA








